MPF recorre contra licença do Ibama para perfuração da Petrobras na Foz do Amazonas

MPF recorre contra licença do Ibama para perfuração da Petrobras na Foz do Amazonas
Procuradores questionam ausência de estudos climáticos e consulta a comunidades indígenas antes do leilão; estatal defende que fase atual é apenas de pesquisa exploratória, sem produção/José Cruz/Agência Brasil
Publicado em 25/10/2025 às 11:47

Da redação de LexLegal

Ministério Público Federal (MPF) apresentou recurso ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1)contra a decisão judicial que manteve o leilão de blocos exploratórios na Bacia da Foz do Amazonas e a licença ambiental concedida à Petrobras para realizar pesquisa exploratória de petróleo na Margem Equatorial.

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O recurso questiona a regularidade do processo de autorização e pede que a Justiça suspenda os efeitos da licença emitida pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) na última segunda-feira (20).

Segundo o MPF, o processo carece de Estudo de Impacto Climático (EIC)Avaliação Ambiental de Área Sedimentar (AAAS) e consulta prévia a comunidades indígenas e tradicionais, conforme determina a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

“A ausência dos estudos e da consulta na fase pré-licitatória é uma grave ofensa ao ordenamento jurídico e aos compromissos internacionais assumidos pelo Brasil”, afirmou o órgão.

Entenda a disputa jurídica

O debate sobre a perfuração na Margem Equatorial — faixa marítima que se estende do Amapá ao Rio Grande do Norte — tornou-se um dos temas ambientais mais controversos do país. A região é considerada promissora para a exploração de petróleo em águas profundas, mas também abriga ecossistemas sensíveis, como o sistema de recifes amazônicos, e comunidades indígenas e ribeirinhas potencialmente afetadas por atividades de exploração.

O MPF sustenta que os leilões de blocos exploratórios realizados pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) não observaram as exigências legais de planejamento ambiental prévio. Para os procuradores, a falta desses estudos compromete a análise de riscos climáticos e socioambientais, além de violar princípios de prevenção e precaução ambiental previstos na Constituição.

Avaliação Ambiental de Área Sedimentar (AAAS) é um instrumento de política pública criado para orientar a exploração de petróleo e gás em áreas sensíveis, enquanto o Estudo de Impacto Climático (EIC) permite mensurar os efeitos da atividade sobre as metas de descarbonização assumidas pelo Brasil no Acordo de Paris.

Posição da Petrobras

A Petrobras, por sua vez, afirma que o projeto autorizado pelo Ibama não envolve produção de petróleo nesta fase, mas apenas pesquisa exploratória para coleta de dados geológicos.

“A sonda exploratória está na região do bloco FZA-M-059, e a perfuração está prevista para começar imediatamente”, informou a companhia em nota.

O poço está localizado em águas profundas do Amapá, a cerca de 175 quilômetros da costa e 500 quilômetros da foz do rio Amazonas. Segundo a empresa, o processo de perfuração tem duração estimada de cinco meses, período em que será avaliado se a área possui potencial econômico de produção.

A Petrobras reforçou que o projeto segue “padrões internacionais de segurança e monitoramento ambiental”, e que qualquer decisão sobre eventual exploração comercial dependerá de novas licenças ambientais.

Histórico do impasse ambiental

O pedido da estatal para perfurar na Margem Equatorial havia sido negado pelo Ibama em 2023, sob a justificativa de que os estudos apresentados não garantiam segurança suficiente para o licenciamento. Desde então, a Petrobras revisou os planos de contingência e readequou o modelo de monitoramento de fauna marinha, obtendo o aval do órgão apenas em outubro de 2025.

Ambientalistas, contudo, seguem alertando para o risco de impacto sobre o ecossistema da Foz do Amazonas, considerado um dos mais biodiversos do planeta. Organizações como o Greenpeace e o Instituto Socioambiental (ISA) defendem que a exploração na região pode comprometer compromissos internacionais de redução de emissões de carbono e proteção de áreas marinhas sensíveis.

Já o governo federal, que tem buscado conciliar desenvolvimento econômico e transição energética, vê o projeto como estratégico para garantir autossuficiência em energia e fortalecer a posição do Brasil como exportador global de petróleo de baixo teor de enxofre.

O recurso do MPF será analisado pela 5ª Turma do TRF-1, que pode suspender ou manter a licença ambiental enquanto o mérito do processo é julgado. Caso o pedido seja aceito, a Petrobras poderá ser obrigada a interromper as atividades de perfuração até que os estudos e consultas sejam concluídos.

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O caso reacende o debate sobre licenciamento ambiental e política energética no país — dois pilares centrais na agenda de sustentabilidade e transição verde. Especialistas em direito ambiental lembram que a questão da Margem Equatorial pode se tornar um precedente importante para futuras explorações offshore, definindo os limites entre a segurança ambiental e o desenvolvimento econômico.

SÃO PAULO WEATHER