Corte da Selic decepciona indústria, comércio e sindicatos

Da redação de LexLegal
A decisão do Comitê de Política Monetária de reduzir a Selic de 15% para 14,75% ao ano abriu o ciclo de queda dos juros, mas não acalmou o mercado produtivo nem os representantes dos trabalhadores. Indústria, comércio e centrais sindicais reagiram com críticas e disseram que o corte foi pequeno demais para aliviar o crédito caro, estimular investimentos e reduzir o peso das dívidas.
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A Selic é a taxa básica de juros da economia. Ela serve como referência para empréstimos, financiamentos e aplicações financeiras. Quando o Banco Central reduz essa taxa, a expectativa é que o crédito fique menos caro e que empresas e consumidores ganhem algum fôlego. O problema, na avaliação de várias entidades, é que a queda anunciada foi modesta demais para gerar efeito relevante no curto prazo.
A Confederação Nacional da Indústria afirmou que o movimento está na direção correta, mas não resolve os principais gargalos da atividade econômica. Para a entidade, a política monetária continua restritiva, expressão usada quando os juros seguem altos o suficiente para frear consumo, investimento e crescimento.
“Essa cautela do Banco Central ainda é excessiva e seguirá penalizando ainda mais nossa economia”, afirma o presidente da entidade, Ricardo Alban.
Segundo a CNI, o quadro recente já mostrava espaço para uma redução mais firme. A entidade cita desaceleração da inflação acumulada em 12 meses, projeções ainda dentro da meta e taxa de juros real elevada. Juros reais são os juros descontada a inflação. Quando esse indicador segue muito alto, o custo efetivo do dinheiro continua pesado para empresas e famílias.
No comércio, a leitura foi parecida. A Fecomércio-SP avaliou que o corte aconteceu em um ambiente complicado, com pressões internas e externas, o que ajuda a explicar a escolha mais conservadora do Banco Central. Ainda assim, a federação disse que o tamanho da redução deixa dúvidas sobre a força do ciclo que começa agora.
“O ciclo de redução da Selic começou, mas a duração e a intensidade dos cortes são cada vez mais incertas”, afirma a entidade.
Na avaliação da federação, a inflação de serviços continua pressionada, enquanto a alta do petróleo no cenário internacional dificulta uma queda mais rápida dos juros. Esse ponto pesa porque serviços costumam reagir mais lentamente à política monetária e tendem a manter os preços pressionados por mais tempo.
As incertezas externas também entraram no centro do debate. O conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel elevou o preço do petróleo e aumentou o risco de pressão sobre combustíveis e inflação. Em situações assim, o Banco Central costuma agir com mais cautela para não cortar juros rápido demais e perder o controle dos preços.
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Para a Associação Comercial de São Paulo, a autoridade monetária adotou uma linha prudente diante desse cenário. “A desaceleração da atividade econômica acabou pesando mais, justificando uma política monetária menos contracionista, porém cautelosa”, afirma o economista Ulisses Ruiz de Gamboa.
Do lado dos trabalhadores, o tom foi ainda mais crítico. A Contraf-CUT avaliou que a redução foi insuficiente para aliviar o peso do endividamento, especialmente em um ambiente em que famílias seguem pressionadas por juros altos no crédito bancário.
“A medida anunciada é insuficiente para reverter esse quadro”, afirma o economista Gustavo Cavarzan, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), em nota emitida pela Contraf-CUT.
A Força Sindical também considerou acertado o início do corte, mas criticou a intensidade da decisão. Para a entidade, a redução ficou aquém do necessário para reanimar a economia, fortalecer o consumo e abrir espaço para mais contratações.
“Mantendo a Taxa Selic em patamares estratosféricos, o Banco Central irá prejudicar as negociações das categorias nas campanhas salariais nesse primeiro semestre”, ressalta o presidente da Força Sindical, Miguel Torres, em nota.
Apesar das diferenças de diagnóstico, o ponto comum entre indústria, comércio e trabalhadores é claro. Todos reconhecem que o ciclo de queda começou, mas dizem que o ritmo dos próximos passos será decisivo para medir se o Banco Central realmente pretende aliviar a economia ou apenas sinalizar prudência em meio a um cenário ainda instável.
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Para esses setores, cortes mais fortes seriam importantes para destravar investimentos, reduzir o custo do crédito e diminuir o peso do endividamento sobre famílias e empresas. Sem isso, a queda da Selic corre o risco de virar mais um gesto simbólico do que uma mudança capaz de mexer de fato com a economia real.