Mais de 20 milhões de brasileiros ainda não usam internet – falta de instrução é principal barreira

Da redação de LexLegal
Apesar da crescente digitalização dos serviços públicos e financeiros, mais de 20,5 milhões de brasileiros com 10 anos ou mais de idade ainda não utilizavam a internet em 2024. Isso representa 10,9% da população dessa faixa etária, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) sobre Tecnologia da Informação e Comunicação, divulgada nesta quinta-feira (24) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Leia também: Violência cai 5,4% no Brasil em 2024, mas desigualdade regional e crimes contra crianças e mulheres disparam
O principal motivo apontado para essa desconexão digital é a falta de conhecimento técnico: 45,6% dos entrevistados afirmaram que não sabem como usar a internet. Esse percentual representa 9,3 milhões de pessoas excluídas do ambiente digital por barreiras educacionais, o que reforça a urgência de políticas públicas voltadas à alfabetização digital e à capacitação básica da população.
O levantamento foi realizado no último trimestre de 2024 e considerou os hábitos da população nos 90 dias anteriores à entrevista domiciliar. Ele revela não apenas a dimensão da exclusão digital no país, mas também os fatores estruturais e culturais que ainda impedem parte da população brasileira de se conectar à internet.
Exclusão digital atinge especialmente idosos e pessoas com baixa escolaridade
Segundo os dados do IBGE, mais da metade (52,1%) das pessoas que não usaram a internet em 2024 são idosos, e 73,4% têm até o ensino fundamental incompleto ou nenhuma instrução formal. Entre os idosos, o motivo “não saber usar” a internet alcança 66,1% das respostas, revelando uma lacuna significativa de capacitação tecnológica que persiste mesmo diante do avanço da conectividade no país.
Apesar disso, a participação dos idosos na internet tem crescido gradualmente, segundo os analistas do IBGE. Esse avanço, no entanto, ainda é insuficiente diante das exigências cada vez maiores de navegação digital para acessar serviços bancários, benefícios sociais, compras online e plataformas de comunicação.
Outros motivos para não usar a internet
Além da falta de conhecimento, 28,5% dos brasileiros disseram que não utilizam a internet por não acharem necessário. Isso revela não apenas um desinteresse, mas também uma possível falta de percepção de utilidade ou relevância da internet em suas rotinas. Outros motivos citados incluem:
Serviço de acesso caro: 7,5%
Outro motivo: 4,5%
Falta de tempo: 4,3%
Preocupação com privacidade ou segurança: 3,8%
Equipamento caro: 3,4%
Serviço de acesso indisponível: 2,4%
É importante observar que motivos de ordem econômica perderam peso desde 2022: naquele ano, 16,2% dos brasileiros alegavam custo elevado do serviço ou dos dispositivos como impeditivo. Em 2024, esse número caiu para 10,9%, o que pode refletir a maior popularização de aparelhos móveis mais acessíveis e a ampliação de ofertas de planos móveis mais baratos.
Jovens e crianças: privacidade e segurança ganham protagonismo
Na faixa etária entre 10 e 13 anos, o motivo mais comum para não usar internet é a falta de necessidade, apontada por 33,9% dos entrevistados. No entanto, chama atenção o crescimento da preocupação com privacidade e segurança, especialmente em relação ao uso de celulares por crianças e adolescentes.
Entre os 5 milhões de jovens de 10 a 13 anos que não possuem celular, 24,1% mencionaram preocupações com privacidade ou segurança como principal razão para não ter o aparelho — um aumento significativo em relação a 2022, quando o índice era de 17,2%.
O analista da pesquisa, Gustavo Geaquinto Fontes, destaca que essa preocupação muitas vezes parte dos próprios pais ou responsáveis:
“Pode refletir também a preocupação dos próprios pais ou responsáveis. Apesar de ser um equipamento importante para comunicação, é uma preocupação de pais”, afirma Fontes.
A análise reforça o entendimento de que a segurança digital tornou-se um fator central nas decisões familiares sobre acesso à internet, principalmente entre públicos mais jovens.
Expansão do acesso e desafios persistentes
Apesar dos entraves, o Brasil atingiu em 2024 a marca de 168 milhões de pessoas com acesso à internet, o equivalente a 89,1% da população com 10 anos ou mais de idade. O uso da internet cresceu fortemente nos últimos dois anos, impulsionado principalmente pelo aumento da bancarização, popularização do Pix e a digitalização de serviços públicos.
Mesmo com esse avanço, os dados da Pnad mostram que a exclusão digital ainda atinge milhões de brasileiros. A barreira educacional, aliada à desinformação sobre os riscos e às desigualdades regionais, mantém uma parcela significativa da população à margem do ambiente digital.
Cartilha orienta uso seguro por crianças
Com o aumento do acesso infantil à internet e o crescimento das preocupações com segurança, a organização Childhood Brasil lançou uma cartilha com orientações para garantir a navegação segura de crianças e adolescentes. O material traz dicas sobre proteção de dados, uso consciente de aplicativos e estratégias para evitar exposição a conteúdos inadequados.
O conteúdo está disponível gratuitamente e pode ser acessado neste link, sendo voltado a pais, educadores e cuidadores.
Caminhos para a inclusão digital
Para especialistas, o Brasil precisa investir de forma estruturada em políticas públicas de alfabetização digital, especialmente para idosos e pessoas com baixa escolaridade. Além disso, é necessário ampliar o debate sobre segurança digital e uso responsável da internet, tanto no ambiente escolar quanto nos canais de comunicação pública.
Veja também: Hábitos digitais: 120 milhões de brasileiros acessam bancos online
A redução da exclusão digital não se dá apenas com conexão: exige capacitação, confiança, acessibilidade e suporte técnico.