Nobel da Paz 2025 destaca María Corina Machado e alerta para crise das democracias

José Renato Ferraz da Silveira*

María Corina, 58, foi premiada pelo seu “trabalho incansável promovendo os direitos democráticos para o povo da Venezuela e pelo seu esforço em alcançar uma justa e pacífica transição da ditadura para a democracia”, de acordo com o anúncio do Comitê norueguês do Nobel.
O comitê a caracterizou como “um dos exemplos mais extraordinários de coragem civil na América Latina nos tempos recentes… neste momento, em que a democracia está sob ameaça, é mais importante do que nunca defender esse interesse comum”, continuou o anúncio.A Casa Branca criticou a decisão do comitê de homenagear María Corina Machado, em vez do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que fez campanha aberta para receber a láurea.
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Steven Cheung, porta-voz da Casa Branca postou na rede social X: “Trump continuará fazendo acordos de paz, encerrando guerras e salvando vidas. Ele tem o coração humanitário, e nunca haverá ninguém como ele, capaz de mover montanhas com a força de sua vontade… O comitê provou que prioriza a política acima da paz”.
O que chama atenção na escolha de María Corina é que ela foi figura-chave e unificadora em uma oposição política que antes era profundamente dividida.
A ativista venezuelana pela democracia María Corina Machado expressa uma voz ativa e o desejo venezuelano com centenas de milhares de pessoas que protestam contra um regime que provocou a 2° maior crise de refugiados do mundo e o maior movimento populacional da história recente da América Latina. É um dos maiores fluxos de deslocamentos do mundo, impulsionado por uma crise econômica, social e política severa que resultou em mais de 7,7 milhões de venezuelanos deixando o país até agosto de 2023.
Essa crise interminável é caracterizada por pobreza generalizada, escassez de alimentos e remédios, alta inflação e desemprego. A maioria desses migrantes se dirige para países vizinhos na América Latina, como Colômbia, Peru, Equador, Chile e Brasil.
A Láurea da Paz para a líder venezuelana contempla uma das preocupações da comunidade internacional referente as erosões democráticas que assolam o mundo. Quase a metade dos países experimenta um declínio de seus sistemas democráticos. Até mesmo os Estados Unidos passam por isso. “Pelo sexto ano consecutivo, vemos mais democracias em declínio do que em progresso”, disse à AFP Michael Runey, coautor do relatório do IDEA International, o Instituto Internacional para Democracia e Assistência Eleitoral.
Essa tendência representa a “recessão democrática” mais longeva desde que o IDEA International começou a coletar dados em 1975. Para produzir esses informes e avaliar a situação das democracias, o grupo de especialistas, que cobre a maioria dos países, utiliza diversos indicadores, como as liberdades civis, a independência judicial e participação política.
Segundo o documento, “os fundamentos da democracia estão enfraquecendo no mundo inteiro”, com problemas “que vão desde eleições manchadas por irregularidades até restrições de direitos”. No caso da Venezuela foi escandaloso o último processo eletivo.
Dos 173 países analisados, 85 obtiveram maus resultados em pelo menos “um indicador-chave de desempenho democrático nos últimos cinco anos”. Quanto à representação, o informe aponta “uma queda notável”, particularmente no âmbito das eleições e no bom funcionamento dos parlamentos, assim como no que se refere ao princípio do Estado de Direito, que inclui a independência dos sistemas judiciais.
“Vemos também um declínio em democracias historicamente bem-sucedidas da Europa, América do Norte e Ásia”, afirma Michael Runey.
Esta onda de retrocesso pode ser ilustrada com os diversos golpes de Estado recentes no continente africano. Na categoria de direitos, os autores assinalam que as liberdades de expressão e reunião experimentam vários retrocessos, apesar de não serem significativos a nível global.
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No que diz respeito ao Estado de Direito, observam-se melhorias “depois de muitos anos de níveis estagnados de corrupção”, segundo o relatório.
“Vemos sinais de esperança em alguns países” da Europa Central e do continente africano, “mas, em conjunto, o panorama continua sendo bastante negativo”, conclui o documento.
*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).
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