Governança que impulsiona: o papel dos conselhos nas startups

Governança que impulsiona: o papel dos conselhos nas startups
Construir Conselhos não é apenas uma questão de governança — é uma forma de criar negócios que durem, lideranças que inspirem e decisões que deixem legado/Freepik
Publicado em 30/10/2025 às 7:49

Priscila de Oliveira Spadinger*

Concluir hoje minha nova formação como Conselheira de Empresas pelo IEL/FIEMG e foi mais do que um marco pessoal — foi um convite à reflexão sobre como a governança corporativa, quando bem implementada, pode ser o diferencial competitivo que separa startups promissoras daquelas que efetivamente prosperam. Eu já tinha outra formação como Conselheira de Tecnologia pela GoNew e, por ser Advogada há mais de 20 anos na área de M&A, sempre estive ao lado de Conselhos envolvendo negócios dos mais diversos portes.

Então na nossa Holding de participações em startups LegalTechs, a Aleve LegalTech Ventures S/A, onde atuamos como uma venture builder especializada em LegalTechs, vemos de perto o quanto a ausência de uma estrutura de governança clara pode atrasar decisões estratégicas, gerar desalinhamentos e até comprometer a entrada de investidores. E, ao contrário do que muitos empreendedores pensam, criar um Conselho Consultivo ou Fiscal ou de Administração não é um luxo — é uma estratégia inteligente de crescimento.

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O que é, afinal, um Conselho eficiente

O Conselho é o espaço onde se transforma energia empreendedora em direção estratégica.

É o fórum que ajuda o fundador a sair do “modo operacional” e enxergar o negócio de forma sistêmica. Em startups, isso significa orientar decisões de produto, precificação, captação, contratação, parcerias e governança, sempre equilibrando inovação com sustentabilidade.

Um Conselho Consultivo é ideal para startups em estágios iniciais ou em fase de validação de mercado. Ele tem caráter mais flexível e foco em mentoria estratégica. Já o Conselho de Administração surge quando há investidores, sócios institucionais ou operações em crescimento acelerado, e assume funções mais formais, com deveres fiduciários e responsabilidades legais claras.

Ambos, no entanto, compartilham o mesmo propósito: ajudar o negócio a pensar, decidir e crescer com consciência.

Exemplos práticos: quando e como implantar

Na Aleve, acompanhamos diversos casos em que o momento de criar um Conselho foi decisivo para a evolução da startup.

Em uma das LegalTechs do nosso portfólio, por exemplo, a entrada de um investidor-anjo trouxe a necessidade de uma governança mais organizada. Criamos então um Conselho Consultivo híbrido, com três membros: um especialista em tecnologia, um em direito empresarial e um em estratégia de produto. A cada trimestre, reuniões de governança passaram a alinhar roadmap, finanças e novos contratos. O resultado foi imediato: decisões mais rápidas, previsibilidade e melhor comunicação com investidores.

Em outro caso, uma startup ainda em fase de incubação decidiu antecipar esse movimento. Convidou dois mentores externos para compor um Conselho informal, registrando todas as reuniões e planos de ação em uma ata simplificada. Esse simples gesto elevou a maturidade da empresa — e, meses depois, foi decisivo para receber um investimento pre-seed.

O investidor destacou como diferencial o fato de a startup já possuir “rituais de governança”, demonstrando profissionalismo e comprometimento com o futuro.

Esses exemplos mostram que o Conselho não precisa esperar o investimento acontecer. Pelo contrário: ele é um dos fatores que antecipam e viabilizam a captação, porque mostra que os fundadores entendem o papel do negócio como uma organização, e não apenas como um projeto apaixonado.

As responsabilidades de um Conselho moderno

As funções de um Conselho, especialmente no ambiente das startups, vão muito além do que a legislação formal prevê. Ele é um órgão vivo, que evolui junto com o negócio e serve como ponte entre estratégia, execução e cultura.

Entre as principais responsabilidades estão:

  • Planejamento estratégico e supervisão de metas: apoiar o time executivo na definição de indicadores, prioridades e revisões de rota;
  • Gestão de riscos e compliance: garantir que a expansão ocorra com responsabilidade jurídica, regulatória e ética;
  • Apoio em captação de investimentos: preparar a empresa para due diligence, estruturar governance decks e criar segurança para investidores;
  • Mentoria executiva: orientar os fundadores em decisões críticas e desenvolvimento de liderança;
  • Conexão com o ecossistema: utilizar o capital relacional dos conselheiros para abrir portas, gerar negócios e atrair talentos;
  • Fomento à inovação sustentável: assegurar que tecnologia, dados e pessoas estejam alinhados à visão e aos valores da empresa.

Um Conselho eficiente atua com visão e presença. Não é um grupo que se reúne para aprovar formalidades, mas um time de mentes estratégicas que questiona, provoca, inspira e ajuda a decidir.

Governança como vantagem competitiva

Nos últimos anos, o ecossistema de inovação amadureceu. Investidores buscam negócios que não apenas crescem rápido, mas que sabem crescer bem.

A governança passou a ser vista como um ativo de confiança, capaz de atrair investimento, parceiros e talentos. Startups com Conselhos estruturados reduzem conflitos societários, melhoram a performance e aumentam o valor percebido em valuation.

Há também um ganho invisível, mas essencial: a serenidade das decisões. Com um Conselho atuante, o fundador não se sente sozinho — ele compartilha responsabilidades e multiplica olhares. Isso permite que a empresa cresça com equilíbrio, sem perder a essência inovadora que a fez nascer.

Na Aleve, incorporamos essa visão ao modelo de venture building. Todas as startups do portfólio passam, em algum momento, pela implantação de uma governança mínima, com conselheiros especialistas em áreas-chave como tecnologia, jurídico, marketing, compliance e captação. Esse apoio não é apenas técnico — é emocional e estratégico.

É o que permite que um fundador transforme o caos da criação em um sistema inteligente de crescimento.

O futuro dos conselhos: diversidade, tecnologia e propósito

Os novos Conselhos — especialmente nas startups — já não se sustentam em perfis homogêneos ou decisões centralizadas. Eles precisam refletir diversidade de pensamento, sensibilidade humana e capacidade de leitura de tendências tecnológicas.

A figura do conselheiro que apenas “aprova balanços” dá lugar ao líder adaptativo, que entende dados, inovação, ESG e cultura digital.

Essa evolução exige também formação contínua. A experiência que concluí hoje, como conselheira formada pelo IEL/FIEMG, complementa minha trajetória iniciada com a GoNew, em tecnologia e inovação. Esse acúmulo de aprendizados tem um único propósito: fortalecer o papel da Aleve em apoiar startups que querem escalar de forma sólida, ética e consciente.

Encerrar ciclos, abrir caminhos

Encerrar um ciclo de formação é, para mim, sempre o início de uma nova entrega. A cada aprendizado, me sinto ainda mais comprometida em contribuir para um ecossistema de inovação que cresça com responsabilidade.

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Construir Conselhos não é apenas uma questão de governança — é uma forma de criar negócios que durem, lideranças que inspirem e decisões que deixem legado. Que mais startups brasileiras descubram o poder transformador de ter bons conselheiros ao lado — não apenas para crescer, mas para evoluir como organizações que fazem sentido para o mundo.

*Priscila de Oliveira Spadinger é CEO da Aleve LegalTech Ventures S/A e colunista do Portal Lex Legal Brasil. Lidera iniciativas de inovação jurídica e acompanha de perto a jornada de dezenas de LegalTechs brasileiras.

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