O caso Master e o aluno bolsista

André Pereira César e Alvaro Maimoni*
Produzido em 1992, Perfume de Mulher (adaptação do drama italiano Profumo di Donna, de 1974) foi um sucesso instantâneo de crítica e público. Tendo à frente Al Pacino no papel de um militar cego aposentado, o roteiro tem passagens que ajudam a entender o atual quadro político brasileiro, com a crise do Banco Master no centro dos eventos.
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Para nosso entendimento, o ponto chave é a personagem Charlie Simms, interpretada por Chris O’Donnell. Por seus atributos, ele se torna um estudante bolsista de uma escola de elite na Nova Inglaterra. Enquanto seus colegas que, na condição de herdeiros que desfrutam do melhor que a vida pode oferecer em termos materiais e sociais, Charlie precisa trabalhar duro para se manter em dia com os estudos – fritar hambúrgueres e cuidar da personagem de Al Pacino durante as férias fazem parte do processo, ao mesmo tempo que sua privilegiada “turma” esquia em Aspen ou viaja pela Europa.
Em suma, o garoto apesar de conviver e frequentar os mesmos ambientes, não faz parte do grupo. Sem nenhum juízo de valor (muito pelo contrário), quando fora do ambiente escolar, aos olhos de seus colegas, não passa de um simples bolsista, que não faz parte dessa privilegiada elite. Um estranho no ninho.
Aqui caímos no Brasil. Dois atores políticos conhecidos do grande público há pouco podem ser qualificados como uma espécie de “bolsistas”. O dublê de banqueiro Daniel Vorcaro e seu cunhado e operador, o pastor da igreja Batista da Lagoinha, Fabiano Zettel, são figuras centrais no grande esquema de fraudes gerada pelos movimentos do Banco Master.
Os mundos político, jurídico e financeiro, bem como influencers e setores da mídia, aceitaram de bom grado a entrada dessas personagens enquanto lhes serviram com patrocínios, viagens e tudo o mais que o dinheiro pôde comprar. Em crise, agora, ninguém quer ver a sua imagem associada aos dois. Como não fazem parte da original turma de herdeiros, das elites dominantes, foram abandonados à própria sorte, assim como se observa no citado filme.
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As investigações ora em curso indicam que as ações de Vorcaro tiveram como coadjuvantes (muitos de luxo) parlamentares ligados à oposição (Centrão e direita mais extremada) e ao governo federal, técnicos graduados do Banco Central, empresários conhecidos por outros casos polêmicos e integrantes da cúpula do Judiciário, Supremo Tribunal Federal incluído. Uma verdadeira tsunami veio à tona.
No caso específico do STF, a crise ganhou materialidade com o envolvimento de dois ministros, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, que tiveram decisões e posições colocadas em xeque. A opinião pública, é claro, se manifestou. Pesquisa Quaest divulgada na quinta-feira, 12 de março, aponta queda no índice de confiança da população na instituição – de 50% favoráveis à Corte em agosto de 2025, agora são 43%. No sentido contrário, 47% não confiavam no último levantamento, e agora são 49%. A tendência de corrosão da imagem do Tribunal está dada.
Voltando a Vorcaro, a questão diz respeito a seu destino. A rigor, ele é um outsider, um ator originalmente, como já dito, não pertencente às altas elites, ao contrário de muitos dos nomes constantes das listas de seus “aliados” – ou colaboradores, a depender do ponto de vista. Desse modo, o establishment, em verdadeiro instinto de sobrevivência, está propenso a apoiar qualquer condenação ao ex-banqueiro e seu entorno, entre eles Zettel. Em paralelo, o sistema dominante tende a se proteger.
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Em suma, enquanto estava no auge, a rede de Vorcaro foi soberana em diferentes frentes. O novo cenário mudou tudo e, com as torneiras fechadas, todos viraram as costas a ele. Algum tipo de condenação pode ser inevitável. O antigo dono do Banco Master assiste a uma verdade incontestável – de que é apenas um aluno bolsista que, durante um breve tempo, frequentou a alta sociedade mas que, no entanto, descobriu que nunca fez parte da verdadeira turma das elites.
*André Pereira César é cientista político. Alvaro Maimoni é consultor jurídico.