Marcha da Maconha leva multidão à Paulista e cobra legalização

Da Redação de LexLegal
Milhares de pessoas ocuparam a Avenida Paulista, em São Paulo, neste domingo (21), durante a 18ª edição da Marcha da Maconha. O ato reuniu apoiadores da legalização da cannabis, pacientes, familiares, ativistas e entidades ligadas à pauta da regulamentação da planta.
Concentrados em frente ao Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp), os participantes defenderam mudanças na legislação brasileira e criticaram os efeitos da criminalização da maconha. Entre os argumentos apresentados estavam o impacto da política de drogas sobre o sistema prisional, as dificuldades de acesso a tratamentos com cannabis medicinal e o preconceito enfrentado por pacientes que utilizam medicamentos derivados da planta.
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A manifestação ocorre em um momento de ampliação do debate sobre o uso medicinal da cannabis e poucos meses após decisões judiciais e discussões legislativas que voltaram a colocar o tema no centro das atenções no país.
Faixas, cartazes e camisetas exibiam mensagens favoráveis à regulamentação e críticas às restrições impostas ao uso medicinal. O público reunido na Avenida Paulista era formado por pessoas de diferentes perfis e faixas etárias, incluindo idosos, jovens, famílias e pacientes que utilizam produtos à base de cannabis sob orientação médica.
Entre os participantes estava a professora de educação infantil Stephanie Oliveira, que participou da marcha pela primeira vez ao lado do namorado. Segundo ela, sua mãe utiliza cannabis medicinal para auxiliar no tratamento de dores e distúrbios do sono.
A professora relatou que teve receio de expor sua participação no evento nas redes sociais por causa da repercussão entre colegas de trabalho, mas decidiu tornar público seu posicionamento.
“Não é um assunto tão aberto e eu não converso muito sobre isso na escola com as minhas colegas de trabalho, sendo que a maioria me segue no Instagram. Cheguei a pensar se deveria postar, mas considero o movimento importante. Vou publicar independentemente de julgamentos, porque é uma causa que eu apoio, mesmo não fumando”, afirmou Stephanie Oliveira, professora de educação infantil.
O debate entre uso medicinal e uso recreativo
A discussão sobre a cannabis envolve diferentes frentes e frequentemente mistura temas distintos.
Uma delas é o uso medicinal, autorizado em determinadas situações pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Outra envolve a regulamentação para uso adulto, tema que continua gerando divergências entre especialistas, autoridades e setores da sociedade.
Nos últimos anos, o uso terapêutico da cannabis ganhou espaço no Brasil, principalmente para tratamento de epilepsias refratárias, dores crônicas, autismo, doenças neurodegenerativas e distúrbios relacionados ao sono.
Apesar dos avanços regulatórios, pacientes e associações argumentam que o acesso ainda é limitado devido ao alto custo dos produtos e às dificuldades para obtenção de autorização e importação.
Mercado medicinal cresce no Brasil
Dados do anuário da Kaya Mind, organização especializada em pesquisas sobre o setor da cannabis, apontam que cerca de 50 mil pessoas no Brasil declaram utilizar produtos derivados da cannabis para tratamento médico.
O levantamento também destaca que o crescimento do segmento ainda enfrenta barreiras relacionadas à percepção social sobre a planta e à ausência de regras mais amplas para produção e comercialização nacional.
Segundo a entidade, a resistência de parte da sociedade ao tema dificulta o avanço de projetos regulatórios e mantém o acesso concentrado em grupos com maior capacidade financeira.
Atualmente, muitos pacientes dependem de importações autorizadas ou de decisões judiciais para garantir a continuidade dos tratamentos.
Quem usa cannabis medicinal no Brasil
Pesquisas recentes indicam mudanças no perfil dos usuários de cannabis medicinal.
Levantamento da Bliss Data 2026 aponta que mulheres de meia-idade e da terceira idade formam atualmente um dos grupos mais representativos entre os pacientes que utilizam produtos derivados da planta.
O dado contrasta com a imagem tradicionalmente associada ao debate sobre cannabis, muitas vezes ligada exclusivamente ao consumo recreativo.
Especialistas observam que o envelhecimento da população e o aumento da busca por alternativas terapêuticas para dores crônicas, ansiedade e distúrbios neurológicos contribuíram para essa transformação.
O que diz a legislação brasileira
A legislação brasileira continua proibindo o cultivo e a comercialização da maconha para uso recreativo.
Entretanto, o cenário jurídico passou por mudanças nos últimos anos.
A Anvisa regulamentou a importação de produtos à base de cannabis para fins medicinais e autorizou a comercialização de determinados itens mediante prescrição médica.
Além disso, decisões judiciais têm permitido, em casos específicos, o cultivo doméstico para fins terapêuticos por pacientes que comprovam necessidade médica.
O tema também foi objeto de análise pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que discutiu a diferenciação entre usuário e traficante para fins penais.
Apesar desses avanços, ainda não existe uma legislação federal que regulamente amplamente a produção, o cultivo e a distribuição de cannabis para fins medicinais no país.
Debate segue sem consenso
A Marcha da Maconha se consolidou ao longo dos anos como um dos principais espaços públicos de discussão sobre a política de drogas no Brasil.
Defensores da regulamentação argumentam que mudanças legais poderiam ampliar o acesso a tratamentos, reduzir o mercado ilegal e permitir maior controle estatal sobre a produção e comercialização.
Já críticos da proposta afirmam que a flexibilização pode ampliar o consumo e gerar impactos negativos para a saúde pública.
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Enquanto o debate permanece sem consenso, o crescimento do uso medicinal, o aumento das decisões judiciais sobre o tema e a mobilização de pacientes e familiares mostram que a discussão sobre a cannabis deixou de se restringir ao campo criminal e passou a envolver questões de saúde, regulação, economia e direitos individuais. Com informações da Agência Brasil.