O Brasil está pronto para o seu próprio Garfield

O Brasil está pronto para o seu próprio Garfield
O futuro da advocacia brasileira não será decidido por quem espera. Será decidido por quem lidera/Freepik
Publicado em 05/08/2025 às 3:00

Paulo Silvestre de Oliveira Junior*

Quando vejo discussões sobre o Garfield.law**, percebo duas reações comuns: de um lado, o fascínio quase ingênuo de quem acha que a tecnologia vai substituir advogados de uma hora para outra. De outro, a resistência previsível de quem repete que “isso jamais será aceito pela OAB”. Eu não me enquadro em nenhum desses grupos. Prefiro olhar para o que está por trás do óbvio, para a mudança estrutural que já começou e que não pede autorização para acontecer.

Quando desenvolvi o framework Generative AI-Centric Law Firm Model, ficou claro para mim que IA sem estratégia não passa de uma “vitrine bonita” que não muda nada de verdade. É por isso que, quando penso em algo como o Garfield no Brasil, não imagino um escritório robótico eliminando advogados, mas um modelo híbrido, com papéis bem definidos, governança sólida e advogados no centro, usando a tecnologia para ampliar sua capacidade de entrega.

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O futuro da advocacia não será construído apenas por quem entende de leis, mas por quem sabe transformar conhecimento jurídico em produto escalável, precificável e, principalmente, em valor para o cliente.

Muitos me perguntam se a OAB permitiria algo assim. Acredito que sim, desde que existam regras claras de supervisão, responsabilidade técnica e mecanismos de compliance que protejam advogados e clientes. Mas não me iludo. A OAB pode e deve ser uma barreira inicial. Não por má vontade, mas porque a primeira reação a qualquer disrupção é tentar preservar o status quo. Alguns vão até usar a expressão “concorrência desleal”, como se a tecnologia fosse um atalho ilegítimo. Mas, na verdade, a verdadeira concorrência desleal será fingir que nada está mudando.

Sei disso porque já vi esse filme antes. Quando as primeiros ferramentas de gestão jurídica surgiram, houve resistência. Quando a automação de tarefas processuais chegou, muitos disseram que era impossível. Hoje ninguém questiona. A diferença é que agora não estamos falando apenas de eficiência. Estamos falando de um novo modelo de negócio, de novas formas de precificação e de uma redefinição do papel do advogado.

Minha colega Lara Selem trouxe uma provocação no seu artigo Tício, Mévio, Caio e a nova advocacia “A advocacia vai encolher. E rápido. A minha aposta é que nos próximos 5 anos o mercado demandará menos de 500 mil advogados, contra os 1 milhão e meio que temos hoje, enquanto 30 mil novos profissionais entram por ano. Essa conta simplesmente não fecha.” Fato é que não é apenas a tecnologia que vai reduzir a demanda.

É a lógica de mercado. Quando clientes puderem contratar soluções de assinatura baseadas em IA para demandas repetitivas, por que pagariam horas de um advogado para tarefas que não exigem estratégia?

Isso não significa o fim da advocacia. Significa o fim de um modelo. O advogado que insistir em vender apenas o que a IA pode fazer de forma mais rápida e barata não vai sobreviver. Já o advogado que entender como construir produtos jurídicos, integrar dados e usar IA para antecipar riscos e criar inteligência de negócio não só sobreviverá como prosperará. Esse é o verdadeiro ponto de inflexão.

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Em um projeto que liderei, estruturamos um modelo de precificação híbrido com base em camadas de valor. Para tarefas repetitivas, um pacote mensal. Para serviços de média complexidade, uma combinação de automação e supervisão humana precificada por entregas definidas. E, para casos de alta complexidade, consultoria estratégica de altíssimo valor. O resultado foi um modelo que não apenas reduziu o custo para o cliente, mas aumentou a margem do escritório. E isso só aconteceu porque deixamos de pensar em faturamento por hora e passamos a pensar em inteligência escalável.

