Joseph Nye, pai do soft power, morre aos 87 e deixa alerta sobre os danos de Trump à influência global dos EUA

José Renato Ferraz da Silveira e Davi Lôbo Todeschini*
Falecido na terça-feira (6), Joseph S. Nye – o teórico do soft power – ocupou cargos de primeira linha, em particular no Departamento de Defesa, durante a presidência de Bill Clinton (1993-2001). Autor de 14 livros e inúmeros artigos, contribuiu na década de 80 com o conceito de soft power, no qual se refere a uma diplomacia de influência ou de atração, em oposição à uma política de coerção.
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Em linhas gerais, o “soft power”, refere-se à capacidade de um país influenciar outros através de atração e persuasão. Ou seja, é a capacidade de um país fazer com que os outros desejem o mesmo que ele, baseando-se na cultura, valores, ideais políticos e políticas. Alguns exemplos: a cultura pop japonesa, como anime e mangá, o cinema e a música popular brasileira são exemplos de soft power em ação.
No seu último ato como inquisitivo pensador, Nye fez uma avaliação severa de Donald Trump, que desde o regresso à Casa Branca empenhou-se em destruir o “soft power” dos Estados Unidos. “Trump não percebe o poder. Só pensa em termos de coerção e ganhos”, escreveu Nye em mensagem eletrônica em fevereiro. “O êxito dos Estados Unidos durante as últimas décadas foi baseado na atratividade”, disse Nye.
Pelo visto, demorará para os Estados Unidos recuperar a credibilidade e a confiança.
Nye, em uma entrevista para a BBC Brasil ainda em março de 2025, descreve Trump como um líder personalista, similar aos caudilhos latino-americanos em sua preocupação carismática de atender os interesses de uma parcela minoritária da sociedade americana. Assim, Trump não teria uma ideologia norteadora e estaria menos limitado por preocupações morais.
Todavia, por mais danos que o atual presidente estadunidense possa causar à estrutura de soft power americana, o célebre autor destaca que o Soft Power americano já passou por retrações severas como durante as guerras do Vietnã e Iraque, mas que mesmo assim houve um ímpeto bem sucedido de reconstrução desse poder de cooptação pela atração.
Segundo ele, a maior parte do soft power não vem do governo, mas sim da sociedade civíl estadunidense. “As pessoas querem assistir a filmes de Hollywood. Elas querem entrar em Harvard ou em universidades americanas em geral. Isso não vai ser prejudicado” afirmou Nye.
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Vale ressaltar que, por mais prestígio que os elementos de soft power estadunidense ainda possuam, Trump ainda promove ataques diretos a eles em seu governo ao perseguir estudantes estrangeiros dentro de Harvard e acusando a prestigiada universidade de ser “antissemita” e “uma ameaça à democracia”.
*Davi Lôbo Todeschini: graduando em Relações Internacionais pela UFSM e membro do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).
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