Investimentos em special situations avançam e atraem grandes gestores institucionais

Investimentos em special situations avançam e atraem grandes gestores institucionais
Special situations são estratégias de investimento focadas em ativos impactados por eventos extraordinários — como crises financeiras, litígios ou reestruturações — que, uma vez superados, podem gerar expressiva valorização/Freepik
Publicado em 28/05/2025 às 9:23

Luciano Teixeira – São Paulo

O mercado brasileiro de special situations tem ganhado tração nos últimos anos, consolidando-se como um segmento sofisticado e estratégico para investidores institucionais e de alta renda. Trata-se de um modelo que foca em ativos financeiros ou empresariais que passam por momentos de crise, estresse ou transição — como empresas em recuperação judicial, litígios judiciais complexos, créditos inadimplentes ou reestruturações societárias. Em troca da disposição para assumir riscos elevados, os investidores buscam retornos potencialmente acima da média.

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O crescimento deste segmento ocorre num contexto de amadurecimento do ecossistema de crédito privado, reestruturação empresarial e incremento da sofisticação dos investidores brasileiros. Fundos dedicados a explorar oportunidades geradas por distorções temporárias de valor estão se tornando uma ferramenta importante para alocar capital de forma estratégica e não convencional.

“As estratégias de special situations oferecem vantagens relevantes para investidores qualificados com perfil agressivo e com aptidão para assumir riscos”, afirma Rodrigo Felli Paes de Barros, sócio do Candido de Oliveira Advogados.

Embora esse mercado tenha se desenvolvido inicialmente em países como os Estados Unidos e o Reino Unido, nos últimos anos passou a ganhar escala também no Brasil, impulsionado pelo aumento do volume de empresas em dificuldades financeiras e pela crescente complexidade das operações jurídicas e societárias.

“Special situations é um ramo de negócios que envolve operações variadas, como crédito para empresas em situação de distress financeiro, aquisição de precatórios e legal claims, aquisição de ativos distress, financiamento de litígios, dentre outras”, explica Guilherme Setoguti, presidente da Associação Brasileira de Special Situations e Litigation Finance e sócio de Monteiro de Castro, Setoguti Advogados.

Esse tipo de operação não é isento de riscos e desafios. A baixa liquidez dos ativos, a dificuldade de avaliação precisa e a necessidade de profundo conhecimento jurídico e financeiro compõem um cenário de elevada complexidade. No entanto, a busca por diferenciação e por retornos descorrelacionados das estratégias tradicionais impulsiona o avanço deste modelo no país.

“O mercado de special situations cresceu muito no Brasil nos últimos anos. Hoje, há diversas gestoras/assets e mesas de bancos que operam nesse segmento”, destaca Setoguti, reforçando que o amadurecimento institucional do setor acompanha essa expansão.

Uma estratégia sofisticada para oportunidades extraordinárias

O modelo de special situations envolve a identificação e aquisição de ativos cujo valor de mercado está depreciado em função de eventos específicos e extraordinários, mas que possuem potencial de recuperação após superados os obstáculos que originaram a sua crise.

“O modelo de negócios de special situations se baseia na identificação de ativos que passam por distorções temporárias em seu valor em razão de eventos específicos — como disputas judiciais, crises financeiras, mudanças regulatórias ou reorganizações societárias — e que, após resolvidas essas situações, tendem a se recuperar ou valorizar significativamente”, diz Felipe Caon, sócio do Serur Advogados.

Os investimentos podem ocorrer por meio de aquisições diretas, estruturação de crédito ou financiamento de litígios, mas também ganham força no formato de fundos de fundos (FoF), que alocam recursos em diversos veículos especializados, ampliando a diversificação e mitigando riscos específicos de cada operação. “Quando estruturado como fundo de fundos, essa estratégia ganha em diversificação, pois permite investir em diferentes gestores e abordagens, ampliando o leque de oportunidades e diluindo riscos específicos de cada operação”, acrescenta Caon.