Agora imagine esse raciocínio aplicado no Brasil. Temos um contencioso gigantesco, um volume de dados processuais quase infinito e um mercado de advogados desproporcionalmente inchado. Isso cria uma oportunidade única. Poderíamos construir um modelo semelhante ao Garfield, mas com características próprias. Um ecossistema integrado, com escritórios conectados a uma plataforma central de IA, advogados atuando como curadores e estrategistas e dados sendo retroalimentados continuamente para gerar previsibilidade.

E aqui vai uma previsão que poucos têm coragem de fazer. Dentro de 10 anos, acredito que a advocacia terá novos papéis que ainda nem existem. Teremos especialistas em engenharia de prompts jurídicos, analistas de risco preditivo, estrategistas de precificação de serviços baseados em IA, advogados-product managers responsáveis por desenvolver produtos jurídicos escaláveis e até mesmo funções híbridas entre ciência de dados e prática jurídica. O advogado que não enxergar essa mudança vai se limitar a disputar espaço em um mercado que encolhe.

Alguns vão perguntar se a OAB vai permitir esse tipo de reconfiguração. Minha resposta é, não vai ter escolha. Quando um modelo se mostra capaz de oferecer mais acesso à Justiça, reduzir custos para clientes e ainda manter advogados na supervisão técnica, o debate deixa de ser se é permitido e passa a ser como regulamentar. A OAB pode, sim, ser um guardião importante para evitar abusos. Mas será impossível barrar algo que os próprios clientes vão exigir.

E aqui entra a provocação final. O Garfield não é uma ameaça. É um aviso. Ele mostra que a advocacia está deixando de ser uma profissão sustentada apenas pela prática e está se tornando uma indústria movida por dados, inteligência e estratégia. Se não criarmos nosso próprio modelo brasileiro, alguém vai criar. E quando isso acontecer, não haverá espaço para lamentos.

O Brasil tem a chance de fazer diferente. Nossa realidade litigiosa nos dá um terreno fértil para construir algo maior e melhor. Podemos criar um modelo regulado, ético e profundamente estratégico, no qual advogados deixam de medir seu valor pelo tempo que gastam e passam a medir pelo impacto que geram. Essa mudança não será confortável, mas a verdadeira transformação nunca é.

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O futuro da advocacia brasileira não será decidido por quem espera. Será decidido por quem lidera. E talvez o que realmente devêssemos perguntar não seja se teremos um Garfield brasileiro, mas quem será ousado o suficiente para construí-lo antes que alguém de fora faça isso por nós.

*Paulo Silvestre de Oliveira Junior é especialista em desenvolvimento estratégico e inovação no setor jurídico, com mais de 14 anos de experiência em liderar projetos transformadores para departamentos jurídicos e escritórios de advocacia. Graduado em Gestão Estratégica pelo IBTA, possui especializações em Business Innovation e um MBA em Segurança da Informação pela FIAP, além de formação em Inovação Corporativa e Estratégia Digital pelo MIT. É o criador do Generative AI-Centric Law Firm Model, framework pioneiro que orienta a adoção estratégica de IA generativa por escritórios de advocacia e hoje é uma referência global. Atualmente, atua como Diretor de Inovação e Desenvolvimento no Buttini Moraes Advogados e é fundador da Absense Tecnologia e da IT Legal Experts – Innovation & Technology. Autor de “Direito em Transformação – Estratégia e Inovação para Advogados”, Paulo é reconhecido por integrar tecnologia e estratégia para impulsionar a inovação no Direito, inspirando escritórios ao redor do mundo a transformar suas operações.

**Garfield.law é uma plataforma de inteligência jurídica que utiliza inteligência artificial (IA) para análise automatizada de documentos legais, com foco em contratos e decisões judiciais. O sistema é capaz de: Extrair, classificar e organizar cláusulas contratuais automaticamente; Mapear riscos jurídicos; Auxiliar advogados em revisões contratuais e diligências legais (como em fusões e aquisições); Identificar jurisprudência relevante com base em texto livre. A proposta da Garfield.law é aumentar a produtividade de times jurídicos por meio da automação de tarefas repetitivas, liberando os profissionais para análises mais estratégicas. A empresa é uma legaltech brasileira, e atua no ecossistema de lawtechs voltadas para transformar a prática do Direito com o uso de tecnologia avançada, especialmente IA e machine learning.

SÃO PAULO WEATHER