Nobel de Economia diz que impacto da IA sobre empregos é superestimado

Nobel de Economia diz que impacto da IA sobre empregos é superestimado
Christopher Pissarides afirma que demissões ligadas à tecnologia ainda são pequenas diante do mercado de trabalho global/IMPA/Divulgação
Publicado em 18/07/2026 às 11:00

Da Redação de LexLegal

O avanço da inteligência artificial ainda não produziu o desemprego em massa previsto por parte do mercado, segundo Christopher Pissarides, vencedor do Nobel de Economia de 2010. Para ele, a tecnologia tem sido usada principalmente para ajudar trabalhadores e reorganizar funções dentro das empresas.

A análise foi apresentada durante a 25ª Conferência da Society for the Advancement of Economic Theory, realizada no Instituto de Matemática Pura e Aplicada, no Rio de Janeiro. Professor da London School of Economics, Pissarides pesquisa mercado de trabalho e os efeitos da tecnologia sobre o emprego. A palestra ocorreu na quinta-feira (16).

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Demissões ainda têm impacto limitado

Pissarides reconhece que empresas de tecnologia anunciaram cortes que envolveram milhares de pessoas. Segundo ele, porém, esses episódios recebem uma atenção desproporcional ao peso que possuem na economia.

“Há alguns poucos exemplos de aumento de desemprego que ganham toda a publicidade, especialmente nas empresas de tecnologia, que envolvem realmente milhares de trabalhadores. Mas se você olhar para o quadro geral da macroeconomia, essas coisas são muito, muito pequenas”, disse Christopher Pissarides, vencedor do Nobel de Economia de 2010 e professor da London School of Economics.

O economista afirma que algumas ocupações desaparecerão, mas outras serão criadas ou ampliadas. Construção civil, manutenção de equipamentos, segurança, robótica e análise de dados estão entre as áreas que podem registrar aumento de demanda.

“Em áreas tradicionais do mercado de trabalho, como a construção civil, por exemplo, há um aumento na demanda. Há também novos empregos surgindo para aumentar a segurança, manutenção, robótica, equipamentos, segurança, análise de dados de programas, e assim por diante”, complementa Pissarides.

Tecnologia acelera mudança de habilidades

Uma pesquisa liderada pelo economista analisou a possibilidade de profissionais precisarem de nova qualificação depois de oito anos no mesmo cargo. Os trabalhadores diretamente ligados à tecnologia apresentaram maior necessidade de atualização.

Em profissões baseadas no contato humano, como educação e enfermagem, as habilidades exigidas sofreram mudanças menores ao longo do mesmo período. A conclusão, porém, não significa que essas atividades estejam protegidas dos efeitos econômicos da IA.

Para Pissarides, o sistema educacional precisa preparar profissionais capazes de aprender durante toda a carreira. A especialização precoce em uma única ferramenta pode perder valor rapidamente diante da velocidade das mudanças tecnológicas.

A formação, segundo ele, deve combinar conhecimentos técnicos, ciências sociais e humanidades. O objetivo é desenvolver capacidade de adaptação, análise e solução de problemas, em vez de concentrar o ensino no domínio de um programa específico.

IA concentra investimentos e pode ampliar desigualdade

O volume total de empregos não é a única preocupação. Estudos citados por Pissarides indicam que cerca de 60% dos investimentos em inteligência artificial ficam concentrados em grandes cidades e centros de pesquisa.

No Reino Unido, esse movimento beneficia áreas como o eixo formado por Londres, Oxford e Cambridge. Regiões do interior e cidades afastadas dos polos tecnológicos recebem uma parcela menor dos recursos e das novas oportunidades.

A concentração também pode ocorrer nos salários. Profissões com maior potencial de ganho de produtividade pela tecnologia tendem a capturar uma parte maior dos benefícios econômicos.

Já setores dependentes do trabalho humano, como enfermagem e hotelaria, podem enfrentar estagnação salarial. Essas atividades possuem limites para aumentar a produtividade sem comprometer a qualidade do serviço.

“O maior desafio com esses setores é como garantir que eles sejam bem pagos, dado que eles não conseguem mostrar [ganho de produtividade]. Como um enfermeiro trabalhando em um hospital movimentado pode melhorar sua produtividade? Portanto, eles têm que depender de dinheiro do governo. E se o governo não tiver dinheiro, eles não serão pagos, o que é a coisa mais triste”, avalia Pissarides.

Conferência reúne três vencedores do Nobel

A conferência da SAET ocorre no IMPA entre 13 e 18 de julho. Além de Pissarides, a programação reúne James Heckman, vencedor do Nobel de Economia de 2000, e Lars Peter Hansen, premiado em 2013. O encontro discute teoria econômica, mercado de trabalho, finanças e políticas públicas.

A edição homenageia os 80 anos do economista brasileiro Aloisio Araujo, pesquisador emérito do IMPA e professor da Fundação Getulio Vargas.

“Eu fico muito feliz de chegar aos 80 anos ao lado de amigos, estudantes e ex-estudantes. O formato presencial do evento permite que pesquisadores se encontrem em diferentes momentos e compartilhem ideias sobre a produção científica. Isso possibilita a discussão direta de artigos que ainda não foram publicados, aproxima o Brasil da fronteira do conhecimento científico atual e diminui a distância geográfica e de acesso às discussões mais recentes”, disse Aloisio Araujo, pesquisador emérito do IMPA e professor da FGV.

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O encontro termina neste sábado (18), com uma programação dedicada à trajetória de Araujo e debates sobre os rumos da teoria econômica diante das novas tecnologias.

SÃO PAULO WEATHER