Inpe mostra que áreas desmatadas da Amazônia aquecem até 3°C na seca

Da redação de LexLegal
Superfícies desmatadas da Amazônia registram aumento médio de até 3°C durante a estação seca, além de redução significativa da evapotranspiração, processo essencial para a regulação do clima e para a manutenção das chuvas. A constatação é de um estudo conduzido por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), com base em dados de satélite que compararam regiões com alta cobertura florestal e áreas amplamente desmatadas da maior floresta tropical do planeta.
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A pesquisa identificou que zonas fortemente impactadas pelo desmatamento apresentam redução entre 12% e 25% na evapotranspiração e na quantidade de chuvas, respectivamente. Isso significa que essas regiões passam, em média, por 11 dias a menos de precipitação ao longo do ano quando comparadas às áreas preservadas. O resultado reforça a ligação direta entre a manutenção da floresta e a estabilidade climática regional.
A evapotranspiração é o mecanismo pelo qual a água retorna à atmosfera por meio da combinação da evaporação do solo e da transpiração das plantas. Na Amazônia, esse processo funciona como um grande sistema natural de resfriamento e de produção de umidade, que influencia tanto o regime de chuvas local quanto padrões climáticos em outras partes do Brasil e da América do Sul.
“As florestas são muito importantes para a mitigação das mudanças climáticas globais, através do sequestro de gás carbônico da atmosfera. É como se essas florestas tivessem esse efeito de amenizar as condições quentes e secas, reduzindo a severidade dessas condições. Então, traz benefícios diretos para a população rural que mora próximo dessas florestas, assim também como para as atividades que dependem diretamente do clima, como a agricultura”, afirma Marcus Silveira, pesquisador do Inpe e um dos autores do estudo.
Do ponto de vista ambiental e jurídico, os dados dialogam diretamente com a legislação brasileira que trata da proteção da Amazônia Legal. O Código Florestal determina que propriedades rurais situadas nessa região mantenham 80% de sua área como Reserva Legal, justamente para preservar funções ecológicas essenciais, como o equilíbrio climático, a biodiversidade e os ciclos hidrológicos.
Apesar disso, o próprio Inpe identificou a remoção de mais de seis mil quilômetros quadrados de vegetação na Amazônia Legal em áreas onde a preservação é obrigatória. Isso indica que a legislação ambiental segue enfrentando dificuldades de implementação prática, seja por falhas de fiscalização, seja por pressões econômicas ligadas à expansão da agropecuária e da mineração.
Os dados históricos confirmam que o problema é estrutural. Segundo a Coleção 10 do MapBiomas, mais de 520 mil quilômetros quadrados da Amazônia foram desmatados entre 1985 e 2024, área superior ao território da Espanha. Ao longo desse período, atividades como pecuária extensiva, agricultura mecanizada e exploração mineral ocuparam a maior parte das áreas convertidas.
Essas transformações no uso da terra afetam diretamente a biodiversidade. Com a perda de cobertura vegetal, espécies de plantas e animais mais sensíveis às variações de temperatura e umidade tornam-se vulneráveis, o que compromete cadeias ecológicas inteiras e reduz a capacidade de recuperação natural dos ecossistemas.
“O desmatamento vai atuar nesse sentido, de aumentar o risco de estresse climático para a produção agrícola. E, em casos, inclusive de eventos extremos, como ondas de calor e secas extremas, o desmatamento acaba contribuindo para que esses extremos sejam ainda mais severos”, diz Marcus Silveira.
Na prática, isso significa que a destruição da floresta pode gerar um efeito contraditório: atividades econômicas que impulsionam o desmatamento acabam criando condições climáticas mais hostis para a própria agricultura e para a pecuária, com impactos diretos sobre produtividade, custos e segurança alimentar.
Os dados do estudo se somam a indicadores mais amplos de aquecimento no país. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) apontou que 2025 foi o sétimo ano mais quente da série histórica iniciada em 1961. No ranking, 2024 e 2023 aparecem como o primeiro e o segundo anos mais quentes já registrados no Brasil.
Esse cenário amplia o debate sobre responsabilidade climática e compromissos internacionais assumidos pelo país. O Brasil é signatário do Acordo de Paris e tem metas de redução de emissões de gases de efeito estufa, nas quais o controle do desmatamento é peça central. A conversão de florestas em áreas produtivas segue sendo a principal fonte de emissões nacionais.
Publicado na revista científica Communications Earth & Environment, o estudo do Inpe aponta que o reflorestamento e a redução do consumo de combustíveis fósseis são caminhos complementares para restaurar o equilíbrio ambiental. A recomposição vegetal ajuda a recuperar a evapotranspiração, enquanto a diminuição das emissões reduz a intensificação do aquecimento global.
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O estudo do Inpe acrescenta base científica ao debate sobre a necessidade de integrar política ambiental, política agrícola e política climática. A proteção da Amazônia deixa de ser apenas uma pauta ambiental e se consolida como elemento central de estabilidade econômica, proteção social e segurança jurídica para o futuro do Brasil.