Em jornais estrangeiros, Lula defende reconstrução do multilateralismo e alerta para riscos da ordem internacional

Da Agência Brasil
Em meio à crescente tensão internacional provocada pela imposição de tarifas comerciais dos Estados Unidos ao Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva publicou, nesta quinta-feira (10), um artigo em jornais de diversos países em que defende o multilateralismo, a cooperação e a diplomacia como caminhos indispensáveis para enfrentar os desafios contemporâneos. Sem mencionar diretamente o presidente estadunidense Donald Trump, que anunciou a taxação de 50% sobre todas as exportações brasileiras, Lula critica o uso da força e as ações unilaterais que, segundo ele, minam o sistema de comércio global.
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“A prevalência da ‘lei do mais forte’ ameaça o sistema de comércio multilateral”, afirmou o presidente, observando que “a Organização Mundial do Comércio foi esvaziada, e ninguém se lembra da rodada de desenvolvimento de Doha”. Para ele, a imposição generalizada de tarifas leva a um ciclo de estagnação e aumento de preços, aprofundando desequilíbrios econômicos.
O artigo, publicado em veículos como o The Guardian (Reino Unido), Clarín (Argentina) e China Daily (China), sustenta que os atuais conflitos internacionais e a paralisia das instituições globais refletem uma crise de representatividade. “Se as organizações internacionais parecem ineficazes, é porque sua estrutura não reflete mais a realidade atual”, escreveu Lula, acrescentando que a resposta a essa crise não deve ser o abandono do multilateralismo, mas sua reconstrução “em bases mais justas e inclusivas”.
Ao abordar os 80 anos da criação da Organização das Nações Unidas (ONU), Lula destacou que 2025 deveria ser um ano de celebração, mas corre o risco de ser lembrado como o ponto de ruptura da ordem internacional forjada no pós-guerra. Ele apontou a banalização do uso da força por membros permanentes do Conselho de Segurança como um fator que mina a legitimidade do órgão. “A incapacidade de agir em relação ao genocídio em Gaza representa uma negação dos valores mais básicos da humanidade”, afirmou.
O presidente também relacionou os atuais impasses à crise financeira de 2008, classificando-a como um marco do fracasso da globalização neoliberal. “A escolha de socorrer os ultra-ricos e as grandes corporações às custas dos cidadãos comuns e das pequenas empresas aprofundou a desigualdade”, escreveu, destacando que essa dinâmica levou à perda de confiança nas instituições e à ascensão de movimentos extremistas que ameaçam a democracia e fomentam o ódio como projeto político.
Na avaliação de Lula, os esforços globais para mitigar desigualdades têm sido negligenciados, com o corte de programas de cooperação internacional e o abandono de metas como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU até 2030. “Não se trata de caridade, mas de abordar as disparidades enraizadas em séculos de exploração, interferência e violência contra os povos da América Latina e do Caribe, da África e da Ásia”, enfatizou. Ele chamou atenção para a contradição entre o PIB global, estimado em mais de US$ 100 trilhões, e a persistência da pobreza extrema que afeta mais de 700 milhões de pessoas.
Sobre a crise climática, Lula criticou a falta de compromissos efetivos por parte dos países desenvolvidos. Segundo ele, “o ano de 2024 foi o mais quente da história, mostrando que a realidade está se movendo mais rapidamente do que o Acordo de Paris”. Lembrou ainda que as promessas de financiamento climático feitas em 2009 na COP 15, como o repasse anual de US$ 100 bilhões, nunca foram cumpridas. “O recente aumento nos gastos militares da OTAN torna essa possibilidade ainda mais remota”, escreveu.
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Lula concluiu o artigo reafirmando a vocação diplomática do Brasil e o papel do país na construção de consensos em meio a cenários adversos. “Em tempos de crescente polarização, termos como ‘desglobalização’ se tornaram comuns. Mas é impossível ‘desplanetar’ nossa existência compartilhada”, afirmou. “Esse é o entendimento que o Brasil — cuja vocação sempre foi fomentar a colaboração entre as nações — demonstrou durante sua presidência do G20 no ano passado e continua demonstrando em suas presidências do Brics e da COP 30 neste ano.”