Gestão financeira em legaltechs: chave para valor e crescimento

Priscila Spadinger*

O ecossistema de legaltechs no Brasil atravessa um processo claro de amadurecimento. Se, em um primeiro momento, a inovação jurídica esteve fortemente associada à automação de tarefas, à digitalização de fluxos e ao uso inicial de inteligência artificial, hoje o debate é outro: como transformar inovação em empresas sólidas, escaláveis, auditáveis e atrativas para investidores e compradores estratégicos.
Nesse contexto, a gestão financeira e, de forma ainda mais específica, a correta leitura e tradução contábil da realidade econômica das startups jurídicas, tornou-se um dos principais vetores de criação (ou destruição) de valor.
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Contabilidade como instrumento estratégico, e não apenas obrigação legal
Ainda é comum no mercado brasileiro tratar a contabilidade como uma função meramente acessória, voltada ao cumprimento de exigências fiscais e societárias. Essa visão é especialmente nociva para startups, e em particular para legaltechs, cujo modelo de crescimento raramente segue a lógica tradicional de empresas maduras.
Grande parte das legaltechs opera durante anos sem faturamento relevante ou com receitas incipientes, sendo integralmente sustentada por aportes de capital realizados por investidores, via subscrição de ações ou quotas. Esses recursos são direcionados para desenvolvimento tecnológico, estruturação de equipe, validação de produto, expansão comercial e posicionamento institucional.
O erro conceitual ocorre quando a contabilidade não acompanha essa lógica econômica e passa a registrar:
- Capital social em valores incompatíveis com os aportes efetivamente realizados;
- Recursos mantidos indefinidamente em contas transitórias, como adiantamentos ou reservas, sem formalização societária;
- Despesas financiadas por investidores classificadas automaticamente como prejuízos acumulados;
- Demonstrações financeiras que sugerem fragilidade patrimonial, quando, na prática, houve investimento consciente e planejado.
Esse desalinhamento cria um retrato contábil que não corresponde à realidade da gestão e compromete decisões estratégicas futuras.
O impacto direto no valuation e na governança
Uma contabilidade desalinhada não é um problema apenas técnico. Ela afeta diretamente o valuation da empresa, a governança interna e a percepção de risco por parte de terceiros.
Em processos de auditoria, due diligence, rodadas de investimento ou M&A, prejuízos acumulados elevados, capital social reduzido e histórico confuso de aportes funcionam como verdadeiros “alertas vermelhos”. Muitas vezes, esses números não refletem má gestão, mas sim falta de acompanhamento técnico adequado.
Por isso, defender que a contabilidade traduza fielmente a realidade econômica não é maquiagem de balanço, é sim governança responsável.
Na Aleve LegalTech Ventures, adotamos uma abordagem rigorosa e contínua no acompanhamento financeiro das legaltechs do nosso portfólio. Esse acompanhamento não se limita a análises pontuais ou a momentos de captação. Ele faz parte da estratégia central de criação de valor.
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Atuamos diretamente na leitura integrada entre:
- Estrutura societária;
- Contratos de investimento e acordos de acionistas;
- Registros contábeis e demonstrações financeiras;
- Decisões gerenciais e seus impactos jurídicos e econômicos.
Esse trabalho envolve revisar, de forma recorrente, se os aportes realizados estão corretamente refletidos no capital social, se as despesas foram adequadamente classificadas, se há coerência entre patrimônio líquido e histórico de investimentos e se a contabilidade está preparada para resistir a uma análise externa criteriosa.
Ao acompanhar passo a passo cada startup, conseguimos antecipar riscos, corrigir distorções e estruturar a empresa para crescer com segurança.
O papel do advogado no entendimento da geração de riqueza
Para o advogado que atua no ecossistema de inovação, especialmente no Direito Empresarial, Societário e Digital, é fundamental compreender que valor econômico não nasce apenas da tecnologia ou do contrato bem redigido, mas da forma como a empresa organiza, registra e comunica sua trajetória financeira.
Muitos profissionais do Direito ainda não percebem o quanto uma contabilidade bem gerida é capaz de gerar riqueza. Ela é o meio pelo qual o mercado entende a empresa. É a linguagem utilizada por investidores, fundos, compradores estratégicos e conselhos de administração.
Uma contabilidade alinhada:
- Protege juridicamente a companhia;
- Sustenta decisões estratégicas;
- Viabiliza distribuição futura de resultados;
- Reduz conflitos entre sócios;
- Aumenta a previsibilidade e a confiança do mercado.
Ignorar esse aspecto é limitar o potencial econômico do negócio.
Preparação para investidores e compradores estratégicos
Do ponto de vista do investidor, empresas que sabem contar corretamente sua história financeira transmitem maturidade, profissionalismo e visão de longo prazo. Não se trata apenas de números positivos, mas de números coerentes, defensáveis e bem estruturados.
Na Aleve, nosso trabalho é garantir que as legaltechs que desenvolvemos cheguem ao mercado com essa maturidade. Isso significa entregar empresas que:
- Possuem patrimônio líquido alinhado aos investimentos recebidos;
- Apresentam governança clara e organizada;
- Estão preparadas para auditorias e processos de M&A;
- Conseguem demonstrar, com clareza, como cada aporte contribuiu para a construção do negócio.
Esse cuidado é essencial para maximizar valor e reduzir fricções em negociações futuras.
O crescimento sustentável das legaltechs brasileiras passa, necessariamente, por uma gestão financeira mais técnica, integrada e estratégica. Contabilidade e realidade operacional precisam caminhar juntas. Governança não é burocracia, é alavanca de crescimento.
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Advogados, empreendedores e investidores que compreendem essa lógica deixam de enxergar a contabilidade como um fim em si mesma e passam a utilizá-la como instrumento de geração de valor. É nessa leitura profunda, criteriosa e contínua que se constrói riqueza real, sustentável e transferível no mercado de inovação jurídica.
*Priscila de Oliveira Spadinger é CEO da Aleve LegalTech Ventures S/A e colunista do Portal Lex Legal Brasil. Lidera iniciativas de inovação jurídica e acompanha de perto a jornada de dezenas de LegalTechs brasileiras.
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