Neutralidade brasileira entra em xeque diante da nova desordem global entre EUA e Irã

José Renato Ferraz da Silveira e Carolina Gonçalves Pedron*
Nos últimos dias, o sistema internacional voltou a operar sob o signo da tensão, com a escalada entre Estados Unidos e Irã reativando um padrão recorrente das dinâmicas contemporâneas: conflitos que não se formalizam como guerra, mas que tampouco permitem a estabilidade da paz. Trata-se de uma zona cinzenta estratégica — um estado de confrontação latente, sustentado por demonstrações de força, dissuasão indireta e episódios controlados de escalada.
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Nesse ambiente, a paz deixa de ser um dado estrutural e passa a assumir um caráter provisório, quase tático. Não há normalidade no sentido clássico, mas sim uma administração contínua da instabilidade. É a lógica da contenção sem resolução, em que o conflito permanece ativo, ainda que não declarado.
Diante desse contexto recorrente, consolidou-se uma percepção quase intuitiva: a de que o Brasil — assim como outros países de perfil semelhante — observa esses movimentos à distância, como se ocupasse uma posição periférica, protegida das turbulências centrais do sistema internacional. Essa leitura, no entanto, é menos uma realidade empírica e mais uma construção conveniente.
A história recente demonstra precisamente o contrário. Crises no Oriente Médio não permanecem circunscritas à sua geografia. Elas se projetam sobre o sistema global por meio de cadeias complexas de interdependência.
O choque do petróleo de 1973 permanece como um marco paradigmático: decisões geopolíticas localizadas foram capazes de desencadear efeitos sistêmicos, alterando preços, comprimindo economias nacionais e redefinindo prioridades políticas em diversas regiões do mundo. O impacto, ainda hoje, oferece um alerta persistente sobre a permeabilidade das fronteiras em um sistema interconectado.
A distância geográfica, nesse contexto, deixou de operar como amortecedor. O que se observa é a difusão acelerada de crises, cujos efeitos se materializam em inflação, volatilidade cambial, reorganização de cadeias produtivas e insegurança energética — dimensões que incidem diretamente sobre a vida cotidiana.
Mas os efeitos não se restringem ao plano econômico. O que está em jogo é a própria inserção política do Brasil no sistema internacional. Historicamente, o país construiu sua projeção externa sobre uma tradição diplomática marcada pela valorização do multilateralismo, da negociação e da busca por soluções pacíficas de controvérsias. Essa orientação conferiu ao Brasil uma imagem de previsibilidade e moderação, permitindo-lhe atuar, em diferentes momentos, como interlocutor confiável e mediador potencial.
Durante décadas, essa estratégia produziu resultados. Ao evitar alinhamentos rígidos e preservar margens de autonomia, o país conseguiu transitar entre diferentes polos de poder, ampliando seu capital diplomático sem se comprometer com antagonismos diretos.
Contudo, as condições que sustentavam esse modelo encontram-se em rápida transformação.
A ordem internacional atravessa um processo de fragmentação e reconfiguração, no qual a competição entre grandes potências assume contornos mais explícitos, mais intensos e menos tolerantes à ambiguidade.
A lógica da rivalidade estratégica reemerge como eixo estruturante, e, nesse ambiente, a moderação já não é automaticamente interpretada como virtude. Em determinados contextos, ela passa a ser percebida como hesitação ou incapacidade de decisão.
Há, nesse ponto, uma inflexão crucial: o não-alinhamento não equivale à ausência de posicionamento. A neutralidade, longe de constituir uma suspensão da escolha, é, em si, uma forma específica de escolha — e, como tal, produz efeitos concretos.
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À medida que o sistema internacional se polariza, torna-se progressivamente mais difícil sustentar uma atuação baseada exclusivamente em princípios normativos desacoplados de instrumentos efetivos de poder. Declarações em favor do diálogo e do multilateralismo mantêm relevância simbólica, mas tendem a perder eficácia quando não acompanhadas de capacidade material e política de influência.
Na prática, discurso sem capacidade de projeção converte-se em ruído.
É nesse ponto que se delineia o principal risco para o Brasil. Não se trata, fundamentalmente, do risco de erro estratégico decorrente da ação, mas do risco de marginalização decorrente da inação. Uma diplomacia excessivamente cautelosa pode ser interpretada como relutância em assumir custos políticos, especialmente em momentos nos quais a definição de posições se torna decisiva para a configuração do sistema.
Paradoxalmente, ao buscar preservar autonomia, o país pode acabar reduzindo sua capacidade de influenciar resultados.
O multilateralismo, que historicamente constituiu um ativo estratégico da diplomacia brasileira, corre o risco de se converter em uma zona de conforto. Um espaço de reafirmação de princípios, mas também de adiamento de decisões. Um ambiente que privilegia a retórica da cooperação, ao mesmo tempo em que limita a assertividade necessária para intervir em disputas concretas de poder.
Enquanto isso, o sistema internacional segue sendo moldado por atores que operam com maior disposição para assumir riscos e impor agendas.
Não se trata de episódios isolados, mas de uma disputa estrutural pela definição das regras, das hierarquias e dos mecanismos de governança global. Trata-se de um momento de inflexão, no qual posições ambíguas tendem a ser progressivamente marginalizadas, e no qual a relevância internacional passa a depender não apenas de princípios, mas de capacidade efetiva de ação.
O Brasil nunca esteve fora desse tabuleiro. A ideia de distância ou neutralidade plena é, em grande medida, uma abstração.
A questão que se impõe, portanto, não é se o país deve abandonar sua tradição diplomática, mas se é capaz de atualizá-la. O desafio reside em transformar o multilateralismo de uma postura declaratória em um instrumento operativo — capaz de produzir efeitos concretos, articular coalizões e influenciar processos decisórios.
Em um sistema internacional em reconfiguração, a neutralidade absoluta deixa de ser virtude e se aproxima de uma limitação estratégica. Porque, em última instância, a recusa em se posicionar não elimina os custos da política internacional — apenas transfere a definição desses custos para atores externos.
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O imperativo, portanto, não é escolher entre prudência e protagonismo, mas redefinir os termos dessa equação. Trata-se de converter tradição em capacidade, princípio em estratégia e presença em influência. Porque, na política internacional contemporânea, presença sem relevância não passa de formalidade.
E, em um mundo em disputa, o maior risco não é escolher errado — é deixar de ser considerado.
*José Renato Ferraz da Silveira é professor titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Carolina Gonçalves Pedron é graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e integrante do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).
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