Due diligence e venda de empresas: caminhos usados pelo mercado legaltech

Priscila Spadinger*

O cenário de Fusões e Aquisições (M&A) e a captação de investimentos (fundraising) são frequentemente retratados como uma batalha de planilhas, demonstrações financeiras e inovações tecnológicas. No mercado de LegalTech, que movimenta investimentos volumosos e cria ecossistemas de valuation na casa das centenas de milhões, essa impressão é ainda mais forte: parece ser uma disputa vencida apenas por algoritmos superiores e arquiteturas de dados robustas.
Embora a solidez estrutural seja um requisito básico e inegociável, a experiência de quem vive o dia a dia desses processos revela uma verdade fundamental: nenhum negócio de alto impacto é concretizado sem a construção estratégica e meticulosa de relacionamentos humanos. O exit bem-sucedido ou a rodada de investimento que muda o patamar de uma empresa depende de um fator que transcende a tecnologia: a confiança mútua.
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O pilar da governança: a “due diligence dura” aprimorada pela IA
Para se apresentar a um adquirente ou investidor, toda empresa, seja ela uma LegalTech de crescimento exponencial ou um PME consolidado em serviços, deve dominar o primeiro pilar: a Governança.
A Due Diligence (DD) tradicional é o processo de auditoria legal, financeira e operacional que visa mitigar riscos. Hoje, a IA não apenas acelera essa etapa, mas a torna mais profunda.
Ferramentas de LegalTech alimentadas por Inteligência Artificial conseguem varrer milhares de contratos, identificar gaps de compliance e mapear passivos fiscais e trabalhistas em tempo recorde. Isso é crucial:
Valuation Otimizado: A governança prática e documentada reflete-se diretamente no valuation.
Uma casa organizada tem um preço maior. Para o mercado LegalTech, a maturidade na gestão de dados e a segurança (o domínio do CyberLaw na prática) são diferenciais que justificam múltiplos mais altos.
Transparência e Rapidez: Um data room impecável, preparado com a ajuda de softwares de gestão, sinaliza ao mercado que a empresa é séria e está pronta para o próximo nível.
A ausência de surpresas indesejadas encurta o time-to-close do negócio e aqui na Aleve somos “neuróticos” por plataformização dos dados, visando a organização para entrada de investidores ou M&A futuro nas empresas startups LegalTechs do nosso portfolio.
A lição do setor LegalTech é clara: use a tecnologia para automatizar a DD dura. Isso libera o tempo de todos os envolvidos para o que realmente importa: a negociação estratégica e a construção da parceria.
O fator humano: a ‘soft due diligence’ inegociável
Com a parte técnica em ordem, o foco se move para o segundo, e frequentemente decisivo, pilar: o Relacionamento. Um investidor ou adquirente não compra apenas ativos e tecnologia; ele compra uma visão e, acima de tudo, pessoas. Uma estratégia de exit ou fundraising que se limita a um pitch de 15 minutos e um deck brilhante está fadada ao fracasso, independentemente do quão inovadora seja a solução.
O conceito de “soft due diligence” é o reconhecimento de que a compatibilidade cultural, a ética dos fundadores e o alinhamento de propósito são os verdadeiros catalisadores de um deal de sucesso.
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Alinhamento de visão a longo prazo: o processo de M&A e investimento é um “casamento” de longo prazo. As discussões de relacionamento humano, que podem parecer apenas a parte “social” do negócio, são o termômetro para saber se os parceiros compartilham a mesma ideia sobre o futuro. O que o adquirente quer da sua empresa em 5 anos? O que o investidor espera do seu time? A clareza e a convergência dessas expectativas devem ser construídas através de conversas francas e contínuas, muito antes de qualquer contrato ser assinado.
A importância da reputação e confiança: no mercado jurídico, que é tradicionalmente conservador, a reputação é a moeda mais valiosa. O investidor ou adquirente fará uma due diligence informal sobre como você lidera, como lida com o estresse e como cumpre sua palavra. A confiança não é um item da planilha, mas a ausência dela pode derrubar um valuation inteiro.
O pitch é a ponta do iceberg: a estratégia de fundraising e exit mais eficiente não se baseia em atirar pitches para todos os lados. Ela é construída sobre um funil de relacionamento que identifica parceiros estratégicos que já compartilham seus valores. O esforço deve ser concentrado em nutrir esses relacionamentos – seja em eventos, reuniões informais ou através de referências – garantindo que, quando o momento do pitch chegar, a confiança já esteja estabelecida.
A dualidade que vence no mercado
A grande lição do mercado de legaltech, que hoje se consolida com ecossistemas robustos e planos de crescimento ambiciosos para os próximos anos, é a síntese entre o rigor técnico e a inteligência emocional.
Para o pequeno e médio negócio que planeja um exit ou busca capital, a mensagem é clara. Não ignore a IA: use-a para tornar sua governança e seu data room à prova de falhas. Garanta que o Direito Empresarial e o compliance estejam impecáveis.
Invista no humano: trate cada interação com potenciais parceiros como a etapa mais crítica da due diligence. Relacionamentos sólidos são a garantia de que, mesmo diante de um passivo inesperado ou de uma divergência contratual, o negócio será fechado, pois a confiança para resolver o problema já existe e aqui na Aleve abrimos portas de maneira bem ágil pela nossa história.
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Em última análise, as maiores vitórias em M&A e fundraising pertencem àqueles que entendem que o capital mais importante a ser captado é o capital humano e a confiança do seu parceiro de negócios. É a partir desse fundamento relacional que qualquer LegalTech, ou qualquer empresa, constrói sua base para o crescimento e garante seu caminho para um exit de sucesso.
*Priscila de Oliveira Spadinger é CEO da Aleve LegalTech Ventures S/A e colunista do Portal Lex Legal Brasil. Lidera iniciativas de inovação jurídica e acompanha de perto a jornada de dezenas de LegalTechs brasileiras.
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