Mercosul está aberto a acordos com outros blocos e países, diz Peña

Mercosul está aberto a acordos com outros blocos e países, diz Peña
Presidente do Paraguai, Santiago Peña, durante a cerimônia de assinatura do acordo Mercosul-União Europeia, em Assunção, ao defender a ampliação da rede de parceiros comerciais do bloco/Agência Brasil
Publicado em 18/01/2026 às 13:16

Da redação de LexLegal

Após a assinatura do acordo de livre comércio com a União Europeia em Assunção, o Mercosul passou imediatamente a projetar sua política comercial para além do eixo europeu. O tratado com os 27 países do bloco europeu, que ainda depende de ratificação parlamentar para entrar em vigor, é tratado pelas lideranças sul-americanas como um marco estratégico, mas também como ponto de partida para uma etapa mais ampla de inserção internacional. A avaliação dominante é que a consolidação do acordo com a UE fortalece a credibilidade do Mercosul em negociações com outros mercados relevantes.

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O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anfitrião da cerimônia por exercer a presidência temporária do bloco, afirmou que a assinatura do tratado não encerra, mas inaugura uma nova fase da política externa comercial do Mercosul. “Nosso trabalho no processo de integração [comercial do bloco sul-americano] está apenas começando”, declarou aos jornalistas logo após o evento. A frase sintetiza a leitura política de que o pacto com a União Europeia serve como plataforma para a diversificação de parceiros e para a redução da dependência excessiva de poucos mercados compradores.

Peña destacou que as negociações com os Emirados Árabes Unidos já se encontram em estágio avançado. “Estamos avançando no tratado de livre comércio com os Emirados Árabes”, afirmou, indicando que a aproximação com o Oriente Médio faz parte de uma estratégia de ampliar o acesso do Mercosul a regiões com forte capacidade de investimento e demanda crescente por alimentos, energia e commodities agrícolas.

O presidente paraguaio também enfatizou que a Ásia ocupa posição central na agenda de expansão comercial do bloco. “Estamos mirando com enorme atenção o Japão, a Coreia do Sul e outros países asiáticos além da China, um sócio estratégico de todas as nações latino-americanas e do Mercosul”, declarou. Ao citar explicitamente Japão e Coreia do Sul, Peña sinalizou interesse em acordos com economias altamente industrializadas e tecnologicamente avançadas, que podem abrir espaço para maior diversificação das exportações do bloco.

Na mesma linha, o presidente mencionou outros países do Sudeste Asiático. “Comentou ainda a Indonésia e o Vietnã”, reforçando que a estratégia asiática do Mercosul não se limita aos grandes polos tradicionais, mas inclui mercados emergentes com forte crescimento demográfico e econômico. Esses países vêm ampliando suas importações de alimentos e matérias-primas, áreas nas quais o Mercosul possui alta competitividade.

Outro eixo citado foi a América do Norte, fora do âmbito do acordo UE–Mercosul. Peña afirmou que há negociações em andamento com o Canadá. “Também estamos avançando em um acordo de complementação econômica com o Canadá”, declarou. Diferentemente de um tratado de livre comércio pleno, esse tipo de acordo costuma ter escopo mais flexível, concentrando-se na redução de barreiras específicas, facilitação de investimentos e cooperação regulatória.

Para o presidente do Paraguai, a soma dessas frentes de negociação demonstra uma convicção política comum entre os países do bloco. “De maneira que não resta dúvida de que os países do Mercosul estão convencidos de que a integração econômica, a colaboração e o multilateralismo é o caminho [a trilhar]”, afirmou. A declaração dialoga diretamente com o discurso defendido pela União Europeia durante a assinatura do acordo em Assunção, no qual as autoridades europeias reforçaram a defesa do comércio baseado em regras multilaterais, em oposição a políticas protecionistas.

Do ponto de vista jurídico, cada novo acordo internacional firmado pelo Mercosul exige processos internos de aprovação nos países-membros. Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Bolívia, que está em fase final de adesão ao bloco, precisam submeter os tratados aos seus respectivos Parlamentos. Isso significa que a ampliação da rede de parceiros comerciais depende tanto de negociações diplomáticas quanto de consensos políticos internos.

A ampliação da agenda comercial também tem implicações diretas para a política regulatória do Mercosul. Cada novo tratado envolve compromissos sobre tarifas, padrões sanitários, regras de origem, proteção de investimentos, propriedade intelectual e sustentabilidade ambiental. Na prática, isso força os países do bloco a promoverem maior harmonização normativa e a fortalecerem seus mecanismos institucionais de coordenação.

No caso específico da Ásia, os desafios são ainda maiores. Muitos desses mercados exigem padrões rigorosos de qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade ambiental, o que impacta diretamente setores como o agronegócio e a indústria de alimentos. Ao mesmo tempo, esses acordos podem impulsionar investimentos em infraestrutura logística, portuária e tecnológica nos países do Mercosul.

A aposta em mercados como Japão e Coreia do Sul também sinaliza um movimento de diversificação industrial. Esses países são grandes exportadores de tecnologia, máquinas e equipamentos, o que pode estimular fluxos de comércio mais equilibrados, reduzindo a concentração do Mercosul em exportações primárias.

A relação com a China, citada por Peña como “sócio estratégico”, permanece como pilar central da política comercial sul-americana. O país asiático é atualmente o principal destino das exportações brasileiras e um dos maiores parceiros comerciais de Argentina, Uruguai e Paraguai. Ao mesmo tempo, o Mercosul busca evitar uma dependência excessiva, equilibrando suas relações com outros polos econômicos globais.

A estratégia anunciada pelo Paraguai indica que o acordo com a União Europeia tende a funcionar como selo de credibilidade internacional. Ao fechar um pacto com um dos blocos econômicos mais exigentes do mundo em termos regulatórios e ambientais, o Mercosul fortalece sua posição negociadora diante de outros parceiros.

No plano político, a movimentação também responde a um cenário internacional marcado por disputas comerciais e pelo uso crescente de tarifas como instrumento de pressão geopolítica. Ao apostar no multilateralismo e na expansão de acordos, o Mercosul tenta se posicionar como ator previsível e comprometido com regras estáveis de comércio internacional.

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A fala de Santiago Peña sintetiza esse momento de transição do bloco: o acordo com a União Europeia encerra um ciclo histórico de mais de duas décadas de negociações, mas abre outro, no qual o Mercosul pretende se afirmar como polo ativo na reorganização do comércio global.

SÃO PAULO WEATHER