Guerra, mercado e poder: a engrenagem estratégica israelense

Guerra, mercado e poder: a engrenagem estratégica israelense
No limite, a questão central deixa de ser apenas quem prevalece no campo de batalha. Passa a ser quem consegue transformar a guerra em capacidade estrutural de poder, tecnologia e influência global/Reprodução
Publicado em 24/04/2026 às 14:00

José Renato Ferraz da Silveira*

A atual configuração estratégica de Israel revela um fenômeno clássico das Relações Internacionais: a convergência entre pressão securitária sistêmica e expansão industrial-militar. O que se observa hoje no Oriente Médio não é apenas uma sequência de confrontos regionais, mas a formação de um modelo estratégico que conecta guerra, economia e tecnologia de maneira cada vez mais integrada.

Desde outubro de 2023, com o início da guerra contra o Hamas na Faixa de Gaza, o país passou a operar sob uma lógica de conflito multifrontal. A intensificação das tensões com o Hezbollah no norte, os enfrentamentos indiretos com o Irã, frequentemente mediadas por grupos aliados na região, e as operações contínuas na Cisjordânia compõem um ambiente de conflito permanente. Nesse cenário, a fronteira entre guerra e estabilidade deixa de ser clara e passa a ser administrada como uma rotina estratégica.

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O que muda nesse contexto não é apenas o nível de violência ou o alcance territorial das operações. O que se transforma é a forma como o conflito passa a influenciar decisões econômicas, tecnológicas e diplomáticas. Em vez de ser tratado como um evento excepcional, o estado de tensão passa a funcionar como um elemento estrutural da política nacional.

Um conflito que alimenta um mercado

Esse ambiente de conflito permanente produz um efeito duplo. Por um lado, amplia os custos políticos, humanitários e estratégicos da guerra. Por outro, impulsiona a demanda global por sistemas militares israelenses, amplamente reconhecidos como testados em combate.

O crescimento das exportações de defesa ilustra esse movimento com clareza. Os números mostram que as vendas externas saltaram de aproximadamente 8 bilhões de dólares em 2020 para cerca de 15 bilhões em 2024. Esse aumento acompanha, e não por coincidência, a intensificação das ameaças regionais e das operações militares.

A lógica por trás desse crescimento é relativamente simples, mas raramente é discutida com franqueza. Sistemas militares que operam em situações reais de combate passam a ser percebidos como mais confiáveis. Essa validação prática se transforma em argumento comercial. O resultado é uma cadeia que conecta experiência operacional, reputação tecnológica e expansão de mercado.

Nesse sentido, drones, sistemas de defesa antimísseis e tecnologias de guerra eletrônica deixam de ser apenas instrumentos militares. Passam a ser ativos estratégicos que projetam influência internacional e ampliam a presença de Israel em mercados estratégicos.

A tecnologia como instrumento de poder

O avanço tecnológico ocupa papel central nesse modelo. Israel consolidou ao longo das últimas décadas um ecossistema de inovação que combina universidades, empresas privadas e estruturas militares. Esse modelo permite testar, adaptar e aprimorar tecnologias em ritmo acelerado.

Em um cenário internacional marcado por disputas tecnológicas e novas formas de guerra, a capacidade de inovação passa a ser tão relevante quanto o poder militar tradicional. Tecnologias de vigilância, inteligência artificial aplicada à defesa e sistemas autônomos tornam-se ferramentas centrais não apenas para proteção territorial, mas para inserção estratégica no mercado global.

Essa dinâmica também altera a forma como Estados se relacionam. Países que buscam modernizar suas forças armadas encontram em Israel um fornecedor com experiência operacional recente. Isso fortalece alianças, amplia canais diplomáticos e cria dependências tecnológicas que vão além do campo militar.

O resultado é um reposicionamento internacional que não se limita ao campo de batalha. Ele se estende ao comércio, à política externa e à construção de redes estratégicas de cooperação.

Três dimensões de reposicionamento

Do ponto de vista analítico, esse processo reposiciona Israel em três dimensões simultâneas.

No plano militar, observa-se uma elevada capacidade de operar em múltiplas frentes com rápida adaptação tática. A experiência acumulada em conflitos sucessivos contribui para o desenvolvimento de doutrinas flexíveis e sistemas operacionais ajustáveis.

No âmbito econômico-industrial, o país consolida sua posição como um dos principais exportadores globais de tecnologia de defesa. Esse setor passa a desempenhar papel relevante na economia nacional, gerando receita, empregos e investimentos em pesquisa.

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Já no campo político-estratégico, ocorre um aprofundamento das relações com países interessados em modernização militar acelerada. Regiões como Europa e Ásia surgem como mercados estratégicos, especialmente em um contexto internacional marcado por incertezas e reconfiguração de alianças.

Esse movimento não ocorre de forma isolada. Ele está inserido em um cenário global em que a segurança volta a ocupar posição central nas agendas nacionais.

O custo estrutural da normalização do conflito

Há, contudo, um custo estrutural evidente nesse modelo. A normalização de um estado de conflito quase permanente altera a forma como o Estado organiza suas prioridades e distribui recursos.

Quando a segurança passa a ser o eixo central da política pública, outras áreas tendem a ser impactadas. Investimentos sociais, soluções diplomáticas e iniciativas de reconstrução política tornam-se mais difíceis de sustentar em um ambiente dominado pela lógica da ameaça contínua.

Além disso, a permanência do conflito reduz o espaço para negociações duradouras. A lógica militar tende a prevalecer sobre soluções políticas, criando um ciclo que reforça a dependência do aparato de defesa.

Esse equilíbrio instável pode produzir ganhos estratégicos no curto prazo, mas amplia os riscos no longo prazo. Estados que operam sob tensão constante passam a depender da manutenção desse ambiente para sustentar sua própria estrutura de poder.

Guerra como motor de transformação estrutural

Sob a ótica das Relações Internacionais, o caso combina elementos de uma estratégia centrada na maximização de poder em contextos de ameaça com a lógica de um complexo industrial altamente internacionalizado.

Nesse modelo, guerra, mercado e tecnologia deixam de ser dimensões separadas. Passam a operar como partes interdependentes de um mesmo sistema.

O que se observa não é apenas o uso da guerra como resposta a ameaças externas, mas a incorporação do conflito como elemento estruturante da capacidade nacional. O campo de batalha deixa de ser apenas um espaço de confronto e passa a ser também um ambiente de validação tecnológica e econômica.

Esse movimento redefine o significado contemporâneo do poder. Não se trata apenas de vencer batalhas, mas de transformar experiências de guerra em vantagem estrutural duradoura.

Perspectivas para o cenário internacional

O avanço desse modelo levanta questões que ultrapassam o contexto regional do Oriente Médio. Ele aponta para uma tendência global em que conflitos prolongados se tornam motores de inovação tecnológica e expansão econômica.

Em um mundo marcado por disputas estratégicas, instabilidade regional e competição tecnológica, a interdependência entre guerra e mercado tende a se aprofundar. Estados que dominam essa engrenagem passam a ocupar posições privilegiadas no sistema internacional.

Ao mesmo tempo, cresce o desafio de equilibrar segurança e estabilidade política. A manutenção de um ambiente de tensão constante pode gerar ganhos estratégicos imediatos, mas também amplia os riscos de escaladas inesperadas e conflitos de maior escala.

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No limite, a questão central deixa de ser apenas quem prevalece no campo de batalha. Passa a ser quem consegue transformar a guerra em capacidade estrutural de poder, tecnologia e influência global.

Essa é a engrenagem que redefine o jogo estratégico contemporâneo. E ela está longe de ser exclusiva de um único país.

*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).

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