Legaltechs, inteligência artificial e o custo invisível da inovação: quem está pagando a conta hídrica da revolução digital?

Legaltechs, inteligência artificial e o custo invisível da inovação: quem está pagando a conta hídrica da revolução digital?
À medida que as legaltechs se consolidam como catalisadoras da transformação digital no setor jurídico, um elemento essencial permanece ausente na maioria das discussões sobre inovação: o custo ambiental do progresso tecnológico/Open IA
Publicado em 15/05/2025 às 9:28

Priscila Spadinger*

Nessa semana vi rumores de que a OpenAI, proprietária do ChatGPT, estaria comprando terras no Brasil, dado que mais de 12% das reservas de água potável estão por aqui e, em alguns anos, teria que ter reserva de água suficiente para “refrescar” seus data centers.

Fiquei impressionada com isso, perguntei ao próprio ChatGPT e ele me relatou que não é verdade que estão comprando terras por aqui, mas que seria uma preocupação válida. Daí resolvi desenvolver esse tema tão importante quanto invisível em tempos atuais, trazendo luz ao custo do desenvolvimento tecnológico e possíveis saídas, envolvendo também startups legaltechs neste contexto.

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À medida que as legaltechs se consolidam como catalisadoras da transformação digital no setor jurídico, um elemento essencial permanece ausente na maioria das discussões sobre inovação: o custo ambiental do progresso tecnológico.

Com o avanço da inteligência artificial, automação de documentos, jurimetria e predição de decisões judiciais, o Direito se tornou fortemente dependente de estruturas computacionais de alta performance. Essas estruturas estão alojadas em data centers — os “cérebros” da era digital — responsáveis por processar e armazenar volumes gigantescos de dados jurídicos.

Mas esses cérebros digitais têm sede. Muita sede.

Estudos recentes apontam que grandes data centers consomem milhões de litros de água por dia apenas para fins de resfriamento. Em um cenário onde legaltechs começam a treinar seus próprios modelos de IA ou a consumir massivamente APIs de grandes players como OpenAI, Google e AWS, é inevitável reconhecer que a digitalização da justiça vem acompanhada de um custo ecológico expressivo — invisível, mas crescente.

O paradoxo da eficiência

Legaltechs vendem eficiência. E entregam. Redução de custos, celeridade processual, desburocratização e acesso ampliado à Justiça estão no centro da proposta de valor dessas startups.

No entanto, essa mesma transformação que economiza milhões em papel e horas de trabalho humano, aumenta silenciosamente o consumo energético e hídrico global. Estamos diante de um paradoxo: ao digitalizar o processo judicial, estamos também aquecendo o planeta?

E o que isso significa para o ecossistema de inovação jurídica?

  • ESG Tech não é tendência, é urgência

Legaltechs precisarão incorporar critérios de sustentabilidade digital em seus modelos de negócio. Isso implica avaliar o impacto ambiental do uso de IA, armazenamento em nuvem e estrutura de servidores. Transparência e rastreabilidade são palavras-chave daqui para frente.

  • Investidores estão atentos

Fundos que seguem princípios ESG já começaram a olhar além dos indicadores financeiros. A pegada ecológica dos algoritmos será critério de seleção. Não basta escalar — é preciso escalar com responsabilidade.

  • O futuro da justiça é verde — ou não será

Tribunais, startups e venture builders como a Aleve têm a responsabilidade de colocar essa discussão no centro do palco. Se estamos reconstruindo a justiça com base em dados, algoritmos e automação, ela precisa ser justa também com o planeta.

ESG tech na prática: o exemplo da Nai-it.com

Uma referência concreta de como tecnologia e sustentabilidade podem caminhar juntas é a Nai-it.com. A empresa desenvolveu a plataforma EVO ESG, que alia inteligência de dados, Internet das Coisas (IoT) e monitoramento contínuo para ajudar empresas a gerirem seus indicadores ESG em tempo real.

A proposta vai além da tecnologia: a Nai-it.com oferece consultoria especializada para apoiar organizações na adequação às normas, capacitação de equipes e engajamento de stakeholders. 

É uma abordagem completa que conecta estratégia, governança e impacto social.

Além disso, a plataforma é altamente integrável com soluções de legaltechs, ampliando a capacidade das empresas de gerenciar riscos legais e regulatórios com mais precisão, enquanto fortalecem sua reputação e compromisso ambiental.

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Estamos diante de uma nova fronteira na inovação jurídica: aquela em que a eficiência operacional precisa coexistir com a responsabilidade ecológica. A revolução digital não pode ignorar seus próprios efeitos colaterais. A boa notícia é que soluções existem — e a tecnologia, quando bem direcionada, pode ser parte do problema, mas sobretudo parte da solução.

A pergunta que fica é: quem está pagando a conta hídrica da revolução digital? E por quanto tempo mais vamos ignorá-la?

*Priscila Spadinger é CEO da Aleve LegalTech Ventures S/A, advogada investidora da CriaAI.com.br e colunista do Portal Lex Legal Brasil. É especialista nas interseções entre inovação, tecnologia e Direito.

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