EUA podem devolver US$ 175 bilhões após derrota de Trump na Suprema Corte

Da redação de LexLegal
A Suprema Corte dos Estados Unidos impôs uma derrota histórica ao governo de Donald Trump ao declarar a ilegalidade de tarifas alfandegárias aplicadas sob a justificativa de emergência nacional. O veredito, definido por um placar de 6 votos a 3, estabelece que a Casa Branca invadiu competências exclusivas do Congresso americano ao legislar sobre tributos de importação sem o devido lastro legislativo. A medida cria um passivo fiscal com potencial de obrigar o Tesouro dos EUA a reembolsar até US$ 175 bilhões a empresas e importadores que foram sobretaxados nos últimos meses.
Leia também: Derrubada de tarifas de Trump faz Bolsa bater 190 mil pontos e dólar despencar para R$ 5,17
O centro da disputa jurídica está no princípio da legalidade tributária e na separação de poderes. No ordenamento jurídico americano, assim como no brasileiro, a criação ou majoração de tributos exige fundamento legal.
Ao utilizar decretos de emergência para impor barreiras comerciais, o Executivo atropelou o rito democrático, gerando o que especialistas chamam de insegurança jurídica sistêmica.
A decisão da Corte não foca no mérito econômico do protecionismo, mas na forma como ele foi implementado, reafirmando que medidas fiscais adotadas fora dos limites institucionais podem gerar passivos bilionários para o Estado.
“Do ponto de vista tributário, tarifas são tributos sobre importação, e sua cobrança exige fundamento legal estrito e respeito às competências constitucionais. Ao entender que o presidente invadiu prerrogativas do Congresso, a Corte reforça o princípio da legalidade tributária e da separação de poderes”, afirma Mary Elbe Queiroz, advogada tributarista, presidente do Cenapret e sócia do Queiroz Advogados.
De acordo com a advogada, esse precedente é relevante para o comércio internacional, pois sinaliza que medidas fiscais adotadas fora dos limites institucionais podem gerar passivos bilionários e insegurança jurídica para empresas e cadeias globais .
Impacto no Brasil: alívio no câmbio e fôlego para exportadores
Para o mercado brasileiro, o impacto é imediato e positivo, especialmente para os grandes exportadores de commodities e manufaturados que estavam na mira do tarifaço. A queda das barreiras unilaterais reduz a aversão ao risco em relação aos ativos nacionais e alivia a pressão sobre o câmbio.
Com regras de jogo mais claras no maior mercado consumidor do mundo, o planejamento de longo prazo das empresas nacionais volta ao radar, favorecendo novos ciclos de investimento e facilitando o acesso a linhas de financiamento internacional. A previsibilidade institucional funciona como um amortecedor contra decisões políticas abruptas.
“Esse movimento diminui a pressão sobre o mercado de capitais, ao melhorar a previsibilidade, aliviar o câmbio e reduzir a aversão ao risco. Há também um ganho relevante em segurança jurídica, elemento central para decisões de longo prazo. Embora as tarifas não deixem de existir de forma automática, a base legal usada para criá‑las foi enfraquecida, o que reduz o risco de mudanças repentinas nas regras”, avalia Peterson Rizzo, Gerente de R.I da Multiplike
Ele explica que, para as empresas, o cenário favorece planejamento, investimentos e acesso a financiamento. Para os investidores, o impacto é positivo, com menor risco político e melhores condições de alocação de capital.
Apesar do alívio jurídico, o cenário global permanece volátil e exige que as empresas brasileiras mantenham estruturas financeiras sólidas. O fim da ameaça tarifária imediata não extingue a necessidade de uma gestão ativa de risco cambial.
Especialistas em mercado de capitais sugerem que exportadoras aproveitem o momento de maior estabilidade para estruturar operações de crédito que protejam o fluxo de caixa, utilizando ferramentas como a securitização de contratos de exportação e os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs). Essas alternativas de crédito estruturado permitem que a empresa transforme a previsibilidade jurídica em capacidade de expansão operacional.
