Justiça britânica barra recurso da mineradora BHP no caso da tragédia de Mariana

Justiça britânica barra recurso da mineradora BHP no caso da tragédia de Mariana
Tribunal em Londres vê apelação sem chance real de sucesso. Barragem de Fundão, em Mariana (MG), rompeu em 2015 e causou danos ambientais e sociais em larga escala, afetando milhares de pessoas em Minas Gerais e no Espírito Santo/Agência Brasil
Publicado em 20/01/2026 às 13:00

Da redação de LexLegal

A Justiça do Reino Unido negou à mineradora BHP Billiton o direito de recorrer no próprio tribunal que a condenou pela tragédia de Mariana (MG), considerada o maior desastre ambiental da história do Brasil. A decisão foi proferida nesta segunda-feira (19) pela juíza Finola O’Farrell, que entendeu não haver fundamento jurídico para admitir um novo exame do caso na mesma instância.

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“A apelação não tem nenhuma perspectiva real de sucesso. Não há outro motivo convincente para que a apelação seja apreciada”, escreveu a magistrada na sentença. Segundo ela, embora a decisão possa interessar a outros processos em diferentes países, trata-se de uma análise baseada em normas do direito brasileiro já consolidadas como fato no julgamento conduzido no Reino Unido.

O processo discute a responsabilidade da BHP pelo rompimento da barragem do Fundão, em 5 de novembro de 2015, que deixou 19 mortos, destruiu comunidades inteiras e espalhou rejeitos de mineração por cerca de 700 quilômetros, desde Minas Gerais até o oceano Atlântico. A barragem era operada pela Samarco, uma joint venture da BHP com a Vale.

No julgamento encerrado em novembro do ano passado, o tribunal britânico aplicou a legislação brasileira para avaliar os fatos. A sentença reconheceu que a Samarco manteve o aumento da altura da barragem mesmo diante de riscos estruturais, o que levou ao colapso. Com isso, a BHP foi enquadrada como agente poluidor, nos termos da legislação ambiental brasileira, e responsabilizada por conduta culposa com base no Código Civil.

A corte de O’Farrell é especializada em litígios transnacionais e baseia suas decisões nas leis dos países diretamente envolvidos nos fatos. No caso de Mariana, além de peritos em mineração e meio ambiente, foram ouvidos juristas do Brasil e do Reino Unido. A legislação ambiental brasileira foi considerada um dos pilares técnicos do julgamento.

Agora, a BHP tem 28 dias para tentar levar o caso à Corte de Apelação britânica. Até que isso ocorra, ficou suspenso o pagamento de parte das custas processuais, estimadas em 43 milhões de libras, o equivalente a cerca de R$ 302,6 milhões. Os advogados das vítimas, do escritório Pogust Goodhead, haviam pedido a antecipação desses valores, o que foi acolhido apenas de forma parcial pela juíza.

Em nota, a mineradora afirmou: “A BHP apresentará seu recurso contra o julgamento de responsabilidade à Corte de Apelação e, em paralelo, continuará com sua defesa nas fases remanescentes do processo inglês. O Brasil é o local mais adequado para assegurar uma reparação justa e integral às pessoas atingidas”.

A empresa também destacou que a Justiça inglesa reconheceu os programas indenizatórios em andamento no Brasil. “Em seu julgamento proferido em novembro de 2025, a Corte inglesa reconheceu os programas indenizatórios implementados no Brasil e validou os acordos firmados desde 2015”, afirmou, acrescentando que cerca de 240 mil autores da ação no Reino Unido já teriam firmado acordos no país.

A expectativa da BHP é que esse número reduza significativamente o total de litigantes no processo britânico, hoje estimado em quase 620 mil pessoas, além de municípios e instituições públicas.

Do outro lado, os advogados das vítimas afirmaram que a decisão fortalece a responsabilização da mineradora. Jonathan Wheeler, sócio do Pogust Goodhead, declarou que o entendimento do tribunal “reforça a robustez das conclusões” e aproxima os autores de uma indenização efetiva.

“O pedido da BHP por autorização para recorrer mostra que ela continua tratando este caso como algo a ser ‘administrado’, e não como um desastre humanitário e ambiental que exige um desfecho justo. Cada nova manobra processual significa mais atraso, mais custos e mais prejuízos para pessoas que já esperam há mais de uma década por uma indenização adequada”, afirmou.

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Segundo dados apresentados no processo, o volume total de indenizações pode chegar a R$ 260 bilhões. O tribunal já reservou datas, a partir de outubro deste ano, para iniciar a fase de definição de quem terá direito a compensação e em que valores. O pagamento, se confirmado, deve ocorrer de forma escalonada ao longo de vários anos.

SÃO PAULO WEATHER