“O advogado do futuro já está aqui”: como o BB transforma seu jurídico com inteligência artificial

“O advogado do futuro já está aqui”: como o BB transforma seu jurídico com inteligência artificial
"O papel do advogado será redefinido, não eliminado. Hoje, o direito é essencial para alimentar os sistemas tecnológicos. A IA precisa de parâmetros jurídicos claros, e isso exige profissionais preparados"/Divulgação
Publicado em 10/12/2025 às 3:00

Marcelo de Paula – Colaboração para LexLegal

Com quase quatro décadas de atuação no Banco do Brasil e três décadas dedicadas à área jurídica, Lucinéia Possar tem sido uma das protagonistas da transformação institucional da companhia. Mestre em Direito pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), graduada pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC/PR), pós-graduada em Direito Econômico e das Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e professora de Direito Empresarial, ela também é Gestora de Serviços Jurídicos pela FGV. Sua trajetória combina formação acadêmica sólida com experiência prática em um dos ambientes regulatórios mais exigentes do país.

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Lucinéia ocupou a diretoria jurídica do Banco do Brasil por oito anos, período em que liderou iniciativas de inovação, integração tecnológica e reestruturação de processos internos. Em 2025, assumiu a função de consultora jurídica especial para a presidência da instituição, com foco na governança estratégica e na incorporação de inteligência artificial às rotinas jurídicas. A mudança de posição não significou afastamento: ela continua acompanhando de perto os avanços que vêm redefinindo o papel do jurídico corporativo.

Durante a entrevista, Lucinéia compartilhou os bastidores da transformação digital do Banco do Brasil. “Estamos entrando numa nova era de jurimetria complementar, dashboards jurídicos preditivos e decisões baseadas em evidências”, afirmou. Segundo ela, o jurídico da instituição tem adotado modelos de inovação aberta e fechada, combinando esforços internos com parcerias externas para desenvolver soluções tecnológicas aplicadas a novos modelos de negócio, geração de receitas, melhoria da experiência dos clientes e ganhos de eficiência.

A alta judicialização no país – com mais de 84 milhões de processos ativos, segundo o CNJ – exige respostas rápidas e inteligentes. Para enfrentar esse cenário, o banco realizou três experiências exitosas com inteligência artificial: um assistente virtual para elaboração de textos jurídicos, uma IA adaptada para pareceres consultivos (com cerca de 120 mil pareceres anuais) e uma solução interna voltada ao contencioso, que acompanha mais de um milhão de processos.

“A decisão baseada em evidências é o coração da governança corporativa. Não se trata mais de decidir por intuição, mas com base em indicadores, jurisprudência consolidada e precedentes monitorados”, destacou Lucinéia, ao defender o uso estratégico da tecnologia no setor jurídico. Para ela, o papel humano continua central: a maturidade do jurídico corporativo está em usar inteligência analítica sem perder de vista a interpretação, a estratégia e a ética.

O Banco do Brasil, com cerca de 800 advogados internos e uma carteira ativa de mais de um milhão de processos, enfrenta os desafios da alta judicialização e da pressão por eficiência. Lucinéia defende que o jurídico deve deixar de ser apenas um centro de controle e passar a atuar como habilitador estratégico da inovação. Em sua visão, o advogado do futuro já está em ação: é aquele que integra tecnologia, governança e cultura institucional, sem abrir mão da segurança jurídica. A IA não substitui o profissional, mas redefine sua função, exigindo novas competências e uma atuação mais analítica e colaborativa.

A LexLegal, Lucinéia falou sobre os principais desafios jurídicos da instituição hoje e no futuro, sobre os impactos da inteligência artificial na prática jurídica e o papel do advogado na era da transformação digital. Leia a seguir.

LexLegal: Qual é hoje o principal desafio do setor jurídico do Banco do Brasil?

Lucinéia Possar: São vários desafios, não apenas do Banco do Brasil, mas do sistema financeiro como um todo. O setor financeiro é o que mais vem desenvolvendo soluções tecnológicas para oferecer conforto aos clientes. Os departamentos jurídicos precisam acompanhar essas evoluções com segurança jurídica. O desafio é garantir que cada passo institucional esteja amparado por parâmetros legais sólidos, mesmo diante da velocidade das transformações.

LexLegal: Esse desafio tende a se manter no futuro?

Lucinéia Possar: É difícil prever o futuro, mas acredito que sim. Estamos vivendo a era da inteligência artificial corporativa. A IA é uma ferramenta que transforma e continuará transformando. Precisamos extrair o melhor dela, mas com acompanhamento técnico e curadoria jurídica. O direito volta a ser fundamental nesse processo. Não se trata de substituir a inteligência humana, mas de alimentar a IA com os requisitos necessários para garantir segurança aos clientes e à instituição.

LexLegal: A senhora acredita que a IA pode reduzir o número de advogados?

Lucinéia Possar: Pode reduzir em termos operacionais, mas jamais substituir. O papel do advogado será redefinido, não eliminado. Hoje, o direito é essencial para alimentar os sistemas tecnológicos. A IA precisa de parâmetros jurídicos claros, e isso exige profissionais preparados.

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LexLegal: Qual é o tamanho da estrutura jurídica do Banco do Brasil?

Lucinéia Possar: Temos cerca de 800 advogados internos, além dos escritórios terceirizados. Mesmo após deixar a diretoria jurídica, continuo acompanhando de perto a transformação tecnológica do banco, agora como consultora jurídica da presidência.

SÃO PAULO WEATHER