Daniel Marques, da AB2L: “O Brasil é o Vale do Silício do Direito”

Luciano Teixeira – São Paulo
A tecnologia jurídica brasileira vive um momento de expansão sem precedentes, com o país se consolidando como um dos polos mais dinâmicos do mundo em inovação no Direito. Nos últimos 18 meses, o setor movimentou cerca de R$ 2 bilhões em investimentos, atraindo atenção de fundos nacionais e internacionais e registrando operações de destaque no mercado, como a aquisição da LegalLabs pela Neoway e da D4Sign pela italiana Zucchetti.
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Nesse cenário, a Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs (AB2L) se firmou como protagonista. Criada em 2017 com apenas 20 empresas associadas, a entidade ultrapassou a marca de mil membros, reunindo startups, escritórios de advocacia, departamentos jurídicos, universidades e órgãos públicos. Hoje, é considerada a maior associação do setor no mundo, articulando pautas estratégicas e influenciando o debate sobre transformação digital da Justiça.
O crescimento da AB2L acompanha mudanças estruturais no ecossistema jurídico brasileiro. A aceleração tecnológica, impulsionada por inteligência artificial, automação e gestão de dados, redefine o papel dos profissionais do Direito e amplia as possibilidades de acesso à Justiça. Ao mesmo tempo, cria desafios regulatórios e culturais, exigindo novos modelos de governança e de capacitação.
Foi nesse contexto que Daniel Marques, presidente da AB2L, concedeu entrevista a LexLegal durante o AB2L Lawtech Experience, realizado em São Paulo. Na conversa, ele analisou o ambiente regulatório, apontou áreas em que o Brasil já se destaca globalmente e avaliou a importância da internacionalização para consolidar a competitividade das soluções jurídicas nacionais.
Marques também abordou o papel das lawtechs na democratização do acesso à Justiça e reforçou que o país reúne a maior diversidade de soluções jurídicas do mundo. Para ele, superar resistências culturais e melhorar a gestão nos escritórios e departamentos jurídicos será fundamental para ampliar a adoção de tecnologia e garantir que o Brasil continue a liderar a inovação no setor.
LexLegal: Qual a diferença entre legaltech e lawtech? Qual dos dois termos é mais adotado no Brasil?
Daniel Marques: Para nós, na AB2L, não há diferença prática entre lawtech e legaltech – todas são empresas que oferecem soluções tecnológicas para o mundo do direito e da justiça. A diferença é mais cultural: nos Estados Unidos, fala-se mais em legaltech; na Inglaterra, grandes nomes como Richard Susskind usam mais o termo lawtech. Em vez de gastar energia discutindo termos, adotamos ambos. Isso ajudou a criar uma comunidade ampla e conectada.
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LexLegal: Quais são os principais desafios para as lawtechs hoje?

Daniel Marques: O Brasil é o “Vale do Silício do Direito” – temos a maior diversidade de soluções jurídicas do mundo e a AB2L é a maior associação de inovação jurídica globalmente. Mas ainda falta maturidade na adoção da tecnologia. Muitos advogados não colocam o cliente no centro do negócio e mantêm estruturas hierarquizadas, lentas e burocráticas, o que atrasa decisões e implementação de inovações. É preciso mudar a cultura e a gestão para que a tecnologia realmente traga impacto.
LexLegal: Alguns advogados encaram essa adaptação como obrigação. Você vê isso?
Daniel Marques: Sim. Na história, o futuro sempre chega. Há dois tipos de advogados: os que lideram a mudança e os que resistem até serem obrigados a mudar. Muitas vezes essa resistência vem do medo e do desconhecimento. O primeiro passo é conhecer. A AB2L promove o maior evento de inovação jurídica do mundo, então não existe desculpa para não se informar. Quando o profissional conhece, o medo se dissipa e a adesão aumenta.
LexLegal: E quanto ao ambiente regulatório?
Daniel Marques: De forma geral, ele é ruim para a inovação, não só para as lawtechs. O Brasil se vê mais como consumidor do que como produtor de tecnologia, o que limita o potencial regulatório como promotor de inovação. Mas há avanços: o setor de lawtechs e legaltechs foi um dos que mais cresceu em investimentos no último ano, mesmo com quedas em outros segmentos. Estimamos mais de R$ 2 bilhões investidos recentemente. Há também parcerias com o CNJ para criar interoperabilidade entre sistemas, o que é fundamental.
LexLegal: O Brasil ainda é mais consumidor ou já exporta inovação?
Daniel Marques: Já exportamos inovação. Lá fora, o foco costuma estar em contratos, e-discovery e legal project management. Aqui, temos mais de 16 verticais de soluções, como análise estatística de dados judiciais, legal design, plataformas de gestão de processos de massa, mediação e conciliação online e marketplaces jurídicos. Essas são áreas nas quais o Brasil é referência global, tanto no setor privado quanto no público.
LexLegal: Qual é a importância da AB2L para o setor?
Daniel Marques: A AB2L é mais que uma associação: é uma comunidade de pessoas apaixonadas por direito e tecnologia, com propósito de transformação social. Reunimos startups, investidores, escritórios, departamentos jurídicos, academia e órgãos públicos. Organizamos o maior evento de inovação jurídica do mundo, com mais de 6 mil pessoas, 100 estandes e 300 palestras.
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LexLegal: E como você enxerga o futuro das lawtechs no Brasil?
Daniel Marques: Vamos ver mais advogados adotando tecnologia e mais empresas brasileiras expandindo para América Latina, EUA e Europa. Criamos em Londres a AI Twell, aliança internacional de lawtechs e legaltechs, com representantes da Ásia, União Europeia, Índia e África. O Brasil já lidera a inovação jurídica no mundo, e essa aliança é prova disso.