Quais os impactos e alternativas jurídicas para o setor siderúrgico depois que os EUA impuseram tarifas sobre o aço e o alumínio brasileiros?

Quais os impactos e alternativas jurídicas para o setor siderúrgico depois que os EUA impuseram tarifas sobre o aço e o alumínio brasileiros?
Além da redução nas exportações, o impacto pode ser sentido dentro do Brasil com cortes na produção, diminuição de investimentos e possíveis demissões no setor siderúrgico/Pixabay
Publicado em 12/03/2025 às 10:40

Luciano Teixeira – São Paulo

A decisão dos Estados Unidos de impor tarifas de 25% sobre as importações de aço e alumínio gerou uma onda de preocupações para o setor siderúrgico brasileiro e para a economia como um todo. O Brasil, sendo o segundo maior exportador de aço para os EUA, agora pode enfrentar uma queda significativa nas vendas, agravando o cenário de incerteza comercial.

Esse movimento protecionista do governo americano levanta debates jurídicos e econômicos sobre as possíveis respostas brasileiras, desde ações na Organização Mundial do Comércio (OMC) até medidas de retaliação comercial e adaptações estratégicas da indústria nacional.

Segundo dados do governo dos Estados Unidos, no ano passado, o Canadá foi o maior fornecedor de aço, em volume, para os americanos, com 20,9% do total, seguido pelo Brasil (16%, com 3,88 milhões de toneladas, e o país com maior crescimento em relação às exportações de 2023) e o México (11,1%).
O Brasil ficou atrás do México em valores: recebeu US$ 2,66 bilhões, ante US$ 2,79 bilhões dos mexicanos e US$ 5,89 bilhões dos canadenses. Em janeiro, o Brasil foi o maior exportador do mês em volume (499 mil toneladas), ultrapassando o Canadá (495 mil toneladas).

Leia também: Como empresas brasileiras podem crescer no novo cenário econômico com Donald Trump na presidência dos EUA?

As tarifas de 25% sobre aço e alumínio de todos os parceiros comerciais, sem exceções ou isenções, implementadas por Trump, entraram em vigor nesta quarta-feira (12). A medida havia sido anunciada em fevereiro. “As tarifas podem aumentar com o passar do tempo. Elas podem aumentar, não sei se é previsibilidade”, disse Trump à época.

“O foco dado pelo governo Donald Trump ao aço como um tema de segurança nacional reduziu a margem do Brasil e de outros países exportadores para negociar isenções à tarifa. Quando anunciou a sobretaxa, em fevereiro, Trump citou a expressão segurança nacional nada menos do que 27 vezes. Isso frustra qualquer negociação”, avalia José Renato Ferraz da Silveira, professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), especialista em política externa americana.

China: a concorrência predatória

Outro ponto citado em fevereiro por Trump é que a China estaria inundando de aço barato países que têm acesso privilegiado aos EUA. Esses países — ainda na visão de Trump— estariam direcionando sua produção local de aço para os EUA, o que também contribuiria para o enfraquecimento da indústria americana.

O Instituto Aço Brasil, que representa as siderúrgicas brasileiras, recebeu com perplexidade o anúncio de Trump e rebateu o argumento. Em nota, a instituição negou que o Brasil estaria importando grandes quantidades de aço chinês para enviar a produção nacional para os EUA.

“Cabe ressaltar que o mercado brasileiro também vem sendo assolado pelo aumento expressivo de importações de países que praticam concorrência predatória, especialmente a China, razão pela qual o Instituto Aço Brasil solicitou ao governo brasileiro a implementação de medida de defesa comercial”, disse o Instituto no documento.

Protecionismo e contestação brasileira

A imposição das tarifas faz parte da política de Donald Trump de priorizar a indústria americana em detrimento da concorrência internacional. Esse tipo de barreira comercial já foi utilizado anteriormente pelo ex-presidente em seu primeiro mandato, gerando disputas com países que tradicionalmente exportam aço e alumínio para os Estados Unidos. A justificativa para a medida é garantir a segurança econômica e fortalecer o setor industrial doméstico, mas seus efeitos podem se espalhar além da siderurgia, afetando diversas cadeias produtivas.

“Na visão do republicano, as cotas de importação do produto abertas para o Brasil e outros países nos últimos anos representam um risco para a segurança nacional americana, ao contribuírem para que a indústria siderúrgica do país opere numa capacidade de utilização abaixo de 80%. Trump deseja reindustrializar o país à fórceps”, avalia Silveira.

