Joseph Nye, pai do soft power, morre aos 87 e deixa alerta sobre os danos de Trump à influência global dos EUA

Joseph Nye, pai do soft power, morre aos 87 e deixa alerta sobre os danos de Trump à influência global dos EUA
No seu último ato como inquisitivo pensador, Nye fez uma avaliação severa de Donald Trump, que desde o regresso à Casa Branca empenhou-se em destruir o "soft power" dos Estados Unidos/Aspen Institute
Publicado em 09/05/2025 às 10:16

José Renato Ferraz da Silveira e Davi Lôbo Todeschini*

Falecido na terça-feira (6), Joseph S. Nye – o teórico do soft power – ocupou cargos de primeira linha, em particular no Departamento de Defesa, durante a presidência de Bill Clinton (1993-2001). Autor de 14 livros e inúmeros artigos, contribuiu na década de 80 com o conceito de soft power, no qual se refere a uma diplomacia de influência ou de atração, em oposição à uma política de coerção.

Leia também: 100 dias de Trump: caos estratégico ou início do declínio da liderança global dos EUA?

Em linhas gerais, o “soft power”, refere-se à capacidade de um país influenciar outros através de atração e persuasão. Ou seja, é a capacidade de um país fazer com que os outros desejem o mesmo que ele, baseando-se na cultura, valores, ideais políticos e políticas. Alguns exemplos: a cultura pop japonesa, como anime e mangá, o cinema e a música popular brasileira são exemplos de soft power em ação.

No seu último ato como inquisitivo pensador, Nye fez uma avaliação severa de Donald Trump, que desde o regresso à Casa Branca empenhou-se em destruir o “soft power” dos Estados Unidos. “Trump não percebe o poder. Só pensa em termos de coerção e ganhos”, escreveu Nye em mensagem eletrônica em fevereiro. “O êxito dos Estados Unidos durante as últimas décadas foi baseado na atratividade”, disse Nye.

Pelo visto, demorará para os Estados Unidos recuperar a credibilidade e a confiança.

Nye, em uma entrevista para a BBC Brasil ainda em março de 2025, descreve Trump como um líder personalista, similar aos caudilhos latino-americanos em sua preocupação carismática de atender os interesses de uma parcela minoritária da sociedade americana. Assim, Trump não teria uma ideologia norteadora e estaria menos limitado por preocupações morais.

Todavia, por mais danos que o atual presidente estadunidense possa causar à estrutura de soft power americana, o célebre autor destaca que o Soft Power americano já passou por retrações severas como durante as guerras do Vietnã e Iraque, mas que mesmo assim houve um ímpeto bem sucedido de reconstrução desse poder de cooptação pela atração.

Segundo ele, a maior parte do soft power não vem do governo, mas sim da sociedade civíl estadunidense. “As pessoas querem assistir a filmes de Hollywood. Elas querem entrar em Harvard ou em universidades americanas em geral. Isso não vai ser prejudicado” afirmou Nye.

Veja também: Francisco e a geopolítica do espírito: como o papa latino-americano reposicionou o Vaticano no século 21

Vale ressaltar que, por mais prestígio que os elementos de soft power estadunidense ainda possuam, Trump ainda promove ataques diretos a eles em seu governo ao perseguir estudantes estrangeiros dentro de Harvard e acusando a prestigiada universidade de ser “antissemita” e “uma ameaça à democracia”.

*Davi Lôbo Todeschini: graduando em Relações Internacionais pela UFSM e membro do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).

Mais análises de José Renato Ferraz da Silveira:

Gaza: quando a morte é negócio, a paz é prejuízo

Argentina entre o ajuste fiscal e a pobreza: o futuro incerto do governo Milei

Trump, Zelensky e as lições do passado: um jogo de poder à beira do caos…

SÃO PAULO WEATHER