Indústria automotiva cresce 7,8% no semestre, exportações disparam 60%, mas emprego diminui

Luciano Teixeira – São Paulo
A indústria automotiva brasileira registrou crescimento na produção e exportações no primeiro semestre de 2025, mas enfrenta sérios desafios na demanda interna, principalmente no varejo, por conta dos juros elevados, aumento da inadimplência e desaquecimento no mercado de trabalho. Os dados foram divulgados nesta segunda-feira (7) pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).
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Segundo a Anfavea, a produção total de autoveículos no primeiro semestre cresceu 7,8% em relação ao mesmo período de 2024, passando de 1.137,9 mil para 1.226,7 mil unidades. O resultado, no entanto, foi puxado principalmente pelas exportações, que cresceram expressivos 60% no período. Já o varejo doméstico registrou queda de 10% nas vendas de automóveis e comerciais leves de produção nacional.
O ritmo de crescimento também perdeu força nos últimos dois meses: de maio para junho, a produção caiu 6,5% e os emplacamentos totais recuaram 5,7%. Essa desaceleração coincide com a elevação da taxa básica de juros (Selic), que atingiu 10,5% ao ano — o maior patamar dos últimos 15 anos — e impacta diretamente o crédito para aquisição de veículos.
Juros altos e crédito restrito
Os juros praticados nas operações de financiamento de veículos para pessoas físicas e jurídicas estão entre os mais altos da década, o que dificulta o acesso ao crédito e reduz o volume de vendas no mercado interno. A taxa média de financiamento de automóveis novos para pessoa física gira em torno de 25% ao ano, segundo o Banco Central.
A inadimplência também é crescente: em maio, os índices atingiram o maior nível desde 2023 para pessoas físicas e desde 2017 para pessoas jurídicas. A tendência, segundo especialistas, é de manutenção dessa alta ao longo do segundo semestre.
Estoques crescentes e mercado travado
Nas concessionárias, os estoques somavam 270 mil veículos em junho, alta de quase 10 mil unidades em relação a maio. O número corresponde a 41 dias de estoque, bem acima da média considerada saudável pelo setor.
Já nas montadoras, o estoque voltado ao mercado interno cresceu para 153,7 mil unidades. A dificuldade de escoamento da produção, especialmente no varejo, tem provocado desaquecimento no ritmo fabril e levou ao fechamento de 600 postos de trabalho diretos nos últimos meses.
Em junho, o número de empregos diretos no setor de autoveículos caiu para 104 mil, frente aos 110 mil registrados em julho do ano anterior. O recuo de 600 postos apenas no mês passado acende o alerta para possíveis medidas trabalhistas mais agressivas por parte das montadoras, como lay-offs, PDVs ou renegociações coletivas de jornada e salários.
Importados ganham espaço e eletrificados crescem
Os emplacamentos de veículos importados cresceram 15,6% no semestre, muito acima do ritmo dos nacionais (2,6%). A participação de carros eletrificados importados da China também explodiu, com mais de 110 mil unidades no estoque ao fim de junho. Esse fenômeno está diretamente ligado ao menor custo de produção em países asiáticos e à alta demanda brasileira por modelos com tecnologia de propulsão verde.
Segundo levantamento da Anfavea, os modelos chineses responderam por 6% dos emplacamentos no semestre, com crescimento de 43% na comparação entre junho de 2024 e junho de 2025.
Exportações aquecidas, puxadas pela Argentina
Na contramão do mercado interno, as exportações dispararam. O Brasil enviou 264,1 mil autoveículos ao exterior no semestre, frente a 165,3 mil em 2024. A Argentina foi responsável por mais da metade desse total, com crescimento de 183% nas importações brasileiras em relação ao ano anterior.
O bom desempenho externo é um dos pilares que sustentam a produção nacional neste momento de retração do consumo interno.
Impactos regulatórios e previsão para o segundo semestre
O setor espera definição sobre novos incentivos fiscais e regulações para veículos eletrificados, especialmente diante das mudanças no Imposto de Importação e das novas metas de descarbonização previstas no programa Mover (Mobilidade Verde e Inovação).
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Para o segundo semestre, a expectativa do setor é de estabilidade ou leve desaceleração, caso os juros se mantenham elevados e a inadimplência continue em alta. A retomada mais robusta dependerá da queda da Selic, de medidas de incentivo ao consumo e do equilíbrio cambial.