Estratégia do caos: Como Trump e aliados reescrevem as regras do jogo global

André Pereira César*

“O partido de oposição é a mídia. E a mídia, porque é burra e preguiçosa, só pode ficar em uma coisa por vez. Tudo que precisamos fazer é inundar o terreno. Todo dia nós jogamos três coisas. Eles vão morder uma, e conseguiremos fazer as nossas coisas. (…) Esses caras nunca, nunca conseguirão se recuperar (…)”.
A frase, proferida pelo ideólogo trumpista Steve Bannon em 2019, recuperada recentemente pelo jornal New York Times e replicada pela ombudsman da Folha de São Paulo, Alexandra Moraes, ajuda a entender o quadro atual vivido pelo planeta. O republicano Donald Trump, apoiado por seus aliados, coloca em prática políticas que afetam a todos, de norte a sul e de leste a oeste, instaurando um clima de incertezas e caos. A rigor, as lideranças globais, e também a imprensa e setores organizados das sociedades, não têm instrumentos tão ágeis, pelo menos até agora, para enfrentar essa nova realidade. O mundo segue em um (tenso) compasso de espera.
Abaixo, uma lista de exemplos do que vem ocorrendo nas últimas semanas.
Uma das primeiras medidas de Trump após tomar posse, em 20 de janeiro último, foi retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas. O negacionismo do presidente republicano fica evidente, pois os dados oficiais divulgados recentemente dão a informação de que o mês de janeiro de 2025 foi o mais quente de toda a série histórica e que novas ondas de calor deverão ser mais frequentes em todo planeta.
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Igualmente a Organização Mundial de Saúde (OMS) foi objeto de ataques do norte-americano, que anunciou a retirada do órgão. No caso, ele defende mudanças na estrutura da entidade, incluindo o comando nas mãos dos Estados Unidos. Importante lembrar que o país é o principal financiador da OMS.
Acompanhando os movimentos de Trump, o argentino Javier Milei anunciou a saída do país da OMS e criticou duramente a “agenda ecológica” atual, sinalizando que poderá deixar também o Acordo de Paris. Milei transformou a Argentina num laboratório libertário, com decisões radicais e sem medir consequências futuras.
Surpreendendo a muitos, o presidente dos Estados Unidos anunciou o esvaziamento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), maior agência de assistência humanitária do planeta. A entidade conta com cerca de dez mil funcionários e Trump pretende reduzir esse número a menos de trezentos, na prática inviabilizando as atividades. O republicano segue o raciocínio do empresário e colaborador Elon Musk, que afirma que o órgão promove a “agenda woke”.
Por falar em Musk, o bilionário dono do X e da Tesla, na condição de chefe do Departamento de Eficiência Governamental, tentou acessar dados sensíveis do sistema de pagamento do Tesouro do país, como os salários de milhões de pessoas. A Justiça Federal estadunidense, por ora, barrou a polêmica iniciativa.
Também foram registrados atritos entre os governos norte-americano, colombiano, mexicano e canadense. No caso da Colômbia, o presidente Gustavo Petro cedeu para evitar sanções econômicas e migratórias. Já México e Canadá negociaram um acordo temporário para evitar a aplicação imediata de sanções.
Sobre a China, houve uma escalada nas tensões entre os dois países, com ameaças de retaliações de parte a parte. Os presidentes Trump e Xi Jinping terão uma conversa em breve em busca de algum entendimento. Enquanto ela não vem, a China anunciou tarifas que devem atingir US$ 14 bilhões em mercadorias dos EUA, além da investigação do gigante Google.
O republicano anunciou a mudança do nome de Golfo do México para Golfo da América. Medida inócua na prática, que serve apenas para agradar seu eleitorado.
As ameaças contra o Canal do Panamá e a Groenlândia, por outro lado, não saíram do papel. No entanto, o governo dos EUA conseguiu que o contrato de administração de parte do canal do Panamá com a China não fosse renovado.
A União Europeia também se manifestou sobre os últimos eventos. A presidente do Parlamento Europeu, Ursula Von der Leyen, manifestou apoio ao Tribunal Penal Internacional (TPI) após as sanções impostas pelos Estados Unidos à Corte. Von der Leyen declarou que a “Europa sempre vai defender o direito internacional” e que o tribunal “deve ser capaz de prosseguir livremente na luta contra a impunidade global”. Clima ruim entre aliados históricos.
Outra questão especialmente delicada diz respeito ao conflito entre Israel e o Hamas. Trump propõe a retirada da população palestina da Faixa de Gaza e a entrega do território aos israelenses após o fim da guerra. A sugestão não foi bem recebida pela comunidade internacional, em especial o mundo árabe, que se prepara para contestar a proposta.
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A deportação de imigrantes ilegais segue gerando ruídos e o anunciado entendimento com o presidente salvadorenho Nayib Bukele, que afirmou aceitar deportados de outras nacionalidades em seu país, foi alvo de críticas.
Por fim, Trump anunciou a taxação de 25% sobre a importação do aço e alumínio. O Brasil, como um dos maiores exportadores, deverá ser seriamente atingido.
O resumo da ópera é claro. Placas tectônicas estão em movimento e algo pode estar em mutação na ordem mundial. Bannon, em sua declaração citada no início do artigo, fala em “inundar o terreno”. Em seus primeiros atos, Donald Trump pode estar colocando essa ideia em prática.
*André Pereira César é cientista político.