IA faz fake news dispararem e preocupa eleições de 2026 no Brasil

IA faz fake news dispararem e preocupa eleições de 2026 no Brasil
Uso de inteligência artificial em desinformação cresce 308% e desafia Justiça Eleitoral/Agência Brasil
Publicado em 23/05/2026 às 7:00

Da Redação de LexLegal

A inteligência artificial acelerou a produção de fake news no Brasil e colocou a Justiça Eleitoral diante de um novo problema para as eleições de 2026. Um levantamento do Observatório Lupa mostra que a disseminação de conteúdos falsos produzidos com auxílio de IA cresceu 308% entre 2024 e 2025. 

O avanço envolve desde imagens manipuladas até deepfakes, vídeos hiper-realistas capazes de simular falas, expressões e comportamentos de figuras públicas. O estudo aponta que 81,2% das fake news produzidas com IA surgiram nos últimos dois anos, indicando que a tecnologia deixou de ser experimental para se tornar ferramenta recorrente de manipulação política e informacional. 

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O crescimento da desinformação digital preocupa especialistas em Direito Eleitoral porque altera a dinâmica tradicional das campanhas políticas. Se antes o problema estava concentrado em boatos grosseiros ou correntes facilmente identificáveis, agora os conteúdos conseguem reproduzir aparência de autenticidade e dificultam a diferenciação entre material verdadeiro e falso.

“A inteligência artificial não só ampliou o volume de desinformação como elevou o grau de credibilidade desse tipo de conteúdo. O eleitor não está mais lidando com boatos grosseiros, mas com materiais que imitam perfeitamente a realidade”, afirma Roosevelt Arraes, especialista em Direito Eleitoral e diretor da Escola Paranaense de Direito. 

O estudo revela ainda uma mudança importante no perfil da desinformação. Em 2025, 45% dos conteúdos falsos produzidos com IA apresentavam viés ideológico. Em 2024, o percentual era de 33%. A tendência reforça o temor de uso político mais agressivo da tecnologia durante a disputa presidencial.

Justiça Eleitoral tenta correr atrás da velocidade digital

Nos últimos anos, o Tribunal Superior Eleitoral ampliou instrumentos de combate à desinformação. A Corte intensificou acordos com plataformas digitais, acelerou mecanismos de remoção de conteúdo e consolidou entendimentos jurídicos sobre propaganda irregular e manipulação informacional.

A Justiça Eleitoral passou a reconhecer que até conteúdos verdadeiros podem ser considerados ilícitos quando apresentados fora de contexto ou usados para induzir o eleitor ao erro.

Mesmo assim, especialistas afirmam que o sistema jurídico enfrenta dificuldade para acompanhar a velocidade da circulação digital.

“O país não está desprotegido legalmente. Existem instrumentos jurídicos relevantes, como o direito de resposta, a remoção de conteúdo das plataformas digitais e a responsabilização civil e criminal. O problema é que a dinâmica digital opera em outra velocidade”, afirma Luiz Gustavo de Andrade, membro da Comissão de Direito Eleitoral da OAB/PR e vice-presidente da Conferencia Americana de Organismos Electorales Subnacionales por la Transparencia Electoral (Coaste). 

O direito de resposta citado pelo especialista é um mecanismo previsto na legislação eleitoral que permite ao candidato ou partido responder judicialmente a conteúdos considerados ofensivos ou falsos. Já a responsabilização civil e criminal pode atingir tanto quem produz quanto quem impulsiona conteúdos manipulados.

Bots, redes fechadas e vídeos falsos elevam risco eleitoral

Outro ponto de preocupação envolve o uso de automação para espalhar conteúdo político em larga escala. Perfis automatizados, conhecidos como bots, conseguem publicar milhares de mensagens simultaneamente, ampliando alcance e velocidade da desinformação.

Segundo Roosevelt Arraes, esses perfis dificultam o debate democrático porque operam sem qualquer filtro crítico humano. “Esses perfis são automatizados e divulgam conteúdos de maneira massiva, sem análise crítica humana. Como isso pode favorecer o compartilhamento de desinformação e representar um risco para a qualidade do debate eleitoral, o ideal é que sejam removidos.” 

O problema se torna mais complexo porque parte significativa da disseminação ocorre em redes fechadas, como grupos de WhatsApp e Telegram, ambientes nos quais o monitoramento é mais limitado.

Além das fake news tradicionais, especialistas apontam crescimento de técnicas mais sofisticadas, como cortes seletivos de falas, manipulação de contexto, sobrecarga de informações e vídeos artificialmente produzidos para gerar dúvida sobre fatos reais.

Desinformação deixa de tentar convencer e passa a confundir

Para os especialistas, a lógica da manipulação digital mudou. O objetivo nem sempre é fazer o eleitor acreditar integralmente em uma mentira. Em muitos casos, basta gerar desconfiança generalizada sobre informações, candidatos ou instituições.

“O objetivo de quem produz e divulga desinformação é criar dúvida, o que já é suficiente para influenciar o comportamento do eleitor”, afirma Luiz Gustavo de Andrade. 

Essa mudança de estratégia preocupa porque reduz a eficácia dos mecanismos tradicionais de checagem. Muitas vezes, os conteúdos manipulados utilizam fatos verdadeiros combinados com edição parcial, cortes ou contextualizações enganosas.

Segundo os especialistas, a inteligência artificial também reduziu drasticamente os custos de produção de materiais falsos. Ferramentas gratuitas ou de baixo custo já conseguem produzir vídeos, vozes sintéticas e imagens altamente convincentes em poucos minutos.

“A desinformação deixou de ser artesanal. Hoje, ela é escalável, segmentada e muitas vezes invisível aos mecanismos tradicionais de controle. Além da automação da disseminação e da capacidade da IA de gerar materiais altamente realistas, a tecnologia também reduziu drasticamente o custo de produção das fake news”, afirma Roosevelt Arraes, doutor em Filosofia Jurídica e Política. 

Responsabilização existe, mas depende de intenção e alcance

A legislação brasileira prevê punições para quem cria ou espalha desinformação em contexto eleitoral. Dependendo do caso, as consequências podem incluir remoção de conteúdo, indenizações, enquadramento por propaganda irregular e crimes contra a honra, como calúnia e difamação.

Mesmo assim, a responsabilização jurídica depende de análise individual de cada situação.

“A Justiça Eleitoral tende a distinguir quem estrutura e impulsiona a desinformação de quem apenas compartilha. A responsabilização depende de fatores como intenção, alcance e impacto”, explica Arraes. 

Os especialistas também destacam o papel do eleitor na redução da circulação de conteúdos manipulados. O compartilhamento impulsivo continua sendo um dos principais fatores de propagação das fake news.

Eleições de 2026 devem enfrentar cenário mais agressivo

A expectativa é que as eleições presidenciais de 2026 sejam as primeiras no Brasil marcadas por uso massivo de inteligência artificial em larga escala política.

Especialistas afirmam que o país chega ao próximo pleito com estrutura jurídica mais robusta do que em eleições anteriores, mas também diante de um ambiente digital muito mais complexo e difícil de controlar.

Veja também: Liberdade de imprensa e liberdade de expressão também dependem de proteção jurídica

O avanço da inteligência artificial sobre o ambiente político transformou a desinformação em um problema jurídico, tecnológico e democrático. A discussão deixou de envolver apenas liberdade de expressão e passou a atingir diretamente a confiança pública nas eleições, nas instituições e na própria autenticidade das informações consumidas diariamente pelos eleitores.

SÃO PAULO WEATHER