MPF quer barrar multas no pedágio eletrônico Free Flow da Dutra

MPF quer barrar multas no pedágio eletrônico Free Flow da Dutra
Pórtico de cobrança automática no sistema Free Flow da Via Dutra, alvo de ação do MPF contra multas/Nova381/Divulgação
Publicado em 30/09/2025 às 10:30

Da redação de LexLegal

O Ministério Público Federal (MPF) ajuizou ação civil pública para impedir a aplicação de multas a motoristas que não efetuarem o pagamento no sistema eletrônico de pedágio implantado na Rodovia Presidente Dutra (BR-116). O processo abrange os trechos que passam pela capital paulista e pelos municípios de Guarulhos e Arujá, região de intenso tráfego diário. A concessão da via está sob responsabilidade da Motiva desde 2022.

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O modelo questionado é o chamado Free Flow, tecnologia sem cancelas que utiliza pórticos com sensores para registrar a passagem dos veículos. O pagamento é feito de forma digital, mas, em caso de inadimplência, o motorista vem sendo autuado com multas de trânsito.

Argumentos do MPF

Para o Ministério Público, o Free Flow não pode ser equiparado juridicamente a um pedágio. Em nota, a instituição afirmou: “O sistema de cobrança eletrônica não tem natureza jurídica de pedágio, uma vez que constitui um serviço alternativo oferecido aos motoristas para evitarem congestionamentos em vias laterais, sem o objetivo de angariar recursos para a manutenção da rodovia. É dessa classificação que deriva a ilegalidade da aplicação de multas para eventuais usuários inadimplentes.”

Na visão dos procuradores, a cobrança se enquadra em uma relação de consumo entre usuário e concessionária, regida pelo Código de Defesa do Consumidor e pelo Código Civil, e não pela legislação de trânsito. Eles também alertam para o risco de superendividamento: “Há riscos elevados de que o sistema gere milhões de multas indevidas e leve motoristas ao superendividamento e à impossibilidade de dirigir.”

Números e impactos

O MPF baseou seus cálculos na experiência da BR-101 (Rio-Santos), onde o Free Flow também é operado pela Motiva. “Lá, o sistema de cobrança eletrônica gerou mais de 1 milhão de multas em 15 meses, com impacto financeiro total de R$ 268 milhões para os motoristas.”

A ação ressalta ainda a especificidade do trecho da Dutra, que concentra o maior tráfego pendular do país. Segundo o MPF, são cerca de 350 mil deslocamentos diários entre municípios da Grande São Paulo, grande parte relacionada a atividades de rotina: “O trecho da Dutra onde foram instalados os pórticos concentra o maior tráfego pendular do país (…). O MPF destaca que as multas relacionadas ao sistema eletrônico de cobrança impõem a esses motoristas punições excessivas por uma conduta que nem mesmo constitui infração administrativa.”

Para o órgão, as autuações ferem direitos fundamentais como proporcionalidade, razoabilidade e dignidade da pessoa humana.

Concessionária e ANTT

A concessionária Motiva informou que ainda não foi formalmente notificada: “A concessionária informa que, até o presente momento, não foi oficialmente notificada sobre a decisão do Ministério Público Federal. Tão logo seja formalmente comunicada, adotará as medidas cabíveis, conforme previsto na legislação vigente.”

Já a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) destacou que também aguardará a notificação judicial para se manifestar: “Assim que for notificada formalmente, o corpo técnico e a procuradoria jurídica vão avaliar a solicitação do MPF e a ANTT vai se manifestar nos autos sobre o tema, sempre visando o alto padrão de qualidade na prestação do serviço aos usuários, respeitando os aspectos legais, regulatórios e contratuais.”

A agência frisou ainda que foi pioneira na implementação do Free Flow no Brasil, após dois anos de testes: “O Free Flow representa uma nova era na forma de cobrança de pedágio em rodovias concedidas no Brasil, permitindo ampliar a segurança viária, fluidez e o conforto para os usuários.”

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O MPF pediu que a decisão tenha abrangência nacional, atingindo todas as rodovias que venham a adotar o sistema. Como o Free Flow começou a ser expandido em 2023, a discussão poderá ter impacto em outras concessões já em operação.

SÃO PAULO WEATHER