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Vantagens e desafios do investimento em special situations

Essas operações permitem acesso a oportunidades exclusivas, com alto potencial de retorno e baixa correlação com o mercado tradicional. Além disso, exploram nichos de mercado que exigem especialização técnica e capacidade de análise complexa. “A principal [vantagem] é o foco em ativos não tradicionais de mercado em que os outros competidores não estão olhando – fora do radar tradicional, o que contribui para a diversificação do portfólio”, observa Barros.

Por outro lado, o modelo exige paciência, estrutura consolidada de governança e compreensão jurídica, dado que boa parte das operações envolve ativos ilíquidos, litígios ou situações societárias intricadas. “As principais desvantagens estão ligadas à baixa liquidez dos ativos, à complexidade das operações envolvidas e ao risco elevado, especialmente jurídico e operacional”, avalia Caon.

O papel do investidor qualificado e o momento ideal

Esse tipo de estratégia é recomendada para investidores qualificados com perfil de risco elevado, visão de longo prazo e que disponham de capital para suportar operações que podem levar anos até se concretizarem. “Essas operações podem ser usadas em situações variadas, sempre que há necessidade de capital para solucionar algum problema de liquidez ou questão jurídica que demanda uma solução complexa”, afirma Setoguti.

O ambiente econômico atual, marcado por ciclos de aperto monetário, maior inadimplência e eventos corporativos extraordinários, favorece a proliferação de ativos problemáticos e, consequentemente, cria um terreno fértil para o desenvolvimento do mercado de special situations. Segundo os especialistas, esse tipo de fundo é especialmente útil em momentos de estresse econômico ou de maior inadimplência, quando surgem mais ativos depreciados com potencial de recuperação, sendo recomendado para investidores qualificados com perfil de risco mais elevado e visão de longo prazo.

Riscos e complexidades: uma gestão que exige expertise

Embora atraentes, as operações de special situations são extremamente complexas. A ausência de mercados secundários organizados para muitos desses ativos, somada à necessidade de uma análise jurídica e financeira minuciosa, torna fundamental a presença de gestores especializados.

Além disso, a avaliação incorreta de ativos estressados pode comprometer todo o investimento, uma vez que as distorções de preço podem refletir riscos não visíveis à primeira análise. “O risco de execução é significativo, pois o sucesso depende da capacidade de navegar situações legais, negociais e financeiras complexas”, complementa Barros.

O avanço institucional e a tendência de mercado

A expansão do segmento no Brasil reflete uma tendência global, mas com características locais importantes. Para Setoguti, o avanço do mercado brasileiro de special situations é também resultado de um esforço de organização institucional. “É também por essa razão que foi constituída há dois anos a Associação Brasileira de Special Situations e Litigation Finance, que procura organizar os entes e profissionais que atuam nesse mercado”, destaca.

O crescimento desse mercado deverá se intensificar à medida que investidores institucionais buscam alternativas de diversificação e retorno absoluto, especialmente em um ambiente de juros elevados. A estruturação de produtos financeiros mais sofisticados, como os fundos de fundos dedicados a special situations, amplia o acesso a essas estratégias e sinaliza a consolidação desse segmento como uma opção relevante no portfólio de investidores qualificados.

A Bradesco Asset Management lançou recentemente o Bradesco Explorer Discovery Special Situations FIC FIM, seu primeiro fundo de fundos (FoF) dedicado exclusivamente a special situations, configurando também o primeiro produto desse tipo oferecido por um grande banco brasileiro. A iniciativa é direcionada a clientes private e investidores institucionais, como fundos de pensão e seguradoras. “O lançamento de um fundo com essa estratégia por uma grande instituição sinaliza a institucionalização do segmento que busca maior liquidez”, conclui Barros.

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Esse movimento demonstra que o mercado brasileiro está mais maduro e preparado para lidar com operações financeiras complexas, agregando mais uma camada de sofisticação à indústria de investimentos no país. À medida que o mercado avança, outras instituições devem oferecer novos produtos com potencialidade de crescer exponencialmente nos próximos anos.

SÃO PAULO WEATHER