Interiorização do crime e avanço de facções dominam Atlas da Violência 2025

Interiorização do crime e avanço de facções dominam Atlas da Violência 2025
Relatório mostra queda de homicídios em grandes cidades, mas alerta para expansão territorial de grupos criminosos e fragilidade institucional/Fernando Frazão/Agência Brasil
Publicado em 09/11/2025 às 14:00

Da redação de LexLegal

A nova edição do Atlas da Violência 2025 – Retrato dos Municípios Brasileiros e Dinâmica Regional do Crime Organizado, divulgada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), apresenta o diagnóstico mais completo até agora sobre a mudança geográfica da violência no país. O estudo confirma que a letalidade diminuiu de forma expressiva em grandes centros urbanos, mas aumentou em municípios médios e pequenos, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste, onde facções criminosas expandiram territórios e intensificaram confrontos.

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Segundo o relatório, duas forças explicam essa redistribuição da violência: capitais antes marcadas pela alta letalidade conseguiram reduzir homicídios, enquanto cidades menores passaram a experimentar dinâmica semelhante à que antes se restringia às metrópoles. “Em primeiro lugar, as cidades que eram mais violentas há 10 anos conseguiram reduzir a letalidade. Por outro aspecto, em face da interiorização do crime, muitas cidades menores passaram a vivenciar em maior número a violência letal”, afirma o documento.

Queda profunda de homicídios nos grandes centros

Fortaleza, São Luís, Goiânia, Cuiabá e o Distrito Federal registraram reduções superiores a 60% nas taxas de homicídio entre 2013 e 2023. A tendência já se consolidava em estados como São Paulo, que há duas décadas apresenta queda constante nas mortes violentas.

O movimento, porém, não indica necessariamente melhora generalizada da segurança. A redução nas capitais contrasta com a deterioração em regiões interioranas estratégicas para o tráfico, como portos fluviais no Norte, zonas de fronteira e corredores logísticos usados para circulação de drogas, armas e dinheiro.

Facções se expandem para todas as unidades da Federação

O relatório afirma que facções criminosas atuam em todos os estados brasileiros, mas de forma desigual. Em alguns locais, múltiplas organizações disputam território com violência acentuada; em outros, predomina relativa estabilidade sob hegemonia de um único grupo.

Na Bahia, o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) firmaram alianças com facções locais — como Bonde do Maluco e Comando da Paz —, alimentando disputas intensas. Em Pernambuco, ao menos 12 organizações criminosas disputam o controle de mercados ilegais, explicando parte das elevadas taxas de homicídios.

No Norte, conflitos entre CV, PCC e grupos regionais — como a Família Terror do Amapá e o Cartel do Norte — provocaram escaladas de violência em cidades médias e portuárias, como Manaus, Santarém e Macapá.

Estratégias criminosas distintas moldam a geografia da violência

O Atlas destaca diferenças significativas entre os principais grupos. Organizações com estruturas estáveis e voltadas ao lucro tendem a restringir confrontos abertos para preservar mercados; já facções fragmentadas utilizam violência ostensiva como forma de controle territorial. Esse contraste explica, por exemplo, a relativa estabilidade em São Paulo, onde “prevalece uma espécie de pacificação, resultante do domínio de mercados ilegais por uma única e poderosa organização criminosa, o PCC”.

Em Minas Gerais, apesar da existência de grupos variados, o grau de conflito é menor. Santa Catarina, sob a atuação do Primeiro Grupo Catarinense (PGC), apresenta violência mais pontual.

Crime organizado ocupa atividades lícitas e avança sobre o poder público

O estudo aponta que o avanço das facções não se limita ao domínio de áreas urbanas de periferia. Há infiltração crescente em atividades econômicas legais e em estruturas da administração pública. Para os autores, esse fenômeno “ameaça o Estado Democrático de Direito”, criando um ambiente de risco para políticas públicas e contratos governamentais.

O Atlas classifica esse processo como uma das faces mais perigosas do crime organizado contemporâneo, por sua capacidade de capturar fluxos financeiros, influenciar decisões administrativas e ampliar redes de corrupção.

Violência letal se redistribui e aparece com força em cidades médias

Os dados mostram que municípios médios, com população entre 100 mil e 500 mil habitantes, exibiram, em 2023, taxa média de homicídios (24,2 por 100 mil habitantes) maior que a das grandes cidades (23,6). Municípios pequenos registraram média de 20.

Embora quase 30% das cidades pequenas não tenham registrado nenhum homicídio estimado em 2023, o contraste entre extremos permanece enorme: os 20 municípios mais violentos têm taxa média de 65,4 homicídios por 100 mil habitantes — quase três vezes a média brasileira. Os 20 mais seguros registram taxa média de 3,8.

A diferença é tão profunda que supera até a discrepância entre Brasil (27,8/100 mil) e Europa (2,6/100 mil).

Operação Contenção expõe limites da política de confronto no Rio

Um dos trechos mais duros do Atlas critica a Operação Contenção, realizada no dia 28 de outubro nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro. O relatório afirma que ações desse tipo “contribuem negativamente para a segurança pública” e repetem um padrão de intervenções violentas sem eficácia mensurável na redução do poder das facções.

O documento destaca que “há pelo menos 40 anos, essas ações policiais baseadas na brutalidade e no entra e sai nas comunidades se repetem sem qualquer sinal de efetividade no sentido de reduzir o poder do CV, muito pelo contrário”. A operação deixou 121 mortos, apreendeu 118 armas e prendeu 113 pessoas — 54 com antecedentes criminais.

Além das vidas perdidas, o Atlas ressalta o impacto econômico: comércio fechado, transporte interrompido, escolas paralisadas e serviços de saúde afetados, em um cenário descrito como “quase um estado de guerra”.

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O relatório chama atenção para o fato de 39 dos mortos serem oriundos de outros estados, possivelmente ligados ao Comando Vermelho. Para os pesquisadores, esse dado aponta duas questões centrais:

  1. A necessidade urgente de interoperabilidade entre agências de segurança, já que facções operam em rede nacional.
  2. O risco de retaliações e reconfiguração do mercado criminal em estados como Pará, Amazonas, Bahia, Ceará e Goiás.

A avaliação final do Atlas é categórica ao afirmar que a resposta efetiva ao crime organizado passa por integração federativa, inteligência policial, prevenção e políticas de longo prazo — e não por operações de confronto massivo.

SÃO PAULO WEATHER