Eleição no Rio expõe a confusão partidária que virou regra no Brasil

André Pereira César – Brasília

A disputa eleitoral deste ano no estado do Rio de Janeiro talvez seja o retrato mais didático da confusão partidária que se consolidou no país. Mais do que alianças improváveis, o que se vê é a diluição completa das fronteiras ideológicas, programáticas e até eleitorais.
Grupos que se enfrentam no plano nacional dividem palanques nos estados, enquanto adversários históricos passam a conviver como aliados circunstanciais. Para o eleitor médio, o resultado é simples: ninguém entende mais nada. E isso, no limite, corrói a democracia.
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Aos fatos. Favorito ao governo estadual, o prefeito Eduardo Paes (PSD) optou por ceder a vaga de vice de sua chapa ao MDB. Em um sistema presidencialista de coalizão, a movimentação, isoladamente, não causa espanto. O problema surge quando se observa quem comanda o MDB fluminense.
Washington Reis, ex-deputado federal e presidente estadual da legenda, é figura publicamente associada ao bolsonarismo e integrou o governo Cláudio Castro (PL) como secretário de Transporte e Mobilidade Urbana. Castro, vale lembrar, deve disputar uma vaga no Senado.
O desenho ganha contornos ainda mais delicados com a escolha da vice. Jane Reis, advogada, irmã de Washington e ligada à Assembleia de Deus, será companheira de chapa de Paes. A equação é simples e desconcertante: um candidato apoiado por Lula terá como vice a irmã de um dos principais aliados regionais do bolsonarismo. Tudo em família.
Eduardo Paes, por sua vez, mantém relação próxima com o presidente Lula, que não esconde o apoio ao prefeito carioca. Ainda assim, setores do PT do Rio demonstram desconforto com a composição. A crítica não é apenas ideológica, mas estratégica.
Ao dividir o palanque com figuras alinhadas à direita nacional, o PT corre o risco de diluir sua identidade junto a um eleitorado que já demonstra sinais de cansaço com alianças contraditórias.
O paradoxo se aprofunda quando se observa o papel de Washington Reis na disputa presidencial. Principal liderança política de Duque de Caxias, município estratégico da Baixada Fluminense, ele tende a apoiar o candidato da direita ao Planalto, possivelmente o senador Flávio Bolsonaro.
Ou seja, o mesmo dirigente partidário que estará no entorno de um aliado de Lula no Rio deverá trabalhar, nacionalmente, contra o próprio presidente. Dormir com o inimigo deixa de ser metáfora e vira método.
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A cerimônia de recondução de Washington Reis à presidência do MDB fluminense ajuda a ilustrar o cenário. Estiveram presentes lideranças do PSD, como o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, adversário declarado de Lula. Michel Temer, ex-presidente e figura central do MDB, enviou mensagem. O evento sintetiza o espírito da política atual: alianças móveis, discursos ambíguos e uma convivência pragmática entre projetos opostos.
A escolha de Jane Reis para a vice também carrega um cálculo eleitoral evidente. Sua ligação com o meio evangélico é vista como um ativo para atrair votos desse segmento, cada vez mais decisivo no estado. A aposta, porém, não é isenta de riscos.
Parte do eleitorado progressista pode enxergar a estratégia como concessão excessiva, enquanto o eleitor conservador pode não se sentir plenamente representado por uma chapa associada ao campo lulista.
No pano de fundo de tudo isso está o estilo já conhecido do presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab. No Rio, como em outros estados, Kassab mantém um pé em cada canoa. A lógica é clara: reduzir riscos, maximizar chances e garantir espaço em qualquer cenário vencedor.
Do ponto de vista da sobrevivência partidária, a estratégia funciona. Do ponto de vista do sistema político, ela aprofunda a sensação de que partidos deixaram de representar projetos claros de país.
O caso fluminense não é exceção. Ele apenas escancara uma dinâmica que se espalhou pelo Brasil. A fragmentação partidária, somada ao pragmatismo extremo, transformou eleições em disputas de engenharia política, pouco conectadas a programas, ideias ou compromissos de longo prazo. O eleitor é chamado a escolher pessoas, não projetos. E, muitas vezes, sequer consegue identificar quem está de qual lado.
As consequências não são triviais. Quando alianças se tornam incompreensíveis, cresce o desencanto com a política institucional. A abstenção aumenta, o voto perde sentido programático e o espaço para soluções autoritárias ou personalistas se amplia. Democracias não morrem apenas por golpes. Elas também se desgastam quando deixam de oferecer escolhas inteligíveis.
A campanha ainda nem começou oficialmente, e o Rio de Janeiro já oferece um cardápio completo dessa salada política. Resta saber se, ao longo do processo, as chapas conseguirão construir narrativas minimamente coerentes ou se o pragmatismo seguirá atropelando qualquer tentativa de clareza.
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De todo modo, uma coisa é certa: mais do que decidir um governo estadual, a eleição fluminense será um teste sobre até onde vai a tolerância do eleitor com a confusão partidária que virou regra no Brasil.
*André Pereira César é cientista político e sócio da Hold Assessoria Legislativa.