Dez cidades mais violentas do Brasil expõem avanço do crime fora dos grandes centros

Dez cidades mais violentas do Brasil expõem avanço do crime fora dos grandes centros
Maranguape (CE), município com cerca de 140 mil habitantes na Região Metropolitana de Fortaleza, aparece em primeiro lugar, com taxa de 79,9 mortes por 100 mil habitantes/Reprodução
Publicado em 24/07/2025 às 15:00

Da redação de LexLegal

Enquanto o Brasil comemora uma tímida redução de 5,4% nas mortes violentas intencionais em 2024, com taxa nacional de 20,8 por 100 mil habitantes, o Anuário Brasileiro de Segurança Pública revela que a violência está longe de ser um problema equitativamente distribuído. Dez municípios do Nordeste, a maioria de médio porte e fora dos grandes centros econômicos, lideram o ranking das cidades mais letais do país — todas com taxas superiores a 65 mortes para cada 100 mil habitantes, chegando a alarmantes 79,9.

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Os dados apontam para um fenômeno crescente: o avanço da criminalidade armada para áreas urbanas intermediárias, onde o Estado muitas vezes falha em garantir presença institucional, deixando vácuos que são rapidamente ocupados por facções criminosas. As cidades mais violentas do Brasil em 2024 foram Maranguape (CE), Jequié (BA), Juazeiro (BA), Camaçari (BA), Cabo de Santo Agostinho (PE), São Lourenço da Mata (PE), Simões Filho (BA), Caucaia (CE), Maracanaú (CE) e Feira de Santana (BA).

Arte – LexLegal

Todas essas cidades enfrentam disputas territoriais intensas pelo controle do tráfico de drogas, com atuação de facções locais e nacionais. O Ceará, por exemplo, vem enfrentando há anos uma guerra entre o Comando Vermelho e a facção Guardiões do Estado (GDE), enquanto a Bahia tem sido palco da expansão simultânea do CV e do PCC em meio à fragilidade da política de segurança estadual.

O contraste regional é gritante. Enquanto o Sudeste e o Sul têm taxas de homicídios abaixo da média nacional, o Norte e o Nordeste seguem puxando os indicadores para cima. O Amapá, por exemplo, tem a maior taxa estadual: 45,1 por 100 mil. Em São Paulo, o número é de apenas 8,2.

Essa diferença não é apenas estatística. Ela revela disparidades históricas de investimento público, desigualdade social, infraestrutura policial e políticas de prevenção à violência. Em muitos dos municípios mais violentos, a polícia é a única presença estatal visível — e nem sempre com bons resultados.

Cidades em disputa

Maranguape (CE), município com cerca de 140 mil habitantes na Região Metropolitana de Fortaleza, aparece em primeiro lugar, com taxa de 79,9 mortes por 100 mil habitantes. A cidade se tornou ponto estratégico na guerra entre facções que dominam a capital e buscam expandir suas zonas de influência para cidades satélites.

Jequié (BA), segunda no ranking com taxa de 77,6, viu uma escalada de homicídios motivados por retaliações entre grupos armados locais, que exploram tanto o varejo de drogas quanto atividades de extorsão e milícia. A ausência de políticas urbanas e sociais profundas contribui para o agravamento do problema.

Outras cidades como JuazeiroCamaçari e Feira de Santana (todas na Bahia), além de Caucaia e Maracanaú(Ceará), compõem o cenário de alta letalidade. Embora estejam em regiões metropolitanas ou próximas a capitais, sofrem com a ausência de políticas coordenadas de segurança interestadual.

Região Metropolitana do Recife também aparece no levantamento com Cabo de Santo Agostinho e São Lourenço da Mata, revelando que a violência migrou da capital para áreas vizinhas. As cidades são cortadas por importantes corredores logísticos e sofrem com urbanização acelerada, precária e desordenada.

Letalidade policial e impunidade

O Anuário também aponta que 14% de todas as mortes violentas intencionais no Brasil em 2024 foram causadas por policiais. Em algumas cidades, como Itabaiana (SE), Santos (SP) e São Vicente (SP), mais da metade dos homicídios registrados foram praticados por agentes do Estado, configurando uso desproporcional da força.

Entre os policiais, o risco também é alto. Houve mais mortes por suicídio do que por assassinato fora do horário de serviço: 126 casos contra 124. A categoria enfrenta jornadas extensas, condições emocionais críticas e ausência de suporte psicológico — especialmente em regiões com alta exposição à criminalidade.

Perfil das vítimas

As vítimas da violência homicida no Brasil continuam tendo rosto, cor, idade e local bem definidos. São, majoritariamente, homens (98,4%), negros (65,4%) e com idade entre 40 e 49 anos (32,8%). Quase 94% das mortes foram causadas por armas de fogo e 77% ocorreram em via pública. Esses números se repetem nas cidades mais violentas.

A letalidade contra crianças e adolescentes aumentou 3,7%, contrariando a tendência geral. Em 2024, foram 2.356 mortes violentas intencionais de pessoas entre 0 e 17 anos. A maior parte dos casos está associada à violência doméstica, abandono e exposição a ambientes controlados por facções armadas.

Falta de prevenção, sobra de armas

A política de controle de armas também mostra impacto. Desde 2022, o número de novas pessoas com registro como CAC (Caçador, Atirador e Colecionador) caiu 79,4%, mas ainda há mais de 5,4 milhões de armas registradas em nome de civis, sendo 1,5 milhão ligadas a esse público. Fiscalizá-las tornou-se um desafio crescente para a Polícia Federal.

Mesmo com a retomada da política de desarmamento e a queda nos registros de novos armamentos, os efeitos do aumento descontrolado entre 2019 e 2022 ainda são sentidos em muitas cidades, inclusive nos municípios que aparecem como os mais violentos.

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Custo da violência

Em 2024, os gastos com segurança pública no Brasil somaram R$ 153 bilhões, um aumento de 6,1% em relação ao ano anterior. O maior salto veio dos municípios, que ampliaram os investimentos em 22%. Ainda assim, muitos prefeitos reclamam da sobrecarga, da falta de coordenação com estados e União e da ausência de políticas sociais integradas.

SÃO PAULO WEATHER