Justiça concede quarta liminar contra rescisões unilaterais da Sabesp

Justiça concede quarta liminar contra rescisões unilaterais da Sabesp
Com mais de 500 contratos rescindidos, os impactos das medidas da Sabesp continuam gerando preocupação em setores cruciais, como hospitais e indústrias/Agência Brasil
Publicado em 26/12/2024 às 14:35

A Justiça de São Paulo concedeu a quarta liminar contra a rescisão unilateral de contratos de demanda firme pela Sabesp, determinando a continuidade do fornecimento de água e dos termos contratuais previamente acordados. A decisão foi proferida pelo juiz Gabriel Alves Bueno Pereira, da 35ª Vara Cível de São Paulo, e impede um aumento de 187,61% na tarifa mensal de água para um grande consumidor. Foi fixada multa diária em caso de descumprimento.

O magistrado destacou que o reajuste impactaria diretamente a estabilidade financeira da operação da requerente, além de reconhecer a probabilidade do direito no cumprimento do contrato vigente. A decisão enfatizou que, em caso de improcedência do mérito, a cobrança do reajuste poderá ser feita de forma retroativa, garantindo o equilíbrio entre as partes.

Essa nova decisão se soma às liminares anteriores:

• Primeira liminar, de 10 de dezembro, concedida pelo juiz Fernando Antonio Tasso, da 15ª Vara Cível, que suspendeu aumento tarifário superior a 150%.

• Segunda liminar, de 16 de dezembro, assinada pelo desembargador Carlos Russo, da 30ª Câmara de Direito Privado, para impedir aumentos abusivos.

• Terceira liminar, de 17 de dezembro, proferida pela juíza Monica Di Stasi, da 3ª Vara Cível, mantendo os termos contratuais originais.

• Quarta liminar, 18 de dezembro, proferida pelo juiz Gabriel Alves Bueno Pereira, da 35ª Vara Cível de São Paulo, impedindo um aumento de 187,61%

Com mais de 500 contratos rescindidos, os impactos das medidas da Sabesp continuam gerando preocupação em setores cruciais, como hospitais e indústrias. O advogado Lucas Souza, CEO da We Save (empresa de consultoria em gestão de recursos hídricos e patrona das ações), reafirma que essas decisões são essenciais para garantir segurança jurídica e estabilidade econômica: “A concessão dessas liminares é um passo fundamental para conter práticas que desestabilizam economicamente grandes consumidores e, por consequência, toda a cadeia produtiva.”

A controvérsia ressalta a necessidade de discutir o papel da Sabesp pós-privatização e seus impactos sobre consumidores e a economia paulista. A empresa atende 375 municípios no estado de São Paulo, e os reajustes, se aplicados, podem intensificar pressões inflacionárias e reduzir investimentos nos setores atingidos.

Contexto da crise

Os contratos de demanda firme, reconhecidos pela ARSESP em 2018, ofereciam previsibilidade tarifária para grandes consumidores. Com a rescisão em massa, setores como saúde, comércio e indústria passaram a enfrentar aumentos expressivos nos custos operacionais, forçando muitos deles a buscar alívio no Judiciário.

Apesar de tentativas de diálogo com a Sabesp, consumidores relatam que a concessionária não apresentou alternativas para mitigar os impactos da medida. A ausência de transparência, aliada à falta de regulação específica para as rescisões, intensificou a insatisfação de empresas e entidades de classe.

O caso traz à tona discussões sobre o papel do Judiciário em conter aumentos abusivos em serviços essenciais. Recentemente, o STF anulou reajustes indevidos em serviços públicos funerários na ADPF 1.196, reforçando a necessidade de fiscalização sobre concessões privadas que possam violar o equilíbrio entre eficiência econômica e justiça social.

Sem a modalidade de demanda firme, empresas passam a enfrentar um aumento expressivo nas despesas com água. “Em muitos casos, a previsão é de elevação superior a 200% nas contas de água, forçando empresas a revisarem criticamente seus orçamentos para o próximo ano,” afirma Lucas Souza.

Em entrevistas à imprensa, Carlos Piani, CEO da Sabesp, defendeu a rescisão dos contratos de demanda firme como parte de uma estratégia para alinhar a companhia às diretrizes do novo contrato de concessão firmado após a privatização. Piani afirmou que a medida foi “meramente a SABESP executando seu contrato de concessão” e que o benefício anteriormente concedido a grandes consumidores se tratava de uma política pública incompatível com a nova natureza da empresa.

Efeitos econômicos e sociais

A crise gerada pela Sabesp pode ter um efeito cascata sobre a economia. Grandes consumidores de água, enfrentando tarifas mais altas, tendem a repassar os custos aos consumidores finais, pressionando ainda mais os preços de bens e serviços. Esse impacto inflacionário afeta diretamente a população, já sobrecarregada por juros elevados e dificuldades financeiras.

Lucas Souza reforça a gravidade da situação: “A universalização do saneamento, que deveria ser o objetivo central, está sendo comprometida. A combinação de tarifas elevadas e falta de regulação ameaça tornar o saneamento básico inacessível para muitos, aprofundando desigualdades em um momento de desafios econômicos.”

A liminar é um passo significativo na contenção de abusos, mas o caso Sabesp ilustra a complexidade das privatizações em setores estratégicos e a necessidade de garantir equilíbrio entre interesses econômicos e os direitos fundamentais da população.

Confira na tabela elaborada pela We Save a projeção média de aumento das tarifas conforme o volume de água e esgoto consumido.

Consumo de Aumento da conta
água (m³) (R$/mês)
de 500 a 1 mil 63%
de 1 mil a 3 mil 95%
de 3 mil a 10 mil 116%
de 10 mil a 20 mil 132%
de 20 mil a 30 mil 145%
de 30 mil a 40 mil 156%
< 40 mil > 160%
Para contratos mais antigos, esse aumento pode superar 200%. (Fonte: We Save)

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