Mauro Vieira vai representar o Brasil na assinatura do acordo UE-Mercosul no Paraguai

Mauro Vieira vai representar o Brasil na assinatura do acordo UE-Mercosul no Paraguai
Itamaraty confirma presença do chanceler e Lula não deve participar do evento/Agência Brasil
Publicado em 12/01/2026 às 13:00

Da redação de LexLegal

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, será o representante do Brasil na cerimônia de assinatura do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, marcada para o próximo sábado (17), em Assunção, no Paraguai. A definição confirma que o governo brasileiro optou por uma representação institucional de alto nível diplomático, mas sem a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no evento. A cerimônia ocorre no país que atualmente ocupa a presidência temporária do bloco sul-americano.

Leia também: Bichara Advogados promove Guilherme Tostes a sócio da área tributária

A escolha de Assunção como sede da assinatura decorre do calendário rotativo de presidência do Mercosul, que neste semestre está sob comando do Paraguai. O encontro reunirá os ministros das Relações Exteriores dos países membros do bloco, além de representantes da Comissão Europeia. A expectativa é que a cerimônia marque oficialmente o fim de um processo de negociação que se estendeu por mais de duas décadas e que envolveu intensos debates políticos, econômicos e ambientais.

O acordo foi formalmente autorizado na última sexta-feira (9), quando o Conselho da União Europeia deu sinal verde para a assinatura do tratado. Essa autorização é uma etapa essencial dentro do sistema decisório europeu e significa que os países do bloco concordaram politicamente com o texto negociado. A partir desse aval, a assinatura passou a ser juridicamente possível.

Para o governo brasileiro, o tratado é visto como um marco estratégico na política comercial externa. O Itamaraty estima que, uma vez formalizado, o acordo reunirá um mercado de cerca de 718 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto combinado de aproximadamente US$ 22,4 trilhões. Em termos práticos, trata-se do maior acordo comercial já firmado pelo Mercosul desde sua criação.

Um acordo desse porte cria um conjunto de regras que reduzem tarifas de importação, facilitam investimentos, ampliam o comércio de serviços e estabelecem padrões comuns para temas como propriedade intelectual, compras governamentais, sustentabilidade e barreiras técnicas. Isso não significa abertura imediata e total dos mercados, mas sim um processo gradual de integração econômica.

Apesar da importância política da assinatura, o ato não implica aplicação automática das regras do tratado. Após essa etapa, começa uma fase de ratificação legislativa. Cada país do Mercosul precisa aprovar o texto em seu respectivo parlamento. No caso do Brasil, o acordo terá de passar pelo Congresso Nacional. O mesmo ocorrerá nos demais países do bloco e também no Parlamento Europeu, além dos parlamentos nacionais dos países da União Europeia, conforme seus procedimentos internos.

Esse processo pode levar anos. Historicamente, tratados comerciais dessa dimensão passam por debates intensos, sobretudo em temas sensíveis como agricultura, meio ambiente, proteção industrial e direitos trabalhistas. A assinatura, portanto, tem forte valor simbólico e político, mas não encerra a tramitação institucional.

A ausência do presidente Lula no evento não reduz o peso diplomático da participação brasileira. No protocolo internacional, a presença do chanceler é suficiente para formalizar compromissos dessa natureza. Além disso, a decisão preserva o caráter técnico e diplomático da cerimônia, mantendo o foco na consolidação institucional do acordo.

A celebração do tratado tem sido destacada pelo governo brasileiro como um instrumento para ampliar as exportações e diversificar mercados. A União Europeia é um dos principais parceiros comerciais do Brasil, especialmente para produtos agrícolas, commodities minerais e bens industrializados de maior valor agregado.

Ao mesmo tempo, o acordo é visto como uma ferramenta de atração de investimentos estrangeiros. Empresas europeias tendem a ter maior previsibilidade jurídica para investir no Mercosul quando existem regras comuns de comércio, proteção de investimentos e solução de controvérsias. Isso pode impactar setores como infraestrutura, energia, logística, indústria e tecnologia.

No plano político, o acordo também reforça o discurso de fortalecimento do multilateralismo e da integração econômica internacional. Em um cenário global marcado por disputas geopolíticas e por tendências de protecionismo, a assinatura do tratado sinaliza uma aposta na cooperação econômica entre blocos regionais.

Ainda assim, o texto do acordo é alvo de críticas em diferentes setores. Na Europa, há preocupações ambientais ligadas ao desmatamento e à política climática brasileira. No Mercosul, especialmente no Brasil, há receios de que setores industriais menos competitivos sejam pressionados pela concorrência de produtos europeus.

Essas tensões explicam por que a fase de ratificação legislativa tende a ser complexa. Parlamentares, entidades empresariais, sindicatos e organizações ambientais devem pressionar por ajustes, salvaguardas e compromissos complementares antes da aprovação definitiva.

Veja também: Cartórios passam a validar provas digitais com fé pública no Brasil

Do ponto de vista jurídico, a assinatura cria uma obrigação política entre os blocos, mas não produz efeitos diretos no comércio enquanto não houver ratificação. É somente após a aprovação parlamentar e a promulgação interna que o tratado passa a gerar direitos e deveres jurídicos para empresas, governos e cidadãos.

SÃO PAULO WEATHER