Francisco e a geopolítica do espírito: como o papa latino-americano reposicionou o Vaticano no século 21

Francisco e a geopolítica do espírito: como o papa latino-americano reposicionou o Vaticano no século 21
Durante os doze anos de pontificado, Francisco trabalhou intensamente por um novo modelo de sociedade, baseada na fraternidade e na defesa e preservação do meio ambiente/Freepik
Publicado em 25/04/2025 às 9:17

José Renato Ferraz da Silveira*

Qual é o seu legado? Que marca você deixará ao partir? Terá tornado o mundo diferente e melhor? Qual influência terá causado? Dizem que o bater de asas de uma borboleta na África pode causar um furacão na Flórida. Pois bem, que furacão sua passagem pelo mundo causará?

O papa Francisco causou um grande impacto mesmo com uma Igreja menos poderosa do ponto de vista geopolítico. É o primeiro Francisco. O Primeiro papa latino-americano. O primeiro jesuíta. O papa misericordioso.

Durante os doze anos de pontificado, Francisco trabalhou intensamente por um novo modelo de sociedade, baseada na fraternidade e na defesa e preservação do meio ambiente. Por isso, seu pontificado contribuiu, de maneira inovadora, a Doutrina Social da Igreja (DSI), conjunto de ensinamentos e princípios que visa orientar os fiéis católicos na aplicação dos valores cristãos à vida social, econômica e política, com o objetivo de construir uma sociedade mais justa e humana.

Leia também: Trump congela verba de Harvard e reacende debate sobre autonomia universitária

Vale lembrar que a Igreja Católica é a maior instituição espiritual do planeta, com dois milênios de história e 1,3 bilhão de aderentes, a Igreja Católica sempre exerceu grande influência geopolítica.

Não podemos esquecer que “papas foram grandes líderes militares, comandaram extensos territórios e ditaram o rumo de nações, ordenaram cruzadas, herdando a estrutura do Império Romano. Mesmo após a Reforma e o Iluminismo, mantiveram poder político em países de maioria católica”.

O combativo e intenso século 20, com duas guerras mundiais e a fria, mudou isso de vez. A Igreja começou a perder a sua força geopolítica.

João Paulo 2º por longos 27 anos, encarnou a resistência do seu Leste Europeu à dominação soviética.
Visitou países comunistas e manteve ativa participação com os movimentos que ajudaram derrubar a Cortina de Ferro.

João Paulo 2° teve como sucessor: Bento 16 em 2005. Houve um alinhamento ao conservadorismo que ganhara força com as duas eleições de George W. Bush nos EUA. “Bento 16 pregou uma Igreja menor e mais coesa – e saiu derrotado”.

Veja também: Trump, tarifas e a arte da guerra: China reage com firmeza à escalada comercial dos EUA

Bento 16 renunciou, e Jorge Mario Bergoglio, “um argentino de forte tonalidade peronista, o particular tipo de esquerdismo paternalista que marca a política do seu país, foi sagrado papa em 2013”.

Francisco, o novo papa, se alinhou a ideais progressistas. “Fez aberturas inéditas a grupos marginalizados na Igreja, como os homossexuais, embora nunca tenha mudado a doutrina”.

Francisco ensaiou algumas “leituras políticas do mundo em desencanto”: discursos contra o populismo e o combate à mudança climática.

Morto aos 88 anos, Francisco deixa um legado importante: soube traduzir suas intuições para uma Igreja mais humana, solidária, progressista. No seu último discurso, celebrou a ressurreição. Pediu paz em Gaza. Abençoou o povo e foi descansar. Foi embora como viveu: com coragem e compaixão. E, de certa forma, influenciará a decisão (nomeou 80% do colégio de cardeais eleitores) do sucessor que deve seguir sua obra reformista.

*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).

Mais análises de José Renato Ferraz da Silveira:

Gaza: quando a morte é negócio, a paz é prejuízo

Argentina entre o ajuste fiscal e a pobreza: o futuro incerto do governo Milei

Trump, Zelensky e as lições do passado: um jogo de poder à beira do caos…

SÃO PAULO WEATHER