O futuro do advogado não é técnico nem digital. É estratégico ou inexistente…

O futuro do advogado não é técnico nem digital. É estratégico ou inexistente…
A transformação que estamos vivendo não é operacional. Ela é existencial. A IA não está apenas fazendo o trabalho mais rápido. Ela está forçando uma redefinição brutal de valor/Freepik
Publicado em 29/04/2025 às 9:00

Paulo Silvestre de Oliveira Junior*

Enquanto muitos escritórios correm para enfileirar ferramentas de inteligência artificial, quase ninguém percebe que a verdadeira corrida não é para automatizar tarefas. É para não se tornar irrelevante. A tecnologia não está ameaçando o Direito. Ela está expondo verdades… Há muito tempo, o que se paga caro no mercado jurídico não é o tempo. É a capacidade de construir valor onde a regra escrita termina e a incerteza começa.

A transformação que estamos vivendo não é operacional. Ela é existencial. A IA não está apenas fazendo o trabalho mais rápido. Ela está forçando uma redefinição brutal de valor. De executor técnico para estrategista de impacto. E quem ainda acha que pode terceirizar essa transformação para a tecnologia vai descobrir da pior maneira que não existe atalho para se tornar relevante no novo mercado.

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Olhando para os números fica claro. O advogado médio nos Estados Unidos cobra entre 300 e 400 dólares por hora. Atividades repetitivas como pesquisas, due diligence e revisão de documentos consomem facilmente centenas de horas anuais por profissional. Falamos de cerca de 350 horas liberadas por ano, o que representa aproximadamente 100 mil dólares de trabalho que deixam de existir na forma como conhecíamos.

Mas o problema nunca foi sobre economizar tempo. É sobre o que você faz com o tempo devolvido. Velocidade sem direção é apenas uma forma mais rápida de se perder. A maioria ainda não percebeu que está prestes a ser colocada à prova não como técnico, mas como pensador estratégico.

Tenho vivido essa transição de perto, dentro e fora do Brasil. E o que me preocupa genuinamente é a distância crescente entre quem entende o que está acontecendo e quem ainda acha que basta “usar IA” para sobreviver. No cenário brasileiro, vemos muitos apostando que alguma nova ferramenta mágica vai resolver o problema da obsolescência. Não vai. Porque o desafio não é de tecnologia. É de mentalidade.

A IA escancara algo que era confortável ignorar. Nem toda habilidade técnica é indispensável. Nem toda experiência antiga é garantia de futuro. Inteligência Artificial não substitui advogados. Substitui advogados que pararam de pensar. A nova moeda de valor será a capacidade de construir estratégia, tomar decisões sob incerteza e gerar
impacto real no cliente.

Quem usar a IA apenas para acelerar o que já faz vai apenas chegar mais rápido a lugar nenhum.

Vi isso acontecer na prática. Em um projeto recente, aplicamos IA para mapear padrões ocultos em litígios tributários. Isso nos permitiu redesenhar a estratégia de atuação do cliente de maneira preventiva, reduzindo não só riscos, mas fortalecendo a posição de mercado. Não foi uma solução mágica. Foi o resultado de combinar inteligência humana e artificial com foco estratégico e pragmatismo extremo.

Essa é a diferença que quase ninguém está falando. A IA não substitui inteligência. Ela amplia inteligência para quem sabe usá-la. E para quem não sabe, ela apenas acelera a irrelevância.

A maior barreira que vejo no setor é emocional. Muitos sentem, mesmo sem dizer, que se perderem a execução técnica perdem também a razão de existir profissionalmente. Essa é uma dor real. Mas a pior escolha é se agarrar a um papel que está se desintegrando diante dos olhos.

A única forma de atravessar essa transformação é ressignificar seu valor. De executor a estrategista. De técnico a líder de pensamento. E isso não acontece apenas implementando uma nova ferramenta. Precisa começar pela mentalidade. Sempre digo que antes de redesenhar processos, é preciso redesenhar o modelo mental do escritório.Sem mudar a forma como se enxerga valor, qualquer inovação vira só “maquiagem”.

