Haddad diz que Estado foi capturado por elites e critica desigualdade

Da redação de LexLegal
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou neste sábado que a formação histórica do Estado brasileiro está marcada pela apropriação das estruturas públicas pelas elites econômicas. A declaração foi feita durante o lançamento do livro Capitalismo Superindustrial, em evento realizado no Sesc 14 Bis, em São Paulo.
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Segundo Haddad, a relação entre poder econômico e instituições públicas ajuda a explicar fragilidades democráticas e dificuldades estruturais do país. “A classe dominante brasileira entende o Estado como dela, não é uma coisa nossa, é uma coisa dela”, disse o ministro durante debate mediado pela historiadora Lilia Schwarcz, com participação do economista Celso Rocha de Barros.
O ministro defendeu que a origem desse processo remonta ao período pós-abolição. “Eu defendo a tese de que o Estado foi entregue aos fazendeiros como indenização pela abolição da escravidão”, afirmou. Para contextualizar, ele mencionou que o movimento republicano ganhou força logo após a assinatura da Lei Áurea e reorganizou o poder político no país.
Na avaliação do ministro, esse rearranjo consolidou uma estrutura institucional voltada à preservação de interesses econômicos dominantes. “Vitorioso, o movimento republicano bota pra correr a classe dirigente do país e, no lugar dela, não põe outra coisa senão a classe dominante do país para cuidar do estado como se fosse seu. Nós estamos com esse problema até hoje.”
Haddad também associou essa dinâmica às tensões políticas recorrentes no Brasil. “Esse ‘acordão’ sob os auspícios das Forças Armadas, quando é colocado em xeque, a reação é imediata. Você não pode tocar nisso, você não pode tocar em nenhuma instância. Por isso que a democracia no Brasil é tão problemática e tão frágil, porque a democracia é a contestação desse status quo. E, quando ela estica a corda, a ruptura institucional pode acontecer”, afirmou.
A obra lançada pelo ministro reúne estudos produzidos ao longo de décadas sobre economia política e transformações do capitalismo global. No livro, ele descreve o atual modelo econômico como um “capitalismo superindustrial”, marcado pela expansão tecnológica, competição internacional crescente e concentração de renda.
Durante o debate, Haddad afirmou que o avanço econômico, sem mecanismos de regulação social, tende a ampliar desigualdades. “A desigualdade, quando o estado mitiga os efeitos do desenvolvimento capitalista e organiza a sociedade em termos de desigualdade moderada, realmente as tensões sociais diminuem muito, é verdade”, disse.
Ele acrescentou que a dinâmica econômica global tende a produzir diferenças sociais cada vez mais intensas. “Mas, deixada à própria sorte, essa dinâmica leva a uma desigualdade absoluta. E quando isso acontece, você não está mais falando de diferença, você está falando de contradição e de processos contraditórios. E eu entendo que nós estamos nesse momento, nessa fase, em que a contradição está se impondo.”
O ministro também abordou a trajetória histórica de modelos de industrialização fora do Ocidente, destacando processos políticos ocorridos na Ásia. “A ideia toda era tentar entender o que aconteceu no Oriente que podia se encaixar num padrão próprio de acumulação primitiva de capital – que não se confunde nem com a escravidão na América nem com a servidão no Leste Europeu -, mas que, à sua maneira, cada um de um jeito, chegou aos mesmos objetivos”, explicou.
Segundo ele, essas experiências apresentaram características próprias de desenvolvimento estatal e industrialização acelerada. “Ao contrário da escravidão e da servidão, o despotismo e a violência do estado serviram a propósitos industrializantes, o que não aconteceu nem no leste europeu, nem nas américas”, afirmou.
Haddad também destacou que os resultados desses processos precisam ser analisados sob perspectivas distintas. “É curioso que, do ponto de vista interno, eram formas ultra violentas e coercitivas de acumulação de capital, mas do ponto de vista externo, tinha uma potência antissistêmica que apaixonava os povos em busca de liberdade e de emancipação nacional, e não de emancipação humana. Ou seja, nós estamos falando, sim, de uma revolução, mas não de uma revolução socialista e isso faz muita diferença.”
Para o ministro, o crescimento econômico obtido em vários países asiáticos demonstra a complexidade dessas transformações históricas. “Em relação aos ideias que motivaram os líderes revolucionários, aí você pode dizer que não atingiu seus objetivos”, disse, ao comentar a distância entre os projetos políticos originais e seus resultados práticos.
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O lançamento do livro ocorreu em meio ao debate sobre desigualdade social, política industrial e reorganização do sistema econômico internacional. A obra discute como tecnologia, conhecimento e concentração de capital moldam as novas estruturas produtivas e ampliam desafios de distribuição de renda em diferentes países.