Lula vai à Índia para reposicionar o Brasil no tabuleiro geopolítico global

José Renato Ferraz da Silveira*

A chegada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Nova Délhi, na quarta-feira (18), não é apenas mais um compromisso diplomático. É um gesto político calculado, inserido em um tabuleiro internacional cada vez mais tensionado.
A visita tem como objetivo ampliar a parceria estratégica com a Índia e fortalecer alianças entre países do Sul Global na defesa do multilateralismo — um conceito que, hoje, voltou ao centro da disputa geopolítica.
Brasil e Índia compartilham convergências importantes: defendem a reforma da Organização das Nações Unidas, atuam conjuntamente nos BRICS, no G20 e em outros fóruns multilaterais. No entanto, a densidade política da relação ainda não se traduz em robustez econômica.
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Apesar de a Índia possuir o quarto maior PIB do mundo — com projeções de crescimento expressivas nas próximas décadas —, as trocas comerciais entre Brasília e Nova Délhi permanecem aquém do potencial estratégico de ambas as nações.
As semelhanças estruturais são evidentes. Brasil e Índia são grandes economias emergentes, marcadas por desigualdades sociais profundas, passados coloniais complexos e bases produtivas historicamente vinculadas à agricultura.
Ainda que separados por geografia e cultura, compartilham desafios de desenvolvimento, pluralidade demográfica e a busca por maior protagonismo internacional. São, cada qual a seu modo, potências regionais com ambições globais.
O primeiro compromisso de Lula na capital indiana é a participação na cúpula sobre o impacto da inteligência artificial no mundo. O evento, que integra o chamado “processo de Bletchley” — série de reuniões intergovernamentais voltadas à segurança, governança e cooperação global em IA — reúne chefes de Estado e líderes empresariais para discutir os rumos tecnológicos da próxima década.
Ao inserir-se nesse debate, o Brasil sinaliza que não pretende apenas consumir tecnologia, mas participar da construção das regras que moldarão o novo ecossistema digital global.
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No plano econômico, Brasil e Índia devem avançar em negociações envolvendo terras raras, minerais críticos, alimentos, medicamentos e vacinas. A agenda, contudo, não é isenta de tensões.
Os dois países competem em setores sensíveis, especialmente no agronegócio — açúcar, arroz, carne bovina, derivados de soja e algodão — além da produção de biocombustíveis e das indústrias química e farmacêutica. A visita presidencial busca, portanto, transformar rivalidade em complementaridade estratégica.
Em um cenário internacional que caminha para uma nova bipolaridade, marcado pela pressão dos Estados Unidos para conter a ascensão chinesa, Brasil e Índia procuram ampliar sua margem de manobra.
Não se trata de romper com Washington ou Pequim, mas de escapar da lógica de alinhamento automático. Como potências emergentes, buscam construir alternativas que transcendam o condomínio sino-americano e reafirmem a autonomia decisória do Sul Global.
A viagem de Lula a Nova Délhi reforça essa estratégia de diversificação e autonomia. Ampliar parceiros comerciais relevantes como a Índia é passo inevitável para um país que deseja elevar seu patamar nas Relações Internacionais.
No século XXI, poder não se mede apenas por força militar ou alinhamentos rígidos, mas por capacidade de articulação, diversificação de vínculos e protagonismo normativo.
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A lógica geopolítica mudou. O mundo já não é unipolar, tampouco plenamente bipolar. É fluido, interdependente e competitivo. Nesse contexto, Brasil e Índia têm diante de si uma escolha histórica: permanecer como atores periféricos na disputa das grandes potências ou consolidar-se como pilares de uma nova arquitetura internacional.
A visita presidencial é um movimento nessa direção — e seus resultados dirão se o gesto diplomático se converterá em estratégia duradoura.
*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).
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