CPI das Apostas reacende debate sobre influenciadores e a regulamentação da publicidade digital no Brasil

Com mais de 2 milhões de criadores de conteúdo no país, setor enfrenta pressões por regras mais claras e restritivas para anúncios de apostas online

CPI das Apostas reacende debate sobre influenciadores e a regulamentação da publicidade digital no Brasil
Publicado em 03/06/2025 às 10:30

Da redação de LexLegal

A CPI das Apostas Esportivas, também conhecida como CPI das Bets, reacendeu um debate delicado e complexo no país: o papel dos influenciadores digitais na promoção de jogos de azar online. Instaurada pelo Senado Federal no final de 2024, a comissão investiga não apenas a disseminação de plataformas de apostas por meio de criadores de conteúdo, mas também eventuais irregularidades em contratos publicitários, incluindo suspeitas de que a remuneração dos influenciadores esteja vinculada às perdas dos apostadores.

Veja também: CPI das Bets reacende debate jurídico sobre a responsabilidade de influenciadores no marketing digital

Desde os primeiros depoimentos, com destaque para a participação de celebridades com milhões de seguidores, como Virgínia Fonseca, a CPI vem chamando atenção da opinião pública. O foco recai sobre a relação entre o poder de influência digital e a vulnerabilidade dos seguidores, especialmente os mais jovens, frente a produtos de alto risco como as apostas esportivas.

Segundo levantamento da empresa Influency.me, especializado em marketing de influência, o Brasil tem hoje mais de 2 milhões de influenciadores digitais. A maioria está na faixa etária entre 25 e 34 anos (48,66%), seguidos pelo grupo de 13 a 24 anos (39,37%) — uma base de produtores e consumidores de conteúdo altamente conectada e influente, mas ainda sem qualquer tipo de regulamentação específica para a profissão.

Apesar da ausência de normas claras, a percepção entre os profissionais do setor é de que a regulamentação é urgente. Pesquisa nacional conduzida pela Influency.me entre 2024 e 2025, com mais de 350 agentes do ecossistema de influência, revelou que 75% dos assessores de influenciadores77% das agências e 78% dos próprios influenciadores acreditam que o setor deve ser regulado.

Influência sob pressão: como as apostas dominaram a publicidade

Um dos aspectos investigados pela CPI diz respeito ao crescimento acelerado dos investimentos publicitários das casas de apostas em campanhas com influenciadores. Como explicou Rodrigo Azevedo, CEO da Influency.me, esse tipo de publicidade é eficiente porque mobiliza a confiança já estabelecida entre os criadores e seus seguidores.

“Os influenciadores têm uma conexão de confiança com seus seguidores. As pessoas acompanham porque gostam, confiam e se identificam. Isso faz dessa plataforma uma das mais eficazes — e com custo menor do que muitas mídias tradicionais”, afirmou Azevedo.

Segundo ele, o perfil dos empresários do setor de apostas também favorece essa dinâmica. Trata-se de um público que já nasceu no digital e que, ao contrário de empresas mais tradicionais, não hesita em adotar estratégias arrojadas de marketing. “Esse é um público que entende o poder dos influenciadores e, diferente de empresas mais tradicionais, tem menos aversão ao risco. Soma-se a isso margens de lucro muito altas, o que permite investimentos agressivos em marketing”, completou o executivo.

Porém, Azevedo alerta para os limites éticos desse tipo de ação. Ainda que a publicidade seja lucrativa, a exposição negativa pode gerar danos irreversíveis à reputação dos criadores. “Quando um influenciador usa seu poder de influência para divulgar algo que prejudica seus próprios seguidores, isso volta para ele mais cedo ou mais tarde. E o impacto é devastador para a sua imagem”, declarou. Segundo ele, a empresa orienta os influenciadores a recusarem propostas de casas de apostas: “Entendemos que, além de antiético, isso é perigoso tanto para a imagem deles quanto para o público que eles impactam”.

Estratégias de exposição: visibilidade e silenciamento

A fim de evitar críticas abertas do público, muitos criadores optam por divulgar apostas apenas nos stories, recursos que desaparecem após 24 horas e permitem menos interação pública. Quando esses conteúdos são publicados em postagens permanentes no feed, os comentários negativos tendem a se acumular rapidamente, o que mostra a crescente resistência da audiência a esse tipo de publicidade.

Essa tensão é reforçada por dados de impacto social. Uma pesquisa recente do banco Itaú estima que os brasileiros perderam cerca de R$ 24 bilhões em apostas e jogos online em apenas um ano. Diante de cifras tão expressivas e de um mercado ainda pouco transparente, cresce a preocupação com as consequências sociais desse modelo de negócio — especialmente por sua semelhança com jogos de azar tradicionais.

Entre autorregulação e proibição

No campo normativo, o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) publicou o Guia de Publicidade por Influenciadores Digitais, com recomendações para que os conteúdos patrocinados sejam identificados como tal e que experiências pessoais retratadas sejam reais e verdadeiras. Na prática, isso confere ao influenciador o status de agente publicitário, sujeito às normas do Código do Conar.

Mas há dúvidas se essas diretrizes são suficientes. Dada a assimetria de informação entre casas de apostas e consumidores, especialistas apontam que o problema vai além da falta de identificação de conteúdo pago.

“Podemos comparar com o caso do cigarro. Durante anos, tentou-se coibir a propaganda desse produto inserindo avisos e regras. No entanto, a única solução foi a proibição. Igualmente, acredito que o mesmo caminho deveria ser seguido com apostas, porque o impacto social é enorme e devastador”, defendeu Azevedo.

Ele também aponta que as plataformas de apostas funcionam de forma similar a máquinas caça-níqueis, com algoritmos que podem ser ajustados em tempo real para favorecer a casa. “Elas podem controlar os algoritmos e as regras que determinam quando alguém ganha ou perde, o que já torna esse ambiente altamente assimétrico e pouco transparente para o consumidor”, alertou. O impacto, segundo ele, extrapola o indivíduo: “As consequências disso não são apenas individuais, mas coletivas, com famílias inteiras sendo impactadas, aumento do endividamento e até reflexos preocupantes na economia do país”.

Influência digital e responsabilidade social

O trabalho da CPI, que deve se estender ao longo de 2025, expõe uma lacuna importante na legislação brasileira: a ausência de regras claras sobre como influenciadores podem ou não anunciar produtos com potencial lesivo à saúde ou ao patrimônio de seus seguidores. A comparação com setores como o de bebidas alcoólicas e tabaco não é apenas retórica: trata-se de uma reflexão sobre a responsabilidade social dos comunicadores digitais em ambientes de consumo massivo.

Enquanto parte do setor publicitário defende um modelo de autorregulação com base em boas práticas, outras vozes vêm se manifestando pela proibição total da publicidade de jogos de azar em mídias digitais, sob o argumento de que os danos são maiores do que os benefícios.

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O desenrolar da CPI das Apostas pode ser decisivo para que o Brasil avance em uma legislação específica para influenciadores, especialmente em relação à publicidade de produtos sensíveis. Em tempos de alta exposição e influência digital, o que está em jogo vai muito além de curtidas e seguidores: trata-se de proteger consumidores vulneráveis e preservar a integridade de um ecossistema que já movimenta bilhões de reais por ano.

SÃO PAULO WEATHER