Core bancário próprio: desafio técnico, risco regulatório ou vantagem competitiva?

Core bancário próprio: desafio técnico, risco regulatório ou vantagem competitiva?
Desenvolver um core próprio exige preparo, mas oferece autonomia e vantagem competitiva a longo prazo/Freepik
Publicado em 04/07/2025 às 13:00

André Marcusso Neiva*

Desenvolver um core bancário próprio, em vez de adotar soluções prontas do mercado, é uma decisão estratégica de alto impacto e de alta complexidade. Antes de entrar nos desafios técnicos e regulatórios envolvidos, é essencial entender quando vale a pena partir para um core proprietário. Em linhas gerais, essa escolha faz sentido quando há: visão clara sobre o roadmap de produtos, forte senioridade técnica interna, intenção de ofertar soluções complexas como crédito, câmbio e investimentos e objetivo concreto de construir uma experiência personalizada e diferenciada para o usuário.

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Sendo assim, os desafios se acumulam. No campo técnico, o primeiro passo é desenhar uma arquitetura robusta, com foco em resiliência, escalabilidade, alta disponibilidade e tolerância a falhas. Isso envolve redundância de ambientes, replicação de dados, trilhas de auditoria, geração de logs e planos sólidos de recuperação de desastres. A segurança da informação também exige atenção máxima, com criptografia forte, autenticação multifator, incluindo biometria facial, gestão rígida de acessos e integração com ferramentas de prevenção a fraudes.

A adequação às normas é outro ponto crítico. A estrutura precisa estar em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), com a norma ISO 27001 (relacionada à segurança da informação) e com o padrão PCI DSS (Padrão de Segurança de Dados da Indústria de Cartões de Pagamento), especialmente se houver produtos vinculados a cartões. Do ponto de vista operacional, o core deve estar preparado para integrar diretamente com os sistemas do Banco Central e do Sistema Financeiro Nacional, como o Sistema de Pagamentos Instantâneos (SPI), o Diretório de Contas Transacionais (DICT), a Rede do Sistema Financeiro Nacional (RSFN) e o Sistema de Liquidação de Compensações (SLC), além de câmaras de compensação, scoring, soluções antifraude e validação de identidade (KYC – Know Your Customer).

Outro aspecto técnico muitas vezes negligenciado é a robustez da gestão contábil e fiscal. Muitos projetos pecam ao tratar essa camada como periférica, quando ela é justamente um dos alicerces mais fiscalizados pela regulação.

Já entre os desafios regulatórios, o primeiro é obter a autorização do Banco Central do Brasil, o que exige aderência a regras de capital mínimo, governança e controles internos, dependendo do tipo de licença pretendida como Instituição de Pagamento, Sociedade de Crédito Direto, Sociedade de Crédito, Financiamento e Investimento ou Banco Múltiplo. Além disso, há exigências relativas à prevenção à lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo, políticas de crédito, adesão ao Cadastro Positivo e envio de relatórios obrigatórios como o Sistema de Informações de Crédito (SCR) e o Cadastro de Clientes do Sistema Financeiro Nacional (CCS). Tudo isso exige um time jurídico e de compliance experiente e bem articulado com as áreas técnicas.

Uma dúvida comum é: como garantir que esse core esteja aderente às exigências regulatórias desde sua concepção? A resposta está no desenho de uma arquitetura modular, com domínios e responsabilidades claramente definidos, e com base na leitura detalhada das regulações, manuais técnicos e regras de participação nos sistemas do Banco Central. Contar com consultorias especializadas pode ser decisivo para transformar requisitos legais em funcionalidades operacionais.

Apesar dos custos e da complexidade, as vantagens estratégicas de um core próprio são reais: liberdade de gestão, autonomia sobre os produtos e agilidade para ajustar experiências ao perfil do cliente. Além disso, há maior flexibilidade para integrações com o Open Finance, com soluções de pagamentos como o Pix e com novos modelos de negócio. O segredo está em fazer um cálculo honesto entre a capacidade técnica disponível e a ambição estratégica da empresa — só vale a pena se a estrutura for capaz de entregar retorno proporcional ao investimento.

Um dos erros mais recorrentes das empresas que optam por desenvolver um core é subestimar a complexidade, o prazo e o custo do projeto. Isso costuma levar a retrabalho, multas, atrasos na obtenção de licenças e até inviabilidade do negócio. Também é comum ver empresas ignorando partes críticas como contabilidade e prevenção à lavagem de dinheiro, enquanto concentram seus esforços apenas em produtos transacionais.

Para acelerar esse desenvolvimento, tecnologias como computação em nuvem (cloud computing), microsserviços e APIs abertas podem ser grandes aliadas — desde que bem utilizadas. Plataformas cloud oferecem kits de desenvolvimento (SDKs), motores de regras, soluções de autenticação e geração de relatórios que reduzem drasticamente o tempo de construção. Contudo, é preciso ter atenção à dependência tecnológica e à segurança da infraestrutura escolhida.

Por fim, a construção de um core bancário proprietário não é uma jornada isolada da área de tecnologia. O sucesso do projeto depende da atuação coordenada entre times técnicos, jurídico, compliance e negócios. A definição clara de papéis, a formação de comitês e a adoção de metodologias de governança de projeto são fundamentais para que as entregas avancem com consistência e sem desvios críticos.

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Desenvolver um core próprio exige preparo, mas oferece autonomia e vantagem competitiva a longo prazo. Para quem tem visão estratégica e capacidade de execução, pode ser o diferencial entre apenas operar no sistema financeiro ou realmente transformá-lo. 

*André Marcusso Neiva é diretor executivo de tecnologia – especialista em tecnologia, segurança da informação e prevenção a fraude no Mêntore Bank.

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