Para contestar essa decisão, o Brasil pode recorrer à OMC, argumentando que as tarifas violam regras do comércio internacional. De acordo com especialistas, a OMC estabelece que barreiras protecionistas devem ser fundamentadas em ameaças concretas à segurança nacional ou práticas de concorrência desleal, algo que dificilmente se aplicaria ao Brasil, já que o país tem uma longa relação comercial estável com os Estados Unidos no setor de siderurgia. Em situações anteriores, a OMC já decidiu que esse tipo de sobretaxa viola princípios básicos de livre comércio, o que pode embasar uma contestação formal do governo brasileiro.

“Se a OMC julgar que as tarifas americanas violam as regras do comércio global, poderá autorizar o Brasil a impor medidas de retaliação, como sobretaxas sobre produtos americanos. No entanto, a questão vai além do direito internacional e se torna também uma decisão econômica e política. Muitas vezes, medidas de retaliação podem trazer prejuízos colaterais para a própria economia do país que as aplica”, afirma Adriano Trindade, especialista em política mineral e regulação do setor e sócio do escritório Mattos Filho.

Em 2018, quando tarifas similares foram aplicadas, o Brasil conseguiu estabelecer um regime de cotas, permitindo que uma parte das exportações continuasse sem as novas tarifas. Uma estratégia semelhante poderia ser tentada agora, de acordo com os advogados da área, buscando minimizar os prejuízos para a indústria nacional. O Ministério das Relações Exteriores e o Ministério da Economia devem trabalhar em conjunto para articular uma solução diplomática antes de considerar medidas mais drásticas.

Outras notícias: Demarest assessora Amaggi, Louis Dreyfus Company e ADM Ventures em rodada Série B da Grão Direto

Caso a negociação fracasse, o Brasil pode adotar medidas de retaliação comercial. Isso pode envolver a imposição de tarifas sobre produtos importados dos Estados Unidos ou a criação de barreiras regulatórias para determinados setores.

“Retaliar é uma opção disponível e pode ser utilizada para equilibrar as perdas do setor siderúrgico. No entanto, isso também pode desencadear uma escalada de disputas comerciais, prejudicando setores que dependem de relações saudáveis com os EUA. A discussão é predominantemente política e econômica. Apesar de existir um fundamento jurídico para contestar as tarifas, as decisões de governos muitas vezes vão além da legalidade e envolvem estratégias geopolíticas”, diz Trindade.

Segundo o analista, essa estratégia precisa ser calculada com cautela, pois uma escalada de disputas comerciais poderia afetar negativamente outros setores da economia e prejudicar ainda mais as relações entre os dois países.

Impacto das tarifas na siderurgia e nos contratos comerciais

A imposição de tarifas sobre a importação de aço e alumínio pelos Estados Unidos não afeta apenas o setor siderúrgico, mas também tem repercussões significativas em contratos comerciais firmados entre empresas. O aumento dos custos desses insumos pode gerar disputas entre fornecedores e compradores, além de comprometer a viabilidade de acordos já estabelecidos.

O advogado Adriano Trindade destaca que esse é um aspecto pouco discutido, mas crucial para o setor empresarial. “Se um contrato entre empresas prevê um preço fixo ou uma fórmula de reajuste baseada em custos de produção, um aumento repentino pode gerar conflitos. A parte compradora pode alegar que não tem mais condições de cumprir o contrato devido ao aumento do preço do aço, enquanto o vendedor pode argumentar que o aumento foi uma decisão estatal e está fora de seu controle. Isso pode resultar em renegociações contratuais e, em alguns casos, em disputas judiciais”, explica.

Para evitar esses conflitos, empresas precisam adotar medidas preventivas em suas negociações contratuais. “É fundamental revisar contratos para prever cenários de oscilação de custos devido a fatores externos. Cláusulas de reajuste de preços e força maior podem ser usadas para mitigar riscos. Também é importante manter um canal de negociação aberto entre as partes para evitar litígios e buscar soluções amigáveis”, afirma Trindade.

Além do impacto direto nos contratos de fornecimento de aço e alumínio, setores que dependem desses insumos, como construção civil e indústria automotiva, também podem ser afetados. Com o aumento dos preços, contratos firmados previamente podem se tornar inviáveis, exigindo renegociações ou até mesmo a rescisão de acordos.

