Crédito consignado com garantia do FGTS: O que muda para trabalhadores e consumidores?

Crédito consignado com garantia do FGTS: O que muda para trabalhadores e consumidores?
A regulamentação do novo modelo de crédito consignado ainda está em andamento e pode ser feita por projeto de lei ou medida provisória/Agência Brasil
Publicado em 10/02/2025 às 7:55

Da redação de LexLegal

A possibilidade de um crédito consignado com juros menores para trabalhadores da iniciativa privada, garantido pelo Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), tem gerado expectativas e muitas dúvidas. Anunciada pelo governo como uma solução para ampliar o acesso ao crédito com taxas mais competitivas, a medida ainda depende de regulamentação e da criação de uma plataforma digital para começar a funcionar.

O empréstimo consignado é um tipo de crédito em que as parcelas são descontadas diretamente do salário ou benefício previdenciário do contratante, oferecendo menor risco para os bancos e, consequentemente, juros mais baixos. Com a nova modalidade, os trabalhadores com carteira assinada poderão usar parte dos recursos do FGTS como garantia, incluindo a multa de 40% em casos de demissão sem justa causa e até 10% do saldo do fundo.

Como deve funcionar?

O Ministério do Trabalho e o governo federal planejam implementar a nova modalidade por meio do sistema eSocial, uma plataforma digital já utilizada para gerenciar obrigações trabalhistas. De acordo com o modelo proposto, o trabalhador poderá acessar o eSocial, visualizar as ofertas de crédito de diferentes bancos, comparar as taxas de juros e escolher a opção mais vantajosa. Isso elimina a necessidade de acordos diretos entre empregadores e instituições financeiras, trazendo mais transparência e competitividade.

O secretário-executivo do Ministério do Trabalho, Francisco Macena, destaca que a expectativa é reduzir os juros cobrados neste tipo de operação para níveis próximos aos aplicados a servidores públicos e aposentados. “As garantias atreladas ao FGTS tornam o crédito mais seguro para as instituições financeiras, o que possibilita juros mais baixos”, afirma.

Segundo estimativas, a regulamentação permitirá que os trabalhadores comprometam até 35% de sua renda mensal bruta para o pagamento do empréstimo, incluindo salários, benefícios, abonos e comissões.

Impacto nos consumidores

A possibilidade de taxas mais acessíveis pode trazer alívio para milhões de brasileiros que enfrentam juros elevados em modalidades tradicionais de crédito. Em dezembro de 2024, a taxa média de juros para crédito consignado era de 1,8% ao mês (23,8% ao ano) para servidores públicos e 1,66% ao mês (21,9% ao ano) para aposentados do INSS. Já para trabalhadores do setor privado, os juros chegavam a 2,89% ao mês (40,9% ao ano). A projeção do governo é que os juros para celetistas possam cair em até 40%, aproximando-se dos valores praticados para servidores e aposentados.

“A pessoa vai poder fazer o seu pedido para o banco que oferecer a melhor taxa, com total transparência e eficiência. Isso dá mais poder de escolha ao consumidor”, destaca o ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

De acordo com Isaac Sidney, presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), a medida tem potencial para triplicar o volume de crédito concedido ao setor privado com desconto em folha, passando de R$ 40 bilhões para R$ 120 bilhões. “Estamos assumindo um compromisso de expandir o crédito ao trabalhador celetista, desde que tenhamos acesso às informações via plataforma eSocial”, afirma.

Por outro lado, especialistas em Direito do Consumidor alertam para os riscos de endividamento excessivo. O limite de 35% da renda mensal para comprometer com empréstimos, embora padronizado, pode representar um desafio para trabalhadores que enfrentam imprevistos financeiros. Além disso, a utilização do FGTS como garantia pode reduzir os valores disponíveis para saque em casos de demissão, dificultando o planejamento financeiro dos trabalhadores.

O FGTS, criado para proteger o trabalhador em situações como demissão sem justa causa, funciona como uma poupança compulsória, com depósitos mensais de 8% do salário feitos pelo empregador. A utilização de parte desses recursos como garantia de crédito é vista como uma forma de otimizar o fundo, mas também levanta questionamentos sobre possíveis impactos em sua função original.

Para o consumidor, a principal vantagem será o acesso a crédito com juros mais baixos em um cenário de altas taxas no mercado tradicional. No entanto, é fundamental que os trabalhadores sejam informados de forma clara sobre as condições do empréstimo, os riscos envolvidos e as implicações do uso do FGTS como garantia.

A regulamentação do novo modelo de crédito consignado ainda está em andamento e pode ser feita por projeto de lei ou medida provisória. Paralelamente, o governo trabalha na finalização da plataforma operacional que permitirá o acesso às opções de crédito. A expectativa é que ambas as etapas sejam concluídas ainda este ano, tornando o crédito disponível para um universo de 47 milhões de trabalhadores com carteira assinada.

Enquanto isso, consumidores devem estar atentos às condições que serão estabelecidas para garantir que o crédito consignado com garantia do FGTS seja uma solução vantajosa e segura para seus objetivos financeiros.

SÃO PAULO WEATHER