Legaltech e IA jurídica: como venture building gera valor na advocacia?

Legaltech e IA jurídica: como venture building gera valor na advocacia?
Entenda o papel das legaltechs e do venture building na transformação da advocacia brasileira/Freepik
Publicado em 09/04/2026 às 10:12

Priscila Spadinger*

O mercado jurídico brasileiro atravessa uma inflexão relevante. A proliferação de ferramentas baseadas em inteligência artificial, automação de processos e plataformas de acesso a dados públicos alterou, de forma irreversível, a relação entre o advogado e a informação. Esse movimento, contudo, coloca uma questão que vai além da adoção tecnológica: quem estrutura o ambiente para que essas soluções cheguem, de fato, ao profissional que delas precisa?

Uma resposta possível é o modelo de venture building setorial, ou seja, estruturas de holding que não apenas investem em startups, mas constroem ativamente o ecossistema que viabiliza sua operação e crescimento. No campo jurídico, esse modelo é ainda incipiente no Brasil. A lógica é relativamente simples: legaltechs costumam nascer com produto, mas raramente com mercado. A confiança que o ambiente jurídico exige para adotar uma nova ferramenta não se constrói por tração digital isolada, ela demanda reputação, presença institucional e profundo conhecimento do setor.

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venture builder jurídico, nesse contexto, opera como catalisador de mercado. Ele mapeia estratégias comerciais, estrutura a jornada de aquisição de clientes, posiciona cada solução dentro de um ecossistema coerente e garante que a governança das empresas investidas esteja à altura das exigências regulatórias e éticas da advocacia. O resultado não é apenas organizacional: é receita, é base de clientes, é sustentabilidade para startups que, sem esse suporte, teriam dificuldade de atravessar o vale da morte entre o lançamento e a tração consistente.

Educação como estratégia de mercado

Um dos vetores mais eficazes para a expansão de um ecossistema legaltech é a educação do mercado-alvo. Quando o advogado compreende, em profundidade, o que uma ferramenta tecnológica é capaz de fazer e, igualmente importante, o que ela não substitui, a resistência à adoção diminui e a qualidade da utilização aumenta.

É nesse espírito que se insere, por exemplo, o Seminário Jurídico promovido pela OAB Minas Gerais, programado para o dia 13 de abril de 2026, nas dependências do Museu da Inconfidência, em Ouro Preto. Com inscrições esgotadas e mais de duzentos advogados confirmados, o evento integra a programação da Comissão de Direito Notarial e Registral e da 49ª Subseção da OAB/MG, dedicado a debater os avanços tecnológicos e práticos nas atividades extrajudiciais a serviço da advocacia.

Uma das palestras, intitulada “Legaltechs na Advocacia Imobiliária — Da Caneta à Inteligência Artificial”, abordará diretamente a intersecção entre inovação tecnológica e prática jurídica no campo imobiliário e extrajudicial e serei uma das painelistas.

Iniciativas como essa revelam uma dimensão frequentemente subestimada do ecossistema legaltech: a inteligência de mercado que se constrói a partir do contato direto com a comunidade jurídica. Cada interação com advogados em formação continuada gera dados sobre dores reais, resistências específicas e oportunidades de produto que nenhuma pesquisa de desk research consegue capturar com a mesma fidelidade. O evento, portanto, não é apenas difusão de conhecimento, mas sim uma escuta qualificada e construção de base de relacionamento.

Soluções que endereçam problemas concretos

A discussão sobre inovação jurídica ganha substância quando ancorada em casos de uso precisos. Três exemplos do campo imobiliário ilustram bem o tipo de valor que legaltechs bem estruturadas são capazes de entregar.

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Deu Lance é uma plataforma dedicada à identificação e análise de ativos em leilão judicial. O mercado de leilões imobiliários sempre foi tecnicamente acessível, mas operacionalmente hostil ao advogado que não dispõe de infraestrutura para rastrear editais, cruzar dados patrimoniais e produzir uma análise de risco minimamente estruturada antes de orientar seu cliente. A ferramenta automatiza esse processo e entrega um due diligence preliminar que transforma a atividade de assessoria em leilões de algo esporádico para algo sistematizável.

Na mesma vertente, a JusMapp oferece due diligence imobiliário expresso, com foco em agilidade e rastreabilidade. Em transações onde o prazo é variável crítica, tais como uma compra e venda com financing condicionado, por exemplo, a capacidade de produzir um relatório confiável em tempo reduzido pode ser determinante para o fechamento do negócio. A ferramenta não elimina o julgamento do advogado; ela comprime o tempo de coleta e organização de informações para que esse julgamento se aplique onde de fato agrega valor.

Já a Dynadok endereça um gargalo recorrente em escritórios que operam com grandes volumes contratuais: a gestão e análise de documentos de alta complexidade. Com suporte de inteligência artificial, a plataforma lê cláusulas, mapeia riscos, organiza acervos e facilita a recuperação de informações em contratos que, pela densidade e extensão, demandariam horas de análise manual. Em operações de M&A, financiamentos estruturados ou portfólios imobiliários volumosos, essa eficiência tem impacto direto no custo da hora jurídica e na qualidade da entrega.

A centralidade do ser humano na inovação jurídica

Há uma narrativa recorrente nos debates sobre inteligência artificial e advocacia que merece ser confrontada com rigor: a de que a tecnologia, inevitavelmente, substituirá o advogado. Essa perspectiva confunde automação de tarefas com substituição de função. O que as ferramentas descritas acima automatizam são etapas de coleta, organização e análise preliminar de dados, que são processos importantes, mas que não esgotam o que constitui a atividade jurídica em sua dimensão mais relevante.

O advogado que bem utiliza uma legaltech não se torna dispensável: torna-se mais capaz. Libera-se de atividades de baixo valor agregado para concentrar atenção no raciocínio estratégico, na escuta do cliente, na construção de teses jurídicas consistentes e no exercício do julgamento ético que nenhum algoritmo é capaz de exercer com a mesma profundidade. A tecnologia, nesse quadro, não concorre com o profissional, mas sim serve a ele.

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Essa distinção não é retórica. Ela define o tipo de produto que vale a pena construir e o tipo de ecossistema que vale a pena cultivar. Um venture builder jurídico comprometido com esse princípio não apenas seleciona startups com tecnologia robusta: assegura que essas startups sejam desenvolvidas e posicionadas com o advogado como protagonista, não como variável a ser eliminada do processo. É nessa convicção que reside, talvez, a contribuição mais duradoura que o segmento legaltech pode oferecer à transformação do direito no Brasil.

*Priscila Spadinger é Advogada (OAB/MG 103.190), Diretora Executiva da Aleve LegalTech Ventures S/A, professora e palestrante de M&A e Venture Capital.

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