Morte de Kongjian Yu no Brasil: arquiteto deixa legado global das “cidades-esponja”

Da redação de LexLegal
Pelo menos quatro pessoas morreram na queda de um avião de pequeno porte em Aquidauana (MS), a 150 quilômetros de Campo Grande, no fim da tarde desta terça-feira (23). Entre as vítimas está o arquiteto e urbanista Kongjian Yu, referência mundial em soluções baseadas na natureza e criador do conceito das cidades-esponja, aplicado em centenas de projetos urbanos para enfrentar enchentes e mudanças climáticas.
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O avião, modelo Cessna Aircraft 175 de prefixo PT-BAN, pertencia ao piloto Marcelo Pereira de Barros, também morto na tragédia. As outras duas vítimas são o cineasta Luiz Ferraz, indicado ao Emmy Internacional em 2023 pela série Dossiê Chapecó: O Jogo por Trás da Tragédia, e o diretor de fotografia Rubens Crispim Jr..
Equipes do 4º Serviço Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos estiveram no local recolhendo materiais e informações. Segundo a Força Aérea Brasileira (FAB), ainda não há prazo para conclusão, mas o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) divulgará relatório técnico com os achados. O objetivo da apuração é prevenir novas ocorrências, sem atribuição de culpas.
A viagem ao Brasil
A visita de Yu ao país foi motivada pela 14ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, realizada entre 18 e 19 de setembro, quando ministrou a conferência de abertura. Dias antes, já havia participado da conferência internacional promovida pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU 2025), em Brasília.
Segundo Thomas Miguez, produtor-executivo da Olé Produções, Ferraz e Crispim acompanhavam Yu para registrar imagens do documentário Planeta Esponja, dedicado ao trabalho do arquiteto. “A viagem do professor Yu ao Brasil foi a convite da Bienal, mas a ida ao Pantanal foi um pedido especial dele, que queria conhecer a região”, contou Miguez.
O conceito das cidades-esponja
Yu defendia que o combate às enchentes e a adaptação climática exigem a integração da natureza ao planejamento urbano. Em vez de apostar exclusivamente na “infraestrutura cinza” — baseada em concreto, canais e impermeabilização do solo —, ele propunha projetos de paisagismo resiliente, que incluem áreas verdes, parques alagáveis e vegetação nativa capazes de absorver a água das chuvas.
“A enchente passa a não ser uma inimiga”, afirmou o arquiteto em junho de 2024, durante seminário do BNDES no Rio de Janeiro, realizado após as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul.
Segundo ele, a inspiração veio da própria infância na província de Zhejiang, no leste da China, onde presenciava inundações recorrentes em seu vilarejo. “Comecei a pensar em como o planeta pode ser sustentável a partir de soluções simples e naturais”, disse.
Yu era professor da Universidade de Pequim e fundador do escritório de arquitetura Turenscape, responsável por mais de mil projetos em 250 cidades no mundo. Sua abordagem inovadora influenciou políticas públicas urbanas e ambientais na China e em outros países.
O arquiteto recebeu prêmios de destaque, como o IFLA Sir Geoffrey Jellicoe Award (2020), o Cooper Hewitt National Design Award (2023) e o RAIC International Prize (2025).
O CAU-BR, em nota, lamentou a perda: “Diante de cerca de quatro mil pessoas, ele apresentou sua visão transformadora para as cidades do futuro, defendendo soluções baseadas na natureza para enfrentar enchentes urbanas e os efeitos da crise climática”.
A morte de Kongjian Yu interrompe a trajetória de um dos maiores defensores da sustentabilidade urbana e ocorre no momento em que o Brasil discute como lidar com eventos climáticos extremos, como enchentes no Sul e secas prolongadas em outras regiões.
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Para especialistas, a ausência de Yu deixa uma lacuna, mas também reforça a importância de aplicar seu legado em cidades brasileiras vulneráveis. O conceito de cidades-esponja pode orientar novas políticas públicas voltadas à resiliência climática, infraestrutura verde e justiça ambiental. Com informações da Agência Brasil.