Enel admite que apagão de dezembro atingiu 4,4 milhões de clientes em São Paulo

Enel admite que apagão de dezembro atingiu 4,4 milhões de clientes em São Paulo
© Rovena Rosa/Agência Brasil
Publicado em 14/01/2026 às 16:00

Da redação de LexLegal

A Enel informou que o apagão provocado pelo ciclone extratropical que atingiu São Paulo nos dias 10 e 11 de dezembro afetou, ao longo do evento, um total acumulado de 4,4 milhões de clientes. O número é mais que o dobro da estimativa inicialmente divulgada pela concessionária, que falava em cerca de 2 milhões de consumidores impactados na capital e na região metropolitana.

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Segundo a empresa, a diferença entre os números se deve ao método de contagem. A marca de 2 milhões correspondia ao “pico” de unidades sem energia ao mesmo tempo, enquanto o novo dado considera o total de clientes que ficaram sem fornecimento em algum momento durante as mais de 12 horas de ventos intensos. “2 milhões de clientes impactados nos dias do ciclone extratropical, dias 10 e 11 de dezembro, corresponde ao pico de clientes registrados, em tempo real, simultaneamente”, afirmou a concessionária.

A Enel explicou que o fenômeno climático teve comportamento dinâmico. Enquanto equipes conseguiam restabelecer a energia em determinadas áreas, novos pontos da rede eram danificados pela força do vento e pela queda de árvores. “Foram 12 horas seguidas de fortes ventos e, na medida em que a empresa reconectava clientes desligados, outros eram impactados sucessivamente com a força do vendaval. O número acumulado de clientes desligados ao longo do dia 10 foi significativamente maior, apurado em análise posterior ao evento climático”, declarou a companhia em nota.

De acordo com a distribuidora, os dados passaram por auditoria interna e foram encaminhados à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) em 19 de dezembro. A Aneel é o órgão federal responsável por fiscalizar as concessionárias de energia e avaliar se houve falhas no cumprimento dos padrões mínimos de qualidade do serviço.

O reconhecimento de que o apagão atingiu 4,4 milhões de clientes amplia a dimensão da crise enfrentada pelo sistema elétrico paulista no fim de 2025. Na prática, isso significa que quase metade das unidades consumidoras atendidas pela Enel na área de concessão foram impactadas em algum momento pelo evento climático, ainda que não de forma simultânea.

O ciclone extratropical que passou pelo Estado provocou rajadas de vento que chegaram a 98 km/h em pontos da Região Metropolitana de São Paulo. Mais de 330 árvores caíram, muitas delas sobre a rede de distribuição de energia, danificando cabos, transformadores e postes. Como o sistema elétrico urbano é altamente interligado, a queda de um único componente pode interromper o fornecimento para milhares de residências e comércios.

O impacto foi sentido por moradores que ficaram dias sem luz, sem acesso a serviços básicos e com prejuízos em alimentos e equipamentos eletrônicos. Hospitais, escolas e estabelecimentos comerciais também tiveram o funcionamento comprometido em diversas regiões da capital e do entorno metropolitano.

Crise institucional e pressão política

A revisão dos números ocorre em meio a uma forte crise política e institucional envolvendo a concessão da Enel em São Paulo. Após os apagões sucessivos registrados em 2023, 2024 e 2025, o governo do Estado e a prefeitura da capital passaram a defender publicamente o rompimento do contrato com a distribuidora.

Em dezembro, o governador Tarcísio de Freitas e o prefeito Ricardo Nunes anunciaram que levariam à Aneel um pedido formal de caducidade da concessão. A caducidade é o instrumento jurídico que permite ao poder concedente extinguir um contrato quando há descumprimento grave e reiterado das obrigações por parte da concessionária.

Na prática, trata-se da punição mais severa prevista na legislação do setor elétrico, pois implica a retirada da empresa da operação do serviço e a transferência da distribuição de energia para outra operadora ou para uma gestão temporária do poder público.

O tema ganhou ainda mais peso nesta semana, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou a abertura de uma investigação federal para apurar a atuação da Enel em São Paulo. O objetivo é verificar se a concessionária descumpriu padrões técnicos, prazos de atendimento e obrigações contratuais previstos no contrato de concessão e na regulação da Aneel.

Pico versus total acumulado

Tecnicamente, a diferença entre “pico” e “total acumulado” é relevante. O pico mostra quantos clientes estavam sem energia ao mesmo tempo em um dado instante. Já o total acumulado soma todos os consumidores que, em algum momento, sofreram interrupção, mesmo que por períodos diferentes e em horários distintos.

No caso do ciclone de dezembro, o pico foi de cerca de 2 milhões de unidades consumidoras desligadas simultaneamente. Porém, ao longo de mais de 12 horas de ventos extremos, novos bairros e regiões passaram a sofrer interrupções, elevando o total acumulado para 4,4 milhões.

Esse tipo de contagem é comum em análises técnicas posteriores a eventos climáticos de grande escala, mas o fato de a informação só ter sido tornada pública semanas depois reforçou críticas sobre a transparência da concessionária na comunicação com a população e com os órgãos de controle.

Para especialistas em regulação, números subestimados podem dificultar a correta avaliação do impacto real do apagão e a aplicação de eventuais sanções administrativas. Quanto maior o universo de clientes afetados, maior a gravidade potencial do descumprimento dos indicadores de continuidade do serviço, como o DEC (duração média das interrupções) e o FEC (frequência média das interrupções), que são usados pela Aneel para medir a qualidade do fornecimento.

Apagões e confiança no sistema

O episódio de dezembro reforçou a percepção de fragilidade do sistema de distribuição de energia em áreas densamente urbanizadas e arborizadas, como São Paulo. A dependência de redes aéreas, a dificuldade de manutenção preventiva e a resposta lenta a eventos extremos tornaram-se pontos centrais do debate público.

Além disso, o caso expôs o desgaste da relação entre a Enel e autoridades locais, que passaram a tratar a concessionária como responsável direta por uma crise que afeta serviços essenciais e a vida cotidiana da população.

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Com a revisão dos números, o apagão de dezembro passa a ser oficialmente um dos maiores eventos de interrupção de energia já registrados na história da capital paulista. Mais do que uma correção estatística, a admissão de que 4,4 milhões de clientes foram impactados reforça a pressão por mudanças estruturais no modelo de concessão e por respostas mais rápidas diante de eventos climáticos extremos, que tendem a se tornar mais frequentes.


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