Outro ponto que vejo ser decisivo e pouco discutido. Não adianta treinar advogados apenas para responder mais rápido. A habilidade que vai definir a próxima geração é a capacidade de fazer as perguntas certas. Formular boas perguntas vai valer mais do que encontrar boas respostas. Em um mundo de excesso de dados, quem souber perguntar melhor vai construir estratégias melhores.

E se há algo que recomendo fortemente a quem está começando a desenhar essa transformação é mudar a forma como enxerga os investimentos em IA. Não use IA apenas para cortar custo ou ganhar tempo. Use para elevar o nível das conversas dentro do escritório. Use para criar espaço para que os advogados possam trabalhar em negociações mais estratégicas, pensar em cenários futuros, redesenhar relações contratuais, antecipar riscos regulatórios.

Outro erro comum é investir demais em produtividade individual e esquecer da inteligência coletiva. A vantagem real virá da capacidade dos times pensarem em rede, conectando diferentes perspectivas, provocando debates internos inteligentes, cruzando dados com visões práticas. Um escritório que apenas otimiza indivíduos não vai sobreviver à complexidade crescente do mercado.

E talvez o conselho mais estratégico que costumo dar – e que quase nunca ouço por aí – é que a transformação mais importante não é a implementação de IA. É a criação de um radar estratégico. Um mecanismo interno que permita ao escritório monitorar tendências, captar sinais fracos, antecipar movimentos de mercado. Não para virar refém de modismos. Mas para agir com disciplina e inteligência, ajustando o curso de forma contínua.

Esses movimentos, na prática, vão separar quem lidera de quem fica para trás.

Minha recomendação, construída em anos de prática real e projetos de transformação, é simples e direta. Comece pequeno, mas comece direito. Escolha uma frente crítica. Diagnostique onde a IA pode gerar valor estratégico, não apenas eficiência. Implemente um projeto piloto que seja sério, mensurável e capaz de mostrar impacto real em pouco tempo. Aprenda rápido. Ajuste mais rápido ainda. Cresça de forma consistente.

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E principalmente, abandone a ilusão de que existe inovação sem desconforto. Toda verdadeira transformação começa com desconstrução. Começa quando alguém tem a coragem de aceitar que a única coisa que não pode ser delegada nem automatizada é a capacidade de pensar melhor.

O mercado brasileiro tem talento e potencial para liderar essa nova fase. Mas talento sem coragem se torna apenas estatística. Muito em breve, não será sobre quem dominou uma nova tecnologia. Será sobre quem dominou a si mesmo o suficiente para mudar.

Porque o mercado que você conhecia já não existe mais. E a escolha que resta é simples. Ser protagonista da nova história ou espectador da última página.

*Paulo Silvestre de Oliveira Junior é especialista em desenvolvimento estratégico e inovação no setor jurídico, com mais de 14 anos de experiência em liderar projetos transformadores para departamentos jurídicos e escritórios de advocacia. Graduado em Gestão Estratégica pelo IBTA, possui especializações em Business Innovation e um MBA em Segurança da Informação pela FIAP, além de formação em Inovação Corporativa e Estratégia Digital pelo MIT. É o criador do Generative AI-Centric Law Firm Model, framework pioneiro que orienta a adoção estratégica de IA generativa por escritórios de advocacia e hoje é uma referência global. Atualmente, atua como Diretor de Inovação e Desenvolvimento no Buttini Moraes Advogados e é fundador da Absense Tecnologia e da IT Legal Experts – Innovation & Technology. Autor de “Direito em Transformação – Estratégia e Inovação para Advogados”, Paulo é reconhecido por integrar tecnologia e estratégia para impulsionar a inovação no Direito, inspirando escritórios ao redor do mundo a transformar suas operações.

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