Outras notícias: CBS e IBS geram primeira onda de ações na Justiça
“A Suprema Corte dos Estados Unidos reforça a segurança jurídica ao limitar o uso unilateral de tarifas, reduzindo o risco de decisões abruptas que afetem contratos e cadeias globais. Para exportadores brasileiros, isso melhora a previsibilidade, mas não elimina a necessidade de estrutura financeira robusta”, diz Gustavo Assis, CEO da Asset Bank
Para o especialista, alternativas como antecipação de recebíveis, FIDCs, securitização de contratos de exportação e linhas estruturadas em moeda estrangeira ajudam a proteger fluxo de caixa e reduzir exposição cambial. “Em um cenário de juros ainda elevados e volatilidade global, acesso a crédito estruturado e gestão ativa de risco são ferramentas centrais para manter competitividade e preservar margem”, avalia.
Crédito estruturado e o fim do risco de rupturas contratuais
O enfraquecimento da base legal do governo Trump para impor taxas reduz o risco de rupturas inesperadas em contratos de fornecimento. No comércio internacional, a estabilidade das instituições é tão valiosa quanto a demanda pelos produtos.
Quando um tribunal de cúpula estabelece limites ao poder de um governante, ele sinaliza aos investidores que os contratos assinados hoje não serão anulados por um tweet amanhã. A disciplina financeira, aliada ao acesso inteligente ao crédito, torna-se o divisor de águas entre as empresas que apenas sobrevivem à volatilidade e as que capturam oportunidades reais no exterior.
“A Suprema Corte dos Estados Unidos estabeleceu um limite importante ao poder unilateral de impor tarifas, reforçando a previsibilidade institucional no comércio internacional. Para exportadoras brasileiras, isso reduz o risco de rupturas inesperadas em contratos e cadeias de fornecimento, permitindo planejamento mais consistente”, destaca Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos.
De acordo com Araújo, nesse ambiente, o crédito estruturado se torna um diferencial competitivo, ao viabilizar antecipação de recebíveis, reforço de capital de giro e proteção de fluxo de caixa. “Estruturas como FIDCs e operações customizadas ajudam empresas a transformar previsibilidade jurídica em capacidade real de expansão. Em um cenário global ainda volátil, disciplina financeira e acesso inteligente a crédito são determinantes para capturar oportunidades externas”, pontua.
O efeito cascata desta decisão judicial deve ser sentido em toda a cadeia de suprimentos global. Com a possibilidade de reembolsos massivos, o governo dos Estados Unidos enfrentará um desafio fiscal considerável em um momento de déficit público elevado.
Para os importadores americanos que pagaram essas taxas, o dinheiro recuperado pode significar um alívio nos custos de produção e, consequentemente, uma desaceleração da inflação interna. O precedente também desencoraja outros países a adotarem medidas similares, sob o risco de enfrentarem condenações judiciais idênticas que sangram o erário e destroem a reputação comercial do Estado.
A vitória da institucionalidade sobre o populismo tarifário também impacta a geopolítica dos tribunais. A Suprema Corte americana, muitas vezes vista como alinhada a pautas conservadoras, demonstrou que a preservação da competência legislativa do Congresso é um valor absoluto.
Esse equilíbrio é o que garante que a maior economia do mundo não se transforme em um mercado regido por caprichos individuais, protegendo não só os cidadãos americanos, mas também seus parceiros comerciais.
A advocacia tributária internacional passa a olhar para este caso como um leading case sobre a impossibilidade de usar a segurança nacional como escudo para arbitrariedades fiscais.
Veja também: Anvisa vai liberar Ozempic genérico? Decisão sobre caneta nacional sai na próxima semana
A análise detalhada dos fluxos comerciais após a decisão revela que setores como o de aço e alumínio no Brasil estão entre os mais beneficiados. O fim da insegurança tarifária permite que essas indústrias retomem projetos de modernização que estavam paralisados por medo de novas taxas.
No final das contas, a decisão da Suprema Corte dos EUA reforça que, mesmo em tempos de crises globais e tensões geopolíticas, o devido processo legal e o respeito às competências constitucionais permanecem como as únicas bases sólidas para a prosperidade econômica.