Expansão nacional do Comando Vermelho teve origem nas UPPs, diz Abin

Expansão nacional do Comando Vermelho teve origem nas UPPs, diz Abin
Relatório aponta deslocamento de lideranças após ocupação territorial no Rio e avanço do PCC em âmbito internacional/Tomaz Silva/Agência Brasil
Publicado em 08/11/2025 às 14:00

Da redação de LexLegal

A forma como o Rio de Janeiro implantou as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) no início da década passada está no centro de uma das interpretações mais sensíveis do atual cenário da segurança pública brasileira. Para a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), o modelo de ocupação adotado no estado foi a “fagulha” que desencadeou a expansão da facção Comando Vermelho (CV) para outras regiões do país.

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A avaliação foi apresentada pelo coordenador-geral de Análise de Conjuntura Nacional da Abin, Pedro de Souza Mesquita, durante audiência na Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência, realizada nesta quinta-feira (6). Segundo ele, a pressão exercida pelas UPPs em áreas dominadas pelo tráfico levou lideranças do CV a deixar o Rio e a reorganizar suas operações em estados da fronteira norte.

“A fagulha desse processo é uma externalidade negativa do próprio projeto de UPP”, afirmou Mesquita aos parlamentares.

Novas áreas de atuação

O coordenador relatou que, ao migrarem compulsoriamente para fora do estado, integrantes da facção buscaram regiões estratégicas para manter suas atividades e, eventualmente, retornar ao Rio de Janeiro. Esse movimento, segundo ele, começou em 2013 e teve seu ponto mais crítico no ano passado.

“E, a partir do momento em que esses líderes são levados a deixar o Rio de Janeiro, eles inevitavelmente buscam, nas fronteiras norte, outros lugares para atuar, se organizar e poder retornar ao Rio. Esse processo vem desde 2013 e teve seu ápice no ano passado”, disse.

Um mapeamento feito pela Abin indicou que, em 2024, o Comando Vermelho já atuava em Tocantins, Pará, Rondônia e Santa Catarina. Em dez anos, a expansão se intensificou. “Hoje, do Norte, a gente só não tem o Comando Vermelho como principal grupo em Roraima e no Amapá”, afirmou Mesquita, detalhando que a facção também possui “presença relevante” em São Paulo, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul, além de atuar em praticamente todas as demais unidades da Federação.

O avanço foi impulsionado também pelo alinhamento com grupos locais que enfrentavam a pressão do Primeiro Comando da Capital (PCC). “O CV, então, começou a oferecer para esses grupos uma rede de acesso logístico a armas e drogas, por meio de uma cadeia de comando muito mais descentralizado do que a da facção paulista. A partir disso, a organização criminosa foi se proliferando”, completou.

PCC: internacionalização em curso

Durante a audiência, Mesquita afirmou que, enquanto o CV amplia sua presença no território brasileiro, o PCC avança sobre fronteiras e expande sua atuação para vários países.

“Quando a gente fala hoje em transnacionalidade, a gente precisa olhar para esse ator conhecido como o Primeiro Comando da Capital. Esse é o maior case que a gente tem no país, e é sem sombra de dúvidas hoje o grupo que mais afeta a nossa estabilidade enquanto país, perante a comunidade internacional”, disse.

As investigações mostram que a expansão internacional do PCC começou há cerca de uma década. “Em 2018 a gente teve acesso a um comunicado deles convocando membros que falassem espanhol para poder se proliferar pelos outros países”, relatou. À época, o grupo estava em 11 países, com cerca de mil integrantes. Hoje, segundo Mesquita, o PCC atua em 28 países e soma mais de dois mil membros, resultado de sucessivas investidas fora do Brasil ao longo dos últimos 15 anos.

Governo do Rio: fatores múltiplos explicam a expansão

Em nota enviada à Agência Brasil, o governo fluminense afirmou que a expansão nacional do Comando Vermelho “não pode ser atribuída exclusivamente” ao projeto das UPPs. A Secretaria Estadual de Segurança Pública reconheceu que, de fato, a política se concentrou na ocupação territorial, sem articulação robusta com políticas públicas integradas — o que comprometeu sua sustentabilidade.

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A secretaria acrescentou que a forte divulgação das ações e a pressão sobre áreas controladas pelo tráfico provocaram deslocamento de criminosos para outros municípios e estados, contribuindo para a ampliação da facção. Destacou, porém, que “esse movimento teve vários fatores” e reforçou a necessidade de ação conjunta entre União, estados e municípios no combate ao narcotráfico.


SÃO PAULO WEATHER