O dia em que o Direito virou unicórnio

O dia em que o Direito virou unicórnio
A Enter se torna o primeiro unicórnio de IA da América Latina - notícia tem gosto de tese validada para quem apostou em legaltech antes de ser mainstream. Na foto, Henrique Vaz, Mateus Costa-Ribeiro e Michael Mac-Vicar, fundadores da Enter/Divulgação
Publicado em 07/05/2026 às 9:00

Priscila Spadinger*

Há notícias que você lê como informação. E há notícias que você lê como uma confirmação íntima, aquelas que chegam para validar anos de convicção que, muitas vezes, você precisou sustentar quase sozinha. Foi exatamente assim que eu recebi, nessa semana, o anúncio de que a Enter, startup brasileira de inteligência artificial jurídica, alcançou valuation de US$ 1,2 bilhão em sua rodada Série B, tornando-se o primeiro unicórnio de IA da América Latina e o primeiro novo unicórnio brasileiro desde 2024. E isso não aconteceu em fintech, delivery ou rede social. Aconteceu no Direito.

A rodada foi liderada pelo Founders Fund, o fundo de Peter Thiel, com participação de nomes como Sequoia Capital, Ribbit Capital, Kaszek, ONEVC e Atlantico. Juntos, aportaram mais de R$ 500 milhões numa empresa com menos de três anos de existência, que triplicou seu valuation em relação à rodada anterior e já processa mais de 300 mil casos judiciais por ano, com clientes como Magalu, Latam e Itaú.

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Seu sistema, o EnterOS, automatiza de ponta a ponta o contencioso empresarial: leitura de processos, construção de teses, detecção de fraudes, elaboração de defesas, sempre com revisão humana. Desde a Série A, a receita cresceu mais de dez vezes e a base de clientes triplicou.

O Direito deixou de ser visto apenas como custo, burocracia ou retaguarda. Ele entrou no centro da inteligência artificial, e o mundo inteiro começou a pagar para ver.

Para quem olha de fora, pode parecer mais uma notícia de venture capital. Para mim, como fundadora e CEO de uma venture builder dedicada exclusivamente a legaltechs, essa notícia tem outro peso. O Brasil inicia 2026 com cerca de 75 milhões de processos em andamento e concentra mais de 90% das ações trabalhistas do mundo.

Somos o maior mercado litigioso do planeta. Há anos, toda a indústria sabia que havia dor, ineficiência e desperdício de inteligência humana em tarefas repetíveis. Mas poucos acreditavam que dali sairia uma das maiores oportunidades de tecnologia da nossa geração. A Enter prova, com números reais, capital global e clientes enterprise, que o mercado jurídico brasileiro não é apenas grande: ele é exponencial.

O que essa notícia significa para o ecossistema inteiro

Quando uma empresa como a Enter vira unicórnio, ela não cresce sozinha. Ela eleva a régua do mercado inteiro. Ela educa investidores que ainda tratavam legaltech com timidez. Ela chama a atenção de boards, fundos de corporate venture, aceleradoras e compradores estratégicos. Ela faz o mercado perguntar em voz alta: “Quais são as próximas legaltechs brasileiras com produto robusto, modelo escalável e dor real para resolver?”

Durante anos, parte do esforço era convencer investidores e parceiros de que o setor legal tinha tamanho e profundidade para gerar empresas extraordinárias. Com a Enter alcançando US$ 1,2 bilhão, ao lado de Harvey (US$ 11 bilhões) e Legora (US$ 5,5 bilhões) nos Estados Unidos e na Europa, esse argumento deixou de ser tese e virou benchmark.

Há ainda uma dimensão estratégica que me interessa profundamente como CEO: empresas no estágio e na trajetória da Enter se tornam, inevitavelmente, compradoras. Elas precisam verticalizar, expandir verticais, incorporar tecnologias complementares, acessar novos segmentos e mercados.

Uma venture builder especializada em legaltech, com portfólio diversificado, dealflow qualificado e governança institucional, é exatamente o tipo de parceira estratégica que players de alto crescimento buscam para acelerar M&A.

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O portfólio da Aleve pode, no horizonte dos próximos anos, ser adquirido, integrado ou co-construído com empresas que a Enter representa como categoria. Isso multiplica o valor de saída das nossas empresas e posiciona a Aleve na mesa das grandes transações do setor.

Uma venture builder especializada em legaltech não precisa mais explicar por que o mercado jurídico importa. Agora, a conversa começa já no segundo capítulo.

O impacto também é direto sobre a percepção dos nossos investidores. O mercado global de legaltech deve crescer a uma taxa composta de 9% ao ano até 2030. Agora, ele tem um benchmark brasileiro, algo que há dois anos sequer existia.

A Enter representa a prova de que a tese era correta e que o timing era preciso. Para quem ainda considera entrar, ela remove a principal objeção do passado: a de que o setor jurídico no Brasil era complexo demais para gerar retorno exponencial.

Complexo? Sim. Mas é exatamente essa complexidade que criou a oportunidade. Um ambiente de altíssima litigiosidade, baixa penetração de tecnologia e pressão crescente por eficiência operacional é um laboratório perfeito para produtos que resolvem problemas reais com inteligência artificial.

Responsabilidade que vem com o protagonismo

Dito isso, preciso ser honesta sobre algo que me parece inegociável nesse momento de euforia coletiva: legaltech não é só automação. Legaltech envolve confiança, ética, segurança de dados, revisão humana, auditabilidade e impacto direto sobre direitos, empresas e pessoas.

O futuro não pertencerá a quem simplesmente “colocar IA” em qualquer fluxo jurídico. Pertencerá a quem construir soluções juridicamente consistentes, operacionalmente robustas e economicamente sustentáveis. A escala que a Enter demonstrou alcançar só é possível porque eles entenderam isso desde o início.

Recebo esta notícia com orgulho genuíno. Orgulho por ser brasileira. Orgulho por ser advogada. Orgulho por ter apostado em legaltech quando ainda parecia cedo demais. E, principalmente, orgulho por ver o mundo finalmente enxergando aquilo que muitos de nós já sabíamos há anos: o Direito é uma das maiores fronteiras de inovação do século XXI. A Enter abriu uma porta simbólica e financeira. O ecossistema precisa atravessá-la com maturidade, responsabilidade e ambição.

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Quando uma legaltech brasileira vira unicórnio, não é apenas uma empresa que vence. É uma tese que amadurece, um mercado que ganha coragem e um ecossistema inteiro que passa a ser levado mais a sério. Para quem escolheu dedicar sua vida profissional a construir esse futuro, é impossível não sorrir e pensar:

Nós estávamos certos.

*Priscila Spadinger é CEO da Aleve LegalTech Ventures S/A, advogada e palestrante, professora de M&A e Venture Capital.

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SÃO PAULO WEATHER