Para Trindade, as empresas devem agir rapidamente para avaliar os efeitos dessas tarifas sobre seus contratos e buscar mecanismos para minimizar riscos. “O impacto dessa medida nos contratos privados ainda não foi amplamente discutido, mas pode ser um fator crucial para muitas empresas. As siderúrgicas e seus clientes precisam avaliar como essa tarifa afeta suas relações comerciais e buscar estratégias para minimizar riscos”, conclui.

O cenário de incerteza exige que empresas estejam preparadas para eventuais mudanças contratuais e busquem estratégias jurídicas que garantam segurança e previsibilidade em suas operações comerciais.

Reação em cadeia

Os impactos das tarifas não se limitam apenas ao setor siderúrgico. Com o encarecimento do aço e do alumínio, a indústria de construção civil pode ser afetada pelo aumento dos custos dos insumos, o que pode gerar encarecimento de imóveis e obras públicas. O setor automotivo, que também depende desses materiais para a produção de veículos, pode enfrentar dificuldades semelhantes, levando a possíveis reajustes nos preços dos carros. A agroindústria também pode sentir os efeitos, já que muitas máquinas agrícolas utilizam peças de aço e alumínio em sua fabricação.

A valorização do dólar frente ao real, impulsionada pelo protecionismo americano, pode tornar a importação de diversos produtos mais cara, o que pode pressionar a inflação e reduzir o poder de compra da população brasileira. Além disso, um cenário de menor crescimento econômico e incerteza pode impactar os investimentos estrangeiros no Brasil, tornando mais difícil a recuperação do país em um contexto global cada vez mais competitivo.

Para se adaptar à nova realidade, a indústria siderúrgica brasileira precisará diversificar seus mercados. A China, por exemplo, é um grande consumidor de insumos metálicos e pode ser uma alternativa para as exportações brasileiras. No entanto, a concorrência nesse mercado é intensa, com países como Índia e Rússia disputando espaço. A busca por novos parceiros comerciais exigirá um esforço coordenado entre o setor privado e o governo para firmar novos acordos e garantir a viabilidade das exportações.

Além de buscar novos mercados, as siderúrgicas podem investir na redução de custos operacionais para manter a competitividade. O uso de tecnologias mais eficientes, automação e inovação na produção podem ajudar a reduzir desperdícios e aumentar a produtividade. A modernização das plantas industriais também pode tornar os produtos brasileiros mais atraentes para mercados exigentes, como o europeu.

O desenvolvimento de produtos siderúrgicos de maior valor agregado pode ser outra alternativa para enfrentar as dificuldades impostas pelas tarifas americanas. A busca por aço e alumínio de menor impacto ambiental tem crescido em diversos países, e o Brasil pode se beneficiar ao investir em processos de produção mais sustentáveis. A utilização de energias renováveis nas indústrias siderúrgicas e a adoção de práticas ambientalmente responsáveis podem abrir portas para novos mercados e fortalecer a posição do país no comércio global.

O governo brasileiro, por sua vez, precisa agir com rapidez e assertividade para minimizar os danos da nova tarifa imposta pelos EUA. Além das medidas diplomáticas e jurídicas, a formulação de políticas internas que incentivem a competitividade da indústria nacional será crucial para evitar uma crise prolongada no setor. A adoção de incentivos fiscais para exportadores, a facilitação do crédito para investimentos em inovação e a desburocratização do comércio exterior podem ser algumas das iniciativas que ajudem as empresas brasileiras a enfrentarem esse novo desafio.

“Vale destacar que cerca de metade das exportações de aço do Brasil vão para os EUA, o que coloca em risco uma fatia importante da produção siderúrgica brasileira. O governo brasileiro avalia não estar claro o ganho específico que Trump terá com a imposição das tarifas aos produtos do Brasil, mas crê que se trata de uma estratégia para manter a promessa de campanha de reindustrializar o país”, explica Silveira.

Veja também: Mattos Filho atua no processo de reestruturação da WeWork Brasil e venda da participação do SoftBank

A imposição das tarifas pelos Estados Unidos representa um grande teste para a economia brasileira e sua capacidade de reação a choques externos. O sucesso na resposta dependerá de uma ação coordenada entre governo e setor privado, buscando alternativas que minimizem os impactos e garantam a continuidade das exportações. O desfecho das negociações nas próximas semanas será fundamental para definir o futuro do comércio bilateral entre Brasil e Estados Unidos e o posicionamento do país no cenário global.

SÃO PAULO WEATHER