Novas regras da CNH reduzem custos e redesenham deveres legais do Estado

Novas regras da CNH reduzem custos e redesenham deveres legais do Estado
20 milhões de brasileiros dirigem sem habilitação, enquanto outros 30 milhões, embora tenham idade para obter a CNH, não iniciaram o processo principalmente por falta de recursos/Freepik
Publicado em 09/12/2025 às 14:42

Da redação de LexLegal

O governo federal oficializou nesta terça-feira (9) um novo conjunto de regras para a obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH), com impacto direto no custo, na forma de preparação dos candidatos e na estrutura administrativa do processo. Ao regulamentar resolução aprovada por unanimidade pelo Conselho Nacional de Trânsito (Contran), o Executivo aposta na simplificação de etapas e na digitalização como instrumentos de inclusão, sem alterar os pilares legais do Código de Trânsito Brasileiro (CTB).

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Durante a cerimônia no Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a iniciativa tem alcance social e busca corrigir desigualdades históricas. Segundo ele, a medida pretende garantir às camadas mais pobres o acesso pleno a direitos básicos. “Estamos oferecendo às pessoas mais humildes o direito de serem cidadãos de primeira categoria, respeitados na sua plenitude, nos direitos que eles têm que ter”.

O presidente lembrou que o custo elevado sempre funcionou como uma barreira concreta à habilitação. Ao citar valores que chegavam a R$ 4 mil, Lula questionou quem teria condições de arcar com esse gasto e afirmou que, para grande parte da população, a decisão prática era simples: se sobrasse dinheiro do salário, tirava-se a carteira; caso contrário, a prioridade era “comer”. Para ele, a redução de preços busca alterar essa lógica e permitir que o direito de dirigir de forma regular deixe de ser um privilégio.

A avaliação política das mudanças foi reforçada pelo ministro dos Transportes, Renan Filho. Ele classificou a iniciativa como uma decisão de grande alcance. “Uma decisão politicamente muito forte” com potencial de atender cerca de 100 milhões de brasileiros que já possuem CNH ou aguardam condições mais favoráveis para obtê-la. Segundo o ministro, o impacto esperado é imediato: a redução de custos pode chegar a 80% na maioria dos estados.

Renan Filho afirmou ainda que a expectativa pelo novo modelo já se reflete no comportamento dos candidatos. De acordo com ele, “a demanda por formação de condutores no Brasil parou”, porque muitas pessoas aguardam o barateamento do processo. Para o governo, esse efeito demonstra o peso econômico da habilitação no orçamento das famílias e justifica a reformulação do sistema.

As mudanças, no entanto, não alteram o CTB, que continua sendo a base legal da habilitação no país. Segundo os especialistas, o que a resolução faz é reorganizar os meios para chegar à prova final. A principal alteração é o fim da obrigatoriedade de frequentar uma autoescola para realizar o exame prático. A formação deixa de estar vinculada exclusivamente a centros tradicionais, ampliando as possibilidades de preparação do candidato.

A partir de agora, o Ministério dos Transportes passará a disponibilizar gratuitamente todo o conteúdo teórico exigido para a CNH, em formato digital. O candidato poderá estudar de forma autônoma, embora continue autorizado a buscar aulas presenciais em autoescolas ou instituições credenciadas. Independentemente da forma de estudo, a aprovação na prova teórica permanece obrigatória.

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No caso das aulas práticas, a flexibilização é ainda mais significativa. A carga mínima obrigatória será reduzida das atuais 20 horas-aula para duas horas. O candidato poderá escolher entre autoescolas tradicionais, instrutores autônomos credenciados pelos Detrans ou preparações personalizadas. Também será permitido o uso de veículo próprio durante as aulas, desde que atendidas as exigências de segurança e fiscalização definidas pelos órgãos de trânsito.

Do ponto de vista jurídico, a simplificação do percurso até a prova não descaracteriza a CNH como um ato administrativo vinculado à segurança coletiva. O Estado continua responsável por certificar a capacidade técnica e psicológica do condutor. As provas teórica e prática seguem presenciais, assim como etapas consideradas sensíveis, como exame médico, avaliação psicológica e coleta biométrica.

Essas exigências decorrem diretamente do artigo 148 do CTB, que condiciona a concessão e a renovação da habilitação à comprovação periódica da aptidão física e mental do motorista. “Não é apenas um documento pessoal, mas um ato administrativo vinculado à segurança coletiva”, avalia Daniela Poli Vlavianos, especialista em execução cível e proteção patrimonial e advogada do escritório Arman Advocacia.

Segundo Vlavianos, uma renovação automática irrestrita, sem exames médicos, não seria juridicamente possível. A advogada afirma que isso violaria o dever de fiscalização do Estado e poderia comprometer a segurança no trânsito. Ela ressalta, contudo, que a automatização do procedimento é válida quando utilizada para simplificar a emissão e o processamento documental, desde que o condutor já tenha cumprido todos os requisitos legais.

Nesse ponto, o uso intensivo de plataformas digitais aparece como eixo central da política pública. O novo aplicativo da CNH permitirá a abertura do processo, o acesso ao conteúdo teórico, a integração de dados biométricos e o controle de eventuais pendências. A digitalização dialoga com o princípio da eficiência administrativa, previsto no artigo 37 da Constituição, ao reduzir burocracia sem afastar o controle estatal.

Outro aspecto relevante é a regulamentação dos instrutores autônomos. Eles serão autorizados e fiscalizados pelos Detrans, com critérios padronizados em âmbito nacional. Isso cria um novo campo regulatório, sujeito a normas administrativas, sanções e eventuais questionamentos judiciais, especialmente em casos de falhas na fiscalização ou conflitos de competência.

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Os dados oficiais ajudam a dimensionar o alcance da medida. Segundo a Secretaria Nacional de Trânsito, cerca de 20 milhões de brasileiros dirigem sem habilitação, enquanto outros 30 milhões, embora tenham idade para obter a CNH, não iniciaram o processo principalmente por falta de recursos. A expectativa do governo é que a redução de custos incentive a regularização e contribua para a segurança viária.

SÃO PAULO WEATHER