Irã usa muralha natural e trauma histórico como trunfo contra cerco militar

José Renato Ferraz da Silveira e Davi Lôbo Todeschini*
A atual escalada militar envolvendo o Irã em 2026 recoloca no centro do debate internacional uma realidade frequentemente subestimada na análise estratégica contemporânea: a geografia continua sendo um dos fatores estruturais mais decisivos da política mundial. Muito antes de mísseis balísticos, drones ou alianças militares complexas, o território iraniano já desempenhava o papel de uma fortaleza natural no coração da Eurásia.
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Cercado por cadeias montanhosas imponentes que delimitam o planalto central, o Irã constitui uma das formações geográficas mais defensáveis do continente asiático. Os Montes Zagros, a oeste, e os Montes Alborz, ao norte, criam barreiras naturais que historicamente elevaram de maneira significativa os custos humanos e logísticos de qualquer tentativa de invasão estrangeira.
Essa topografia acidentada moldou, ao longo de séculos, uma cultura estratégica voltada para a resistência e para a sobrevivência política em um ambiente regional marcado por rivalidades constantes.
Nesse contexto, a atual crise militar não representa um episódio isolado, mas sim mais um capítulo de uma longa trajetória histórica na qual geografia, recursos energéticos e disputas de poder internacional se entrelaçam de maneira profunda.
A posição do Irã, simultaneamente protegida por seu relevo e cobiçada por sua riqueza petrolífera, transformou o país em um dos pivôs estruturais das tensões geopolíticas que atravessam o Oriente Médio e a Ásia Central.
A descoberta de petróleo em 1908, evento que deu origem à Anglo-Persian Oil Company, alterou de forma definitiva o destino econômico e político da região. A abundância de hidrocarbonetos converteu o Irã em peça central das disputas energéticas globais, atraindo o interesse permanente das grandes potências industriais.
Para muitos analistas, essa riqueza mineral revelou-se ao mesmo tempo uma vantagem estratégica e um fator de instabilidade política, alimentando interferências externas interessadas em assegurar o fluxo contínuo de combustíveis fósseis para os mercados internacionais.
A história política iraniana do século XX reflete esse dilema estrutural. Em 1935, a mudança oficial do nome do país de Pérsia para Irã simbolizou o desejo de modernização e centralização estatal impulsionado pela dinastia Pahlavi.
Reza Khan, o militar que chegou ao poder em 1921 com apoio britânico, procurou reorganizar o Estado por meio de um programa acelerado de reformas administrativas, laicas e nacionalistas. Embora essas transformações tenham contribuído para a construção de instituições modernas e de uma infraestrutura urbana mais robusta, elas também aprofundaram tensões sociais entre uma elite urbanizada e cosmopolita e amplos setores da população profundamente ligados às tradições religiosas.
Essas fissuras tornaram-se particularmente evidentes durante o breve período de governo do primeiro-ministro Mohamed Mossadegh, eleito em 1950. Defensor de um nacionalismo econômico assertivo, Mossadegh promoveu a nacionalização da indústria petrolífera iraniana, desafiando diretamente o monopólio exercido pela British Petroleum.
A medida despertou forte reação internacional. Embargos econômicos e pressões diplomáticas rapidamente foram mobilizados contra Teerã, culminando no golpe de 1953, organizado com o apoio de serviços de inteligência estrangeiros.
A deposição de Mossadegh marcou profundamente a memória política iraniana e consolidou a percepção de que as grandes potências estavam dispostas a intervir diretamente para preservar seus interesses energéticos.
A restauração do poder do xá Mohammad Reza Pahlavi, apoiado pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido, inaugurou um período de modernização econômica acompanhado por crescente autoritarismo político.
O projeto de desenvolvimento acelerado, financiado pelas receitas do petróleo, ampliou a urbanização e impulsionou a industrialização, mas também aprofundou desigualdades sociais e reforçou mecanismos repressivos de controle estatal.
Esse conjunto de tensões explodiu definitivamente em 1979 com a Revolução Islâmica. A queda da dinastia Pahlavi e o exílio do xá transformaram o Irã em uma república teocrática liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini. A revolução não apenas alterou o regime político interno, mas também redefiniu a posição internacional do país.
O novo Estado passou a se apresentar como um bastião de resistência contra a influência política e cultural do Ocidente, reinterpretando décadas de intervenção estrangeira como prova da necessidade de autonomia estratégica.
Logo após a consolidação do novo regime, o país enfrentaria um dos momentos mais traumáticos de sua história recente: a invasão iraquiana de 1980. A guerra entre Irã e Iraque, que duraria oito anos, obrigou a jovem república a mobilizar todos os seus recursos para garantir a própria sobrevivência.
Isolado diplomaticamente e submetido a severas limitações no acesso a armamentos, o regime iraniano foi forçado a desenvolver uma base industrial de defesa relativamente autônoma. Foi nesse contexto que surgiram os fundamentos do atual programa de mísseis e da crescente capacidade tecnológica militar do país.
Com o passar das décadas, instituições como a Guarda Revolucionária Islâmica consolidaram-se como pilares centrais do sistema político iraniano. Mais do que simples forças armadas, essas estruturas passaram a exercer influência significativa sobre a economia, a segurança interna e a política externa do país.
Essa militarização institucional contribuiu para transformar o Irã em um ator regional capaz de projetar poder indireto por meio de alianças e redes de influência em diferentes partes do Oriente Médio.
A importância estratégica do país também pode ser compreendida à luz da geopolítica clássica.
Situado na periferia imediata do chamado Heartland descrito por Halford Mackinder, o território iraniano ocupa uma posição crítica na articulação entre o interior da Eurásia e as rotas marítimas que conectam o Golfo Pérsico ao restante do sistema econômico global.
Essa localização transforma o Irã em uma peça chave para o equilíbrio entre potências continentais e marítimas, inserindo o país em uma das zonas mais sensíveis da chamada “Ilha Mundial”.
Dessa perspectiva, qualquer tentativa de desestabilização profunda do Irã possui implicações que ultrapassam em muito o contexto regional. A segurança energética global, o equilíbrio estratégico do Oriente Médio e a própria estabilidade das rotas comerciais da Eurásia dependem, em grande medida, da capacidade de evitar que rivalidades geopolíticas transformem o país em epicentro de um conflito prolongado.
O legado histórico de golpes, revoluções e guerras que moldaram o Irã contemporâneo permanece, portanto, fundamental para interpretar os desdobramentos das atuais tensões internacionais. Ignorar as raízes geográficas e os traumas históricos que estruturam a política iraniana significa correr o risco de repetir erros recorrentes na história das intervenções externas na região.
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Em um cenário internacional marcado por crescente rivalidade entre grandes potências, a compreensão dessas dinâmicas torna-se ainda mais urgente. Mais do que simples medidas de contenção militar, qualquer estratégia de estabilização duradoura exigirá o reconhecimento da complexidade histórica do país e a reconstrução de canais diplomáticos capazes de lidar com uma realidade geopolítica profundamente marcada pela memória do passado e pelas disputas do presente.
*Davi Lôbo Todeschini é graduando em Relações Internacionais pela UFSM e membro do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-3).
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