EUA e Israel atacam Irã mirando mudança de regime e disputa com China

EUA e Israel atacam Irã mirando mudança de regime e disputa com China
Imagem aérea mostra área urbana iraniana atingida por bombardeio em meio à escalada entre EUA, Israel e Irã/Reprodução X
Publicado em 02/03/2026 às 7:00

Da redação de LexLegal

A nova ofensiva militar de Estados Unidos e Israel contra o Irã, a segunda em menos de oito meses, vai além do discurso oficial de prevenção nuclear. Para especialistas em geopolítica e relações internacionais, o objetivo central é pressionar por uma mudança de regime em Teerã, enfraquecer a influência chinesa e reforçar a supremacia regional israelense.

Leia também: Guerra no Oriente Médio pressiona commodities e pode fortalecer o real

Analistas ouvidos apontam que os ataques ocorreram justamente quando havia avanço diplomático. Poucas horas antes da ofensiva, Omã, país mediador, indicava que um acordo para limitar o programa nuclear iraniano estava próximo, incluindo a aceitação inédita de não manter estoques de urânio enriquecido.

A professora Rashmi Singh, da PUC Minas, destaca que enviados do então presidente Donald Trump afirmaram que as negociações estavam travadas, versão contradita publicamente pelo chanceler de Omã, Badr bin Hamad Albusaidi. Segundo ela, a escolha pelo ataque indica uma decisão política deliberada.

“Os EUA e Israel entraram em guerra quando a diplomacia estava funcionando. A leitura é que ambos avaliaram o Irã como momentaneamente enfraquecido e viram uma janela estratégica para tentar instalar um governo mais alinhado ao Ocidente”, afirmou Rashmi Singh.

Na avaliação da professora, a ofensiva também atende a interesses internos de Israel. Ela lembra que Benjamin Netanyahu enfrenta pressão política doméstica e historicamente utiliza conflitos externos para fortalecer sua posição interna e desviar o foco de crises institucionais.

O professor Robson Valdez, do IDP, avalia que a narrativa da contenção nuclear não se sustenta sozinha. Para ele, o centro da disputa é o equilíbrio de poder no Oriente Médio e o impacto indireto sobre a China, principal compradora do petróleo iraniano.

“O Estreito de Ormuz é vital para o fluxo energético global. Qualquer instabilidade ali afeta diretamente Pequim. A guerra combina rivalidades regionais históricas com a disputa estratégica entre grandes potências”, explicou Valdez.

Já o cientista político Ali Ramos afirma que a nova investida ocorre porque Israel não conseguiu desarticular o regime iraniano no conflito anterior. Segundo ele, enquanto Teerã mantiver capacidade de resposta com mísseis e drones, não haverá supremacia estratégica israelense.

Outras notícias: Ataque que matou líder iraniano abre cenário inédito e eleva risco regional

“O Irã é peça-chave no projeto geoeconômico chinês. Um alinhamento de Teerã ao eixo ocidental abriria espaço para pressionar projetos de infraestrutura da China na Ásia Central”, disse Ramos.

O historiador Rodolfo Queiroz Laterza insere o conflito em um tabuleiro ainda mais amplo. Para ele, Washington tenta afastar o Irã da rota econômica que conecta China, Rússia e países da Eurásia, no contexto da guerra comercial e tecnológica entre EUA e China.

O especialista em Oriente Médio Mohammed Nadir, da UFABC, descarta a justificativa de ameaça nuclear. Segundo ele, o objetivo real é impedir o surgimento de qualquer potência regional capaz de rivalizar com Israel.

“Essa não é uma guerra americana no sentido clássico. É uma guerra de Netanyahu, com apoio dos EUA, para garantir a primazia absoluta de Israel no Oriente Médio”, afirmou Nadir, lembrando o precedente da invasão do Iraque em 2003, baseada em alegações depois desmentidas.

Para o professor Roberto Goulart Menezes, da UnB, o programa nuclear iraniano tem sido usado há décadas como pretexto político. Ele ressalta que o Irã é signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear e está sujeito a inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica, ao contrário de Israel.

Menezes avalia que os conflitos recentes, como a guerra na Ucrânia, aumentaram a percepção de insegurança em Teerã, mas reforça que a estratégia dos EUA é redesenhar o mapa geopolítico do Oriente Médio por meio de pressão militar e econômica.

O sociólogo Raphael Seabra, também da UnB, define essa estratégia como imperialista, quando uma potência utiliza sua superioridade econômica, política e militar para subordinar outros países a seus interesses estratégicos.

Veja também: Agência estatal do Irã diz que bombardeio dos EUA e Israel atingiu escola e deixou 153 mortos

O atual ciclo de hostilidades se insere em um histórico iniciado em 1979, com a Revolução Islâmica iraniana. Desde então, o Irã enfrenta sanções econômicas severas. Em 2015, um acordo internacional limitou seu programa nuclear, mas os EUA se retiraram unilateralmente em 2018. Em 2025, Washington voltou a exigir o desmonte total do programa nuclear, de mísseis e do apoio iraniano a grupos aliados na região, elevando novamente a tensão.

SÃO PAULO WEATHER