O cheque que está esperando o advogado empreendedor

O cheque que está esperando o advogado empreendedor
Startups se diferenciam das empresas tradicionais pela busca de modelos de negócios escaláveis e pela atuação em cenários de maior incerteza/Magnific
Publicado em 16/07/2026 às 7:00

Priscila Spadinger*

Essa semana bastou ligar a TV pra ver reportagens explicando o que é uma startup e sempre parece ser algo novo, que começou agora no mercado. Até fui entrevistada em uma delas, uma grande honra e coragem, pelo fato de ser uma advogada investidora anjo, ainda tão diferente no mercado. A boa notícia é que finalmente as reportagens não mostram mais as startups como sinônimo de garagem, moletom e um deck bonito de PowerPoint.

Não é e elas estão literalmente voando MUITO alto!

O que separa, de verdade, startup de empresa tradicional

Empresa tradicional otimiza o que já existe. Busca margem, previsibilidade, estabilidade num mercado que ela já entende. Startup faz o oposto: procura um modelo de negócio repetível e escalável dentro de um território de incerteza que ela escolheu enfrentar. Aceita não saber se vai dar certo, em troca da chance de crescer receita muito mais rápido que custo. É essa conta, e só essa conta, que qualquer fundo sério olha antes de assinar um cheque.

Leia também: Por que bons fundadores fazem legaltechs sobreviverem além da ideia inicial

E aqui está a parte que nenhuma reportagem contou até agora: essa lógica, que nasceu para vender aplicativo e software, entrou de mansinho no território mais conservador que existe. O Direito.

O jurídico virou aposta de fundo internacional

Os números deixam claro que isso não é discurso motivacional de LinkedIn. O mercado global de legaltech caminha para US$ 68 bilhões até 2034, crescendo 8,7% ao ano. E o pedaço desse mercado que usa inteligência artificial cresce ainda mais rápido: de US$ 2,82 bilhões em 2025 para US$ 8,41 bilhões em 2029, taxa de 31% ao ano.

Fundo internacional não aposta em advogado. Aposta em quem resolveu o problema do advogado numa escala que nenhum escritório sozinho resolveria.

O funil que ninguém te contou que existe

Hoje existem fundos de investimentos gigantes que já olham para uma startups faturando, no mínimo, 350 mil dólares por ano, algo perto de R$ 2 milhões por ano e, se o modelo provar que funciona nessa escala pequena, entregam cheques de US$ 500 mil a US$ 5 milhões para fazer esse negócio crescer ainda mais.

Não é sobre pitch bonito. É sobre prova. Tração provada compra confiança. Confiança compra cheque grande. E aqui construímos lado a lado ao founder e idealizador da startup legaltech, o crescimento que ela precisa para acessar dinheiro assim no mercado de venture capital.

A Aleve vive esse funil todos os dias. Não como plateia, mas sim como construtora lado a lado aos founders e idealizadores da startup, como mencionei acima.

Fundamos a Aleve em 2021, antes de essa tese virar manchete de telejornal, mas sem imaginar o tamanho gigantesco da dor que resolvemos no Direito atualmente. Fomos a primeira venture builder brasileira dedicada só a legaltechs porque enxergamos, cedo, que o jurídico tinha o mesmo potencial de escala de qualquer outro setor, só que ninguém tinha construído esse caminho ainda.

Hoje são 15 startups no portfólio, projeção de chegar a 20 legaltechs em 2026, e um crescimento de 80% no valor desse portfólio só no ano passado, saindo de R$ 100 milhões para mais de R$200 milhões no dia de hoje. 

Em outubro do ano passado vendemos nossa participação na legaltech Cria.AI, dois anos depois da fundação dela, um ano depois de ela entrar no nosso portfólio. Isso é ciclo de liquidez de verdade, não promessa de pitch deck.

Por que isso não é assunto só de advogado

Se você é CEO, CFO ou diretor de RH e está lendo isso achando que não tem nada a ver com você, essa é exatamente a armadilha. Risco jurídico virou classe de ativo com apetite de investidor. Enquanto sua empresa ainda trata o jurídico como centro de custo, o seu concorrente já trata como motor de eficiência e, cada vez mais, como oportunidade de investimento.

O advogado que falta

A maioria dos founders que chega até a Aleve vem do próprio Direito. É bom sinal, porque advogado investe em quem fala de igual para igual, e só empreende de verdade quem entende, na pele, a dor que está do outro lado da mesa. Falta advogado empreendedor no Brasil. Sobra advogado técnico. E é essa lacuna, mais do que qualquer tecnologia, que decide quem vai estar na mesa quando o cheque chegar.

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Enquanto o Brasil ainda tenta explicar para o brasileiro médio o que é uma startup, o mercado internacional já decidiu outra coisa: o Direito brasileiro tem solução para vender, tem escala para provar e tem cheque esperando. A pergunta não é mais se o jurídico vai virar ativo de investimento. Já virou. A pergunta é quem, dentro do seu escritório, do seu departamento jurídico, da sua empresa, vai ser o primeiro a levantar a mão.

Eu levantei a mão em 2021. E ainda tem cheque sobrando para quem quiser levantar a dela.

*Priscila Spadinger é CEO e fundadora da Aleve LegalTech Ventures, advogada especialista em M&A e Mercado de Capitais, professora de M&A e Venture Capital, conselheira e palestrante.

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SÃO PAULO WEATHER