Ministério da Justiça detecta uso irregular de sistema de vigilância pela PM do Rio

Ministério da Justiça detecta uso irregular de sistema de vigilância pela PM do Rio
Auditoria do Ministério da Justiça apontou milhões de consultas indevidas feitas com credenciais da PM do Rio no sistema Córtex/Prefeitura RJ
Publicado em 25/11/2025 às 8:30

Da redação de LexLegal

O Ministério da Justiça identificou que credenciais da Polícia Militar do Rio foram utilizadas de forma indevida para acessar o Córtex, sistema federal de vigilância mantido pela União e adotado por forças de segurança em todo o país. A auditoria realizada pela pasta apontou que milhões de CPFs foram empregados para consultas na plataforma, número considerado incompatível com qualquer operação legítima.

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O Córtex reúne imagens de milhares de câmeras distribuídas por espaços públicos no Brasil e cruza informações a partir de diversas bases de dados governamentais. Segundo o Ministério da Justiça, o sistema consegue localizar um veículo em circulação em cerca de oito segundos, a partir da leitura da placa, e disponibiliza dados pessoais do proprietário, como vínculos familiares, endereços, emprego e renda.

Criado para monitorar suspeitos, alvos de mandados e foragidos, o sistema não contém barreiras que impeçam a pesquisa de dados de qualquer cidadão. A auditoria constatou que duas chaves de acesso vinculadas à Secretaria de Polícia Militar do Rio apresentaram “incidentes de segurança”, levando à suspensão temporária desses logins pela Secretaria Nacional de Segurança Pública.

Os técnicos do ministério identificaram 69 milhões de CPFs distintos realizando 213 milhões de consultas utilizando a chave da PM — volume equivalente a um terço de toda a base de cadastros de pessoas físicas do país. A hipótese preliminar é de que o acesso tenha sido viabilizado por geradores automáticos de CPFs usados para burlar bloqueios e automatizar pesquisas em larga escala.

Há suspeita de que o objetivo seria “raspar” a base do Córtex para estruturar um sistema paralelo. “Um mesmo usuário fez ali mais de 4 mil consultas num recorde de tempo. Só seria possível por uma máquina, justamente porque a intenção do atacante é raspar a informação e organizá-la num outro sistema. Então, o que tá acontecendo é a estruturação de um Córtex paralelo”, afirmou Rafael Zanatta, diretor da organização Data Privacy Brasil.

Para ele, o impacto é grave. “O Córtex permite explorar dados de vigilância que pro crime organizado é muito interessante. Ele consegue fazer o monitoramento ativo de placas veiculares, de pessoas que são alvo, então é uma mina de ouro muito preocupante do ponto de vista de população e democracia, porque isso não pode cair em mãos erradas e ser mal utilizado, como parece ser o caso agora.”

O Ministério da Justiça informou que os indícios já foram encaminhados à polícia para investigação. Em nota, afirmou que as inconsistências decorrem “do uso das credenciais pelos órgãos aos quais foram originalmente concedidas” e que o bloqueio dos acessos foi uma medida administrativa preventiva. A pasta ainda destacou que o Córtex está em processo de substituição por uma ferramenta “mais moderna, robusta e segura”.

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A Polícia Militar do Rio rebateu a acusação e disse que, após análise interna, não identificou “qualquer uso anormal da plataforma”. Segundo a corporação, o acesso é restrito a policiais em atividade-fim e segue normas de controle. A PM informou ainda que as conversas para reativação dos logins estão em andamento e que colabora com as apurações.

SÃO PAULO